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Saúde

Notícia da edição impressa de 15/05/2020. Alterada em 18/05 às 14h24min

Moinhos de Vento é o hospital com maior expertise contra a Covid-19 na Capital

Instituição já notificou 159 casos de contágio pelo novo coronavírus

Instituição já notificou 159 casos de contágio pelo novo coronavírus


CLAITON DORNELLES /JC
Juliano Tatsch
O novo coronavírus chegou oficialmente em Porto Alegre no dia 8 de março. O primeiro caso da doença foi notificado pelo Hospital Mãe de Deus, mas, passados pouco mais de dois meses do início das ocorrências na Capital, é do Hospital Moinhos de Vento (HMV) a maior experiência de trabalho no combate à Covid-19. Até quarta-feira, a instituição já havia notificado 159 confirmações da doença.
O novo coronavírus chegou oficialmente em Porto Alegre no dia 8 de março. O primeiro caso da doença foi notificado pelo Hospital Mãe de Deus, mas, passados pouco mais de dois meses do início das ocorrências na Capital, é do Hospital Moinhos de Vento (HMV) a maior experiência de trabalho no combate à Covid-19. Até quarta-feira, a instituição já havia notificado 159 confirmações da doença.
Esse maior contato com o vírus dá à equipe médica do Moinhos uma experiência na luta conta a doença que nenhum outro hospital tem na cidade. Atuando na linha de frente, o chefe do Serviço de Pneumologia do HMV, Marcelo Gazzana, aponta uma diferença da Covid-19 em relação a outras infecções por vírus respiratórios. "É uma doença que exige mais tempo de internação, quem vai para a UTI fica, em média, uma ou duas semanas entubado. As pessoas ficam muito mais tempo nas UTIs e isso acaba sobrecarregando o sistema de saúde", observa.
Dos 159 pacientes atendidos no hospital, seis morreram - letalidade de 3,7%. A morte por coronavírus traz, também, a dor de não ser possível viver o luto. Conforme o médico, essa situação não impactou somente familiares e amigos das vítimas. "Isso das pessoas não poderem viver o luto, de ficarem à distância dos seus familiares, conversando por videochamada, impactou bastante a rotina de trabalho. Não só para os familiares dos pacientes, mas também para a equipe médica. É uma situação única para todos", diz Gazzana.
Uma das características da doença que chamou a atenção da equipe do HMV é a ocorrência de tromboses. O médico ressalta, no entanto, que todas as observações realizadas atualmente na prática diária precisam ser recomprovadas por estudos posteriores.
Em relação às pesquisas já publicadas, o pneumologista critica a pressa em se obter respostas sem que protocolos científicos sejam seguidos à risca. "Pelo pânico causado, se publicaram estudos que, fora da pandemia, não seriam publicados. Estudos de péssima qualidade foram publicados nas melhores revistas científicas do mundo", aponta.
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Marcelo Gazzana critica intromissão de pessoas sem qualificação no debate (Foto: HMV/Divulgação)
Os medicamentos utilizados até agora no tratamento da doença são velhos conhecidos dos profissionais. Sem novos equipamentos, a batalha é feita com armas com eficácia comprovada em outras infecções. No Brasil, um medicamento em especial ganhou as manchetes em razão da insistência do presidente Jair Bolsonaro em indicá-lo para o tratamento.
De acordo com o chefe do Serviço de Pneumologia do HMV, a cloroquina chegou a ser usada no início da pandemia, mas hoje só é utilizada em casos muito específicos. "Usamos cloroquina no início e a utilização está muito menor na medida em que saem novos estudos. A recomendação é não usar como rotina. Usar somente em casos específicos. O paciente precisa estar ciente de que não há comprovação de eficácia e de que pode resultar em efeitos colaterais. A recomendação atual é contrária ao uso de rotina. Todos os estudos estão mostrando que não funciona", afirma Gazzana.
O médico também cita o remdesevir, que ainda não tem autorização de uso no Brasil, mas já mostrou bons resultados na Europa em pacientes com a Covid-19. Outro medicamento que o governo brasileiro defendeu foi a Nitazoxanida, conhecida pelo nome de Annita. Conforme o governo, o remédio teria eficácia de 94% contra o vírus. "São estudos in vitro, não em pacientes. Como se está querendo um milagre, quando tem alguma evidência, esses medicamentos são incorporados, mas pessoas sem qualificação não deveriam se meter nesse debate", enfatiza o pneumologista.
Gazzana ressalta que a única forma de se ter certeza da eficácia de um medicamento é por meio de estudos clínicos controlados. "Nós, na prática diária, fazemos uso de diversos medicamentos ao mesmo tempo, várias intervenções simultaneamente. Não há como se saber claramente qual medicamento resultou em qual situação."

"No mundo inteiro, estamos aprendendo com o vírus", afirma chefe da pneumologia

Gerente Médica, Gisele Nader aponta a incerteza como um grande desafio que a pandemia trouxe
Gerente Médica, Gisele Nader aponta a incerteza como um grande desafio que a pandemia trouxe
HMV/DIVULGAÇÃO/JC
Por ser um vírus novo, uma analogia que se pode fazer ao trabalho dos profissionais da saúde é ao do mecânico que precisa trocar o pneu de um carro em movimento. Não há muito tempo para análise, na medida em que o problema já está posto.
"No mundo inteiro, estamos aprendendo com o vírus. Aprendendo no dia a dia", diz o chefe do Serviço de Pneumologia do HMV, Marcelo Gazzana. A constatação é reforçada pela gerente Médica do hospital, Gisele Nader Bastos. "O avião está no ar e estamos tentando achar um pouso mais seguro. Mudamos e a decisão de hoje pode não ser a decisão de amanhã", aponta.
O tratamento para pacientes que chegam com pneumonia, um indicativo de infecção por coronavírus, começa com o uso de antibióticos. Na medida em que os resultados dos exames ficam prontos, a equipe médica exclui outras possibilidades de doenças até que se chegue ao diagnóstico de Covid-19. "A principal medida hoje é monitorar o paciente, acompanhá-lo e agir conforme o desenvolvimento da doença", explica Gazzana.
O Moinhos de Vento instalou seu Comitê de Enfrentamento ao Coronavírus logo que o primeiro caso da doença foi confirmado no Brasil, em 26 de fevereiro. Protocolos de ação específicos para cada área foram criados. Além disso, os fluxos de atendimento dos pacientes foram modificados. Os profissionais que atendem pacientes com Covid-19, por sua vez, passaram a usar equipamentos de proteção diferenciados. "Mudamos a entrada dos pacientes para os consultórios, separamos as cadeiras nas recepções, espaçamos horários de consultas, suspendemos cirurgias eletivas. Colocamos muita gente em home office e criamos programas para apoiar nossos colaboradores", destaca Gisele. O hospital também restringiu as visitas e exigiu o uso obrigatório de máscara para quem for acompanhar pacientes.
Até quarta-feira, 94 dos 159 pacientes com teste positivo para Covid-19 que passaram pelo hospital necessitaram de internação. A gerente médica aponta que a pandemia irá deixar legados para o hospital. O primeiro é a telemedicina, que teve rápido avanço em um curto período de tempo. O segundo é o laboratório próprio, coisa que o Moinhos não tinha. "Do ponto de vista prático, na operação, acho que, assim como na casa da gente, onde aprendemos que o sapato fica na rua, nós mudamos a cultura de segurança. Fizemos muitos treinamentos. É um hábito que certamente vai reduzir o número de infecções hospitalares."
Outra preocupação é com a saúde dos profissionais que atuam na linha de frente. Segundo Gisele, o Moinhos tem trabalhadores que contraíram o vírus, mas apenas uma médica se contaminou no ambiente intra-hospitalar. "Não temos nenhum caso de colaborador em estado grave. Fiz terça-feira uma reunião com a Universidade Johns Hopkins, nossa afiliada, e perguntamos o que eles estavam fazendo em caso de afastamento profissional. Lá, estão pedindo para retornar em sete ou, no máximo, dez dias. Aqui, estamos conseguindo manter 14 dias de afastamento e ainda esperar dois exames negativos para a volta", ressalta.
Gisele, que já foi gerente médica do Hospital da Restinga e aponta a construção e a operação da estrutura como o grande desafio de sua carreira até então, acredita que a Covid-19 trouxe um novo elemento que dificulta o trabalho médico. "Esse de agora é o maior desafio que já enfrentei tendo muita incerteza. Na Restinga, tinha um planejamento, sabia que precisava de tantos médicos para tantos leitos, tantas camas, tantos ventiladores. Agora não. Agora vivemos um momento muito delicado, porque há a incerteza", conclui.
 
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