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Direitos Humanos

- Publicada em 18h58min, 24/07/2020. Atualizada em 19h04min, 24/07/2020.

ECA 30 anos: Mais de cinco milhões de crianças e adolescentes deixaram de trabalhar

Apesar dos avanços do ECA, 2,4 milhões de menores de idade continuam trabalhando no Brasil, sendo 80% adolescentes

Apesar dos avanços do ECA, 2,4 milhões de menores de idade continuam trabalhando no Brasil, sendo 80% adolescentes


JOSE CABEZAS/AFP/JC
O aniversário de 30 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é marcado por muitas conquistas. Entre elas, o combate ao trabalho infantil. A abordagem do Estado contra o trabalho infantil foi uma das transformações que o ECA produziu, conta a coordenadora nacional de Combate à Exploração do Trabalho da Criança e do Adolescente do Ministério Público do Trabalho (MPT), Ana Maria Real, que destaca uma inversão de valores que era e ainda se faz presente na forma de muitas pessoas verem essa questão.
O aniversário de 30 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é marcado por muitas conquistas. Entre elas, o combate ao trabalho infantil. A abordagem do Estado contra o trabalho infantil foi uma das transformações que o ECA produziu, conta a coordenadora nacional de Combate à Exploração do Trabalho da Criança e do Adolescente do Ministério Público do Trabalho (MPT), Ana Maria Real, que destaca uma inversão de valores que era e ainda se faz presente na forma de muitas pessoas verem essa questão.
"É a criança que tem que trabalhar ou é o Estado que tem que suprir as necessidades daquela família vulnerável? A criança é colocada naquela situação porque há uma necessidade econômica", questiona ela, que vê relação entre a forma que se deu o fim da escravidão e a naturalização do trabalho de crianças pobres. "Não houve nenhuma política pública e ficou uma massa de crianças negras nas ruas, oferecendo sua força de trabalho e como pedintes, para tentar sobreviver."
Ana Maria Real avalia que, antes do ECA e da Constituição Federal de 1988, a visão da sociedade e a resposta do Estado ao trabalho infantil eram permeadas por preconceitos: "A criança em situação de trabalho infantil era vista como um menor abandonado e um potencial delinquente e rompedor da ordem social. Havia uma criminalização", conta ela. "O ECA trouxe uma mudança paradigmática da criança como sujeito com direito ao lazer, à escola, à família."
O combate ao trabalho infantil que se deu, desde então, reduziu o número de crianças e adolescentes nessa situação em 68% entre os anos de 1992 e 2015. Foram 5,7 milhões de crianças e adolescentes que deixaram de trabalhar no período. No entanto, 2,4 milhões continuam nesta situação, sendo 80% adolescentes, segundo a procuradora.

"Crianças e adolescentes ainda são vistos de alguma forma como objetos", afirma procuradora

Lei de Aprendizagem determinou que adolescentes recebam formação técnico-profissional
Lei de Aprendizagem determinou que adolescentes recebam formação técnico-profissional
MARCELO G. RIBEIRO/ARQUIVO/JC
A mudança de perspectiva sobre o trabalho dos adolescentes, acrescenta ela, também contribuiu para que leis criassem formas menos precárias de trabalho para essa população, como a Lei de Aprendizagem, de 2000. A lei elevou a idade mínima para aprendizagem de 12 para 14 anos e determinou que os adolescentes recebam "formação técnico-profissional metódica compatível com o seu desenvolvimento físico, moral e psicológico".
"A aprendizagem veio como fruto do Estatuto da Criança e do Adolescente. Ela deixou de ser preparo para um ofício específico e passou a ser preparação do adolescente para o mundo do trabalho, aliando educação e emprego", conta Ana Maria.
Além disso, o ECA contribuiu para a universalização do ensino. Segundo o Relatório do 3º Ciclo de Monitoramento do Plano Nacional de Educação (PNE) 2020, 98,1% da população de 6 a 14 anos frequenta ou já concluiu o ensino fundamental, e 73,1% dos adolescentes de 15 a 17 anos frequentam ou já concluíram o ensino médio.
Porém, apesar dos avanços, Ana Maria pondera que é comum ouvir chavões que indicam que o pensamento sobre o trabalho infantil não foi completamente modificado na sociedade brasileira. "É melhor trabalhar do que roubar; trabalhar não mata ninguém; trabalhar dignifica. Esses chavões estão muito arraigados e refletem o pensamento da sociedade, que não dá o valor devido à criança e ao adolescente", diz a procuradora. "A criança e o adolescente ainda são vistos de alguma forma como objetos."
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