Porto Alegre, sexta-feira, 06 de julho de 2018.

Jornal do Comércio

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Notícia da edição impressa de 06/07/2018. Alterada em 05/07 às 23h00min

Presença feminina cresce no setor cooperativista

Maria Zélia fez carreira dentro do universo do cooperativismo e atualmente é diretora de Negócios da Unicred Porto Alegre

Maria Zélia fez carreira dentro do universo do cooperativismo e atualmente é diretora de Negócios da Unicred Porto Alegre


CLAITON DORNELLES /JC
As cooperativas são, por princípio, espaços democráticos. Por isso, nada mais correto do que proporcionar oportunidades iguais a homens e mulheres. Um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU) é alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Um caminho longo - e apoiado pelo movimento cooperativista -, mas que já colhe frutos. De acordo com a ONU, em 46 países, as mulheres ocupam mais de 30% das cadeiras no Parlamento nacional em pelo menos uma câmara.
Embora as cooperativas ainda sejam ambientes majoritariamente masculinos, especialmente entre as lideranças, pouco a pouco, as mulheres conquistam avanços importantes a partir de sua inserção no mercado. E tais conquistas em organizações cooperativistas representam uma evolução da qualidade de vida social das mulheres, que fazem verdadeiras transformações na condução dos negócios ao trazer novas reflexões e perspectivas.
Maria Zélia Höhn fez carreira dentro do universo do cooperativismo. Atualmente, ela é diretora de Negócios da Unicred Porto Alegre, posição que conquistou com muito trabalho: mais precisamente, 25 anos de dedicação. "Meu primeiro emprego foi numa cooperativa do interior do Estado, como recepcionista. E nunca mais deixei o sistema", relembra a executiva, que saiu de Selbach, município próximo de Tapera, para viver em Porto Alegre, cursar faculdade e trabalhar na Ocergs. "Em parte, essa trajetória se dá pela aderência dos valores cooperativistas, que são muito fortes e presentes. Acreditamos muito na ajuda mútua. Ainda que eu não tenha experiência em outros modelos, fico feliz em fazer parte desse ambiente, que promove relações diferentes, uma vez que existe uma competição saudável", reflete.
Ela reconhece que a presença feminina é crescente no cooperativismo, especialmente entre os associados, empregados ou liderança de setores. "Atualmente, 70% do quadro de líderes da Unicred Porto Alegre é ocupado por mulheres. O que me chama a atenção é que, em conselhos de administração, por exemplo, a presença ainda é pequena", observa.
Pós-graduada em cooperativismo, marketing e gestão, Maria Zélia teve a oportunidade de conhecer modelos de negócios cooperativistas fora do País. "E percebo que é um sistema em franco crescimento. É muito respeitado em países como Alemanha, Canadá e Estados Unidos. Quando entrei na Unicred, em 1994, a cooperativa não tinha nem sede própria. Hoje, são 17 agências, o que representa um crescimento incrível. Só uma cooperativa consegue fazer isso. Pode parecer uma utopia, mas eu acredito que a união faz a força. E fico contente de fazer parte", reconhece.

Voz ativa e incansável

Margaret Garcia da Cunha, presidente da Federação das Cooperativas de Trabalho do Rio Grande do Sul (Fetrabalho-RS), levou um tempo até assumir seu papel de liderança dentro do movimento cooperativista. Decidiu preparar-se bem para a tarefa. "Precisava me sentir pronta, e me preparei não me preocupando com o lugar aonde eu queria chegar, mas como eu poderia contribuir com a cooperativa. Estudo muito, participo de inúmeros seminários, fiz dois cursos de pós-graduação. Nós, muito mais do que os homens, somos testadas pelo nosso saber. Sinto que a exigência é maior. E eu não quero ficar à frente ou atrás deles, quero ficar lado a lado."

É de Margaret uma das vozes que falam mais alto na defesa dos interesses e dos direitos dos trabalhadores cooperados. "Minha trajetória não foi fácil, achavam que eu era doida e que falava demais. E, pensando bem, acho que foi isso que me fez chegar aqui. Precisava fazer as pessoas entenderem que tenho meu lugar", comenta. Para ela, a capacidade que as mulheres têm de agregar - e isso vem do papel que ocupam na própria família - já é, por si só, um valor do cooperativismo. "As mulheres trazem essa característica e juntam com um elevado nível de qualificação profissional. Agora, só precisam ocupar um lugar que é seu", afirma.

Não mais tão só

Os pais sempre fizeram parte do sistema cooperativista. O marido, com quem ela trabalha no campo, também. Roveni Lúcia Doneda construiu história ao assumir um papel de liderança dentro da cooperativa e, atualmente, é conselheira representante dos Líderes de Núcleo pela Região Sede da Cotrijal Cooperativa Agropecuária e Industrial.

"Não foi muito fácil. Em 2018, eu completo sete anos de mandato. Para se ter ideia, em 60 anos, apenas quatro mulheres fizeram parte de qualquer conselho da cooperativa. Muitos achavam que não éramos capazes. Mas eu deixei que falassem. Sempre tive o apoio do meu marido e dos meus dois filhos. E, mais importante, sempre acreditei que a mulher faz a diferença para o cooperativismo", comenta.

Para Roveni, é seu papel trabalhar para que mais mulheres passem a fazer parte do universo da cooperativa. Num primeiro momento, como associadas e, depois, como líderes e conselheiras. "Estamos fazendo uma construção desse espaço para as mulheres. Precisamos de voz para colocar nossas ideias em prática", avalia.

Uma das importantes iniciativas é o Comitê de Mulheres Cotrijal, que se reúne quatro vezes ao ano, e que visa ampliar o conhecimento das 30 integrantes sobre o funcionamento e a organização da cooperativa. "Todas precisamos conhecer bem a cooperativa, pois é isso que desperta o interesse de participar e, por consequência, resulta em contribuições. Fico feliz ao ver outras mulheres dentro da cooperativa. Não me sinto mais tão sozinha."

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