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Entrevista

- Publicada em 21h00min, 03/06/2021.

ESG não promove mudanças profundas sozinho, diz professor

Josilmar Cordenonssi, professor de Economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Josilmar Cordenonssi, professor de Economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie


/MACKENZIE/DIVULGAÇÃO/JC
Carlos Villela
A condução de políticas ambientais pode ser critério importante para a realização de investimentos no País atualmente. De acordo com Josilmar Cordenonssi, professor de Economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, embora fundamentadas em valores importantes de preservação, muitas vezes as medidas empresariais com foco em boas práticas sociais e ambientais são reflexo de outros interesses financeiros. Mesmo assim, é cada vez mais importante para as empresas o tripé ESG, sigla em inglês para ambiental, social e governança.
A condução de políticas ambientais pode ser critério importante para a realização de investimentos no País atualmente. De acordo com Josilmar Cordenonssi, professor de Economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, embora fundamentadas em valores importantes de preservação, muitas vezes as medidas empresariais com foco em boas práticas sociais e ambientais são reflexo de outros interesses financeiros. Mesmo assim, é cada vez mais importante para as empresas o tripé ESG, sigla em inglês para ambiental, social e governança.
Jornal do Comércio - Qual o valor das boas práticas ambientais, sociais e de governança para as empresas?
Josilmar Cordenonssi - De uma forma bem ampla, vejo esse movimento da empresa cuidar, além do seu lucro, da parte social e ambiental, em um certo conflito com algumas teorias econômicas. O Milton Friedman (economista da Escola de Chicago vencedor do prêmio Nobel) falava no passado que, ao querer que uma empresa faça benfeitorias para a comunidade, meio ambiente ou sociedade, você tira o foco da empresa, cuja grande função social é geral lucro. De um ponto de vista economicista, por dizer assim, ele está correto. Agora, existe um certo limite, e isso é papel dos reguladores. Deve se colocar no início as restrições de geração de lucro da empresa para que não contamine o meio ambiente, para que não use trabalho escravo, esse é o papel do poder público: forçar as empresas a não ultrapassar esses limites. O grande risco dessa visão de Friedman é as empresas ficarem muito poderosas financeiramente e capturarem o poder e as agências reguladoras. Um exemplo é o da Vale, que tinha uma imagem muito boa do ponto de vista ambiental e também de respeito à comunidade, funcionários e sociedade, até que teve o problema do Rio Doce, e depois de Brumadinho, e a imagem foi por terra. Acho que o movimento de ESGs é bem-vindo, e no fundo é fruto de uma certa conscientização ecológica e também de uma desigualdade de renda que temos no mundo ocidental, especialmente no Brasil, mas ainda temo que é uma visão mais de marketing do que uma mudança muito profunda. Às vezes é mais barato para as empresas se apresentarem de modo amigável com a natureza e com a sociedade do que fazer propaganda institucional para melhorar a imagem, então de uma certa forma ela tem esse ganho, então é uma coisa mercadológica. Essa questão também pode ser usada por países europeus para impor barreiras comerciais contra o Brasil, se continuar com desmatamento os agricultores franceses podem pressionar a União Europeia a impor barreira a produtos brasileiros, por exemplo. É um campo de batalha, porque o meio ambiente é uma questão importante, mas por trás dele tem muitos interesses econômicos.
JC - O Brasil vem sendo criticado internacionalmente, por imprensa, entidades e governos, nos últimos anos pela condução das políticas ambientais no País. A conscientização ambiental pode ficar mais forte no Brasil, e eventualmente diminuir essa cobrança sobre o país?
Cordenonssi - Acho que é um item sensível ao Brasil, e como o mundo não tem controle sobre a nossa Amazônia, eles podem exercer uma certa pressão com sanções econômicas e imposição de tarifas em nossos produtos para que nosso governo aja do jeito q eles querem, e isso com certeza vai acontecer se a gente sair da linha. Esse é o risco que corremos hoje. Acho que não é um modismo, veio para ficar, especialmente enquanto nós tivermos essa ameaça de aquecimento global. Enquanto não controlarmos emissão de carbono etc., a pressão vai ser grande. Mas o que vejo é uma certa hipocrisia que se coloca aqui para a gente mas lá fora não se tem as mesmas cobranças. Se tem muito foco aqui no Brasil e relativamente pouco foco na Austrália, que é o maior emissor de CO2 per capita no mundo, mas não se escuta falar na Austrália como grande vilão mesmo tendo uma matriz energética bastante poluente, e no imaginário internacional o Brasil, por ter a maior floresta tropical do mundo, pode ser o grande vilão. É uma questão significativa para a nossa agricultura, os produtos agrícolas que a gente mais exporta podem ter sanções e sofrer fortemente. E ao Brasil não interessa entrar nessa briga, a gente consegue aumentar a produtividade sem fazer desmatamento. Acho que esse é um desafio nosso, explorar a Amazônia de forma inteligente e economicamente rentável.
JC - Os índices de sustentabilidade, como o ISE da B3, têm colaborado com a adoção dos critérios ESG nas empresas? Os investidores brasileiros tem demonstrado interesse em ter carteiras responsáveis?
Cordenonssi - Isso é muito novo. Na verdade o critério para colocar no índice de sustentabilidade as vezes é um pouco arbitrário. Lembro quando a Petrobras estava nesse índice que prometia cumprir tudo, mas depois no governo Dilma quando foi o momento da implantação de um diesel mais sustentável que diminuiria poluição, a Petrobras não fez esse investimento e, na época, a BM&FBOVESPA tirou a Petrobras desse índice. Como eles querem manter que investir em sustentabilidade dá maior retorno a Bovespa, tentam colocar empresas que tem rentabilidade maior do que empresas normais do Bovespa. Eu acredito que existe um certo gerenciamento de resultados na construção do índice, mas não vejo um aumento de investimentos. Os investidores ainda não estão sensíveis a essa temática no Brasil ainda, mas lá fora sim. Para atrair capital externo, isso pode ser mais importante, especialmente fundos soberanos. Existe uma pressão política muito grande nesse tipo de fundo de investimento estatal.
JC - O senhor percebe que a pauta de boas práticas ambientais é um ponto defendido com mais força pela Europa do que por outros países desenvolvidos, como os Estados Unidos?
Cordenonssi - Sem dúvida. É onde essa questão é mais avançada, são países que têm consciência ecológica muito desenvolvida, como a Alemanha, que hoje é líder em energia solar e renovável, a França, Inglaterra e países escandinavos também. Já nos Estados Unidos pouco tempo atrás o presidente era o Trump e ele subsidiou a indústria do carvão tentando reativá-la. Lá não chega a ser política de estado, depende do governo, enquanto na Europa não, é uma questão mais política de toda a união europeia, uma posição ainda mais sólida.
JC - Empresas com boas práticas ambientais tendem a ter retorno financeiro maior? É possível medir os valores desses ativos intangíveis?
Cordenonssi - Tem esse discurso de que as empresas que estão em índices de sustentabilidade têm retorno maior, mas as empresas que fazem práticas sustentáveis, no fundo, são rentáveis. Elas já têm rentabilidade, e podem se dar ao luxo de gastar um pouco mais para fazer essas práticas. As empresas que não são rentáveis estão lutando para sobreviver, e não conseguem pagar por esse marketing. Sou um pouco critico a essa ideia de que empresas sustentáveis são mais rentáveis, acho que é o oposto: elas são sustentáveis porque são rentáveis. Isso é usado para vender a ideia de que ser sustentável é bom. Mas, junto a isso, você tem muitas empresas de energia renovável que estão sendo muito mais rentáveis do que empresas de combustíveis fósseis, então está ocorrendo uma revolução tecnológica que está tornando a energia solar e eólica muito competitiva, e as petrolíferas estão caindo. Você tem lugares que a partir de 2030 não terão mais venda de carro novo movido a combustível fóssil. É uma sinalização clara que vai ter que ter energia renovável, e isso faz o mundo ficar mais sustentável ambientalmente. Nem tanto as práticas ESG, mas sim a força da regulação firme do Estado que vai fazer com que haja uma mudança clara.
JC - O fortalecimento do mercado de green bonds pode ajudar a economia nacional?
Cordenonssi - De certa forma você consegue atrair capital mais barato se você rezar conforme a cartilha. Teoricamente pode ser benéfico, mas precisaria ter um esforço de marketing para melhorar nossa imagem. Acho que esses fundos verdes só vão decolar mesmo em um próximo governo.
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