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Itália

Notícia da edição impressa de 31/03/2020. Alterada em 30/03 às 20h41min

Itália tem 6,4 mil profissionais da área de saúde infectados

Desde o início da pandemia, 51 médicos morreram infectados

Desde o início da pandemia, 51 médicos morreram infectados


MARCO BERTORELLO/AFP/JC
Uma em cada três mortes por coronavírus no mundo acontece na Itália. No domingo (29), o governo italiano registrou mais 756 óbitos e 5,2 mil novos casos, chegando nesta segunda-feira (30) a 101,7 mil e 11,5 mil mortes. O retrato mais fiel do drama está na linha de frente da guerra contra o vírus. Parte considerável dos contaminados usa jaleco branco: médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde. Ao todo, são 6,4 mil doentes com Covid-19. Desde o início da pandemia, 51 médicos morreram infectados.
Uma em cada três mortes por coronavírus no mundo acontece na Itália. No domingo (29), o governo italiano registrou mais 756 óbitos e 5,2 mil novos casos, chegando nesta segunda-feira (30) a 101,7 mil e 11,5 mil mortes. O retrato mais fiel do drama está na linha de frente da guerra contra o vírus. Parte considerável dos contaminados usa jaleco branco: médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde. Ao todo, são 6,4 mil doentes com Covid-19. Desde o início da pandemia, 51 médicos morreram infectados.
"Não respiro." Esta foi a última mensagem do médico Marcello Natali, que morreu no dia 13 de coronavírus. Desde o início da pandemia, ele atuava na linha de frente em Codogno, onde ocorreu o primeiro surto da doença na Itália, mas acabou derrotado pelo inimigo invisível. Morreu sozinho, enfrentando o mesmo martírio de quem tratou como paciente.
Os últimos momentos de Natali foram contados em carta escrita pelo amigo e médico Irven Mussi, que revelou, nas últimas mensagens trocadas entre eles, a lucidez de que a morte se aproximava. "Infelizmente, não estou bem", escreveu Natali. "Dessaturo (queda da taxa de oxigênio no sangue) muito. Em uma máscara com 12 litros de oxigênio, chego a 85% (o normal é de 90% a 95%). Prevejo um tubo no curto prazo."
Na carta, Mussi expressa sua raiva com o governo italiano. "Não é por acaso que isso aconteceu. Fomos enviados para a guerra sem nenhuma proteção. Os soldados de infantaria pelo menos usavam capacetes", escreveu. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Mussi conta que Natali não é o único amigo que perdeu.
"Todos os dias somos informados de um colega que se foi. Na semana passada, morreram dois dentistas. Outro dia, perdi um primo e minha irmã está internada", disse. "Estamos com raiva, o governo nos abandonou, não nos forneceu dispositivos de proteção. Quisemos comprá-los com nosso dinheiro, mas as máscaras estavam em falta em todos os lugares."

Números de contaminados está subestimado por falta de testes

Se o número oficial de profissionais infectados já parece assustador, a Fundação Gimbe afirmou que a situação é ainda pior. Segundo a ONG, que coleta dados para promover políticas públicas, o nível de contaminação na Itália está subestimado, porque poucos médicos e enfermeiros fazem testes.

A indicação do governo é testar apenas quem apresenta sintomas. Por isso, quem tem um quadro leve acaba não fazendo o exame. "É um absurdo fazer o teste só em quem tem sintomas graves", disse o médico romano Fabrizio Lucherini. "O exame deveria ser feito por todos que tenham sintomas, mesmo leves. Mas faltam reagentes químicos e pessoal especializado nos laboratórios."

Dos 51 médicos que morreram, 25 são médicos de família - uma espécie de clínico-geral, que faz a triagem para um especialista. Segundo Mussi, as mortes ocorrem agora por causa da má gestão inicial do surto. "No início, a maioria de nós não sabia o que havia diante de si. Os médicos continuavam atendendo os pacientes sem proteção. Quando o surto explodiu, já era tarde, porque vários médicos já haviam sido contaminados", afirmou.