Porto Alegre, sábado, 18 de julho de 2020.

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entrevista

- Publicada em 03h37min, 03/07/2020. Alterada em 15h16min, 03/07/2020.

Para Vergílio Perius, cooperativas podem ajudar Brasil a sair da crise

Dirigente da Ocergs afirma que não houve demissões no setor mesmo com a pandemia

Dirigente da Ocergs afirma que não houve demissões no setor mesmo com a pandemia


MARCELO G. RIBEIRO/arquivo/JC
Thiago Copetti
As cooperativas podem ser um caminho sustentável para reduzir o desemprego e minimizar os danos econômicos da pandemia nos meios urbanos e rural, especialmente por meio da construção civil e das agroindústrias. Inclusive com iniciativas unindo ambos.
As cooperativas podem ser um caminho sustentável para reduzir o desemprego e minimizar os danos econômicos da pandemia nos meios urbanos e rural, especialmente por meio da construção civil e das agroindústrias. Inclusive com iniciativas unindo ambos.
A proposta, que prevê cooperativas de trabalhadores na construção de casas populares já foi encaminhada ao Ministério da Economia, de acordo com o presidente do Sistema Ocergs/Sescoop, Vergílio Perius. As sugestões para o investimento em agroindústrias próximas de regiões metropolitanas estão em fase final de elaboração. As propostas dependem de apoio federal e estadual, o que o presidente da Ocergs espera ver ocorrer ainda neste segundo semestre de 2020. Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Perius fala sobre como a pandemia afetou as cooperativas e, mais ainda, como o setor pode ajudar a reduzir a crise.
Jornal do Comércio - Em um ano atípico como 2020, qual é o cenário atual das cooperativas em geral?
Vergílio Perius - A pandemia faz com que as assembleias gerais só pudessem ser virtuais, então, a aprovação dos balanços finais das cooperativas de 2019 ficou comprometido. Até meados de junho, apenas 50% delas conseguiram. Os dirigentes têm certo risco em finalizar o processo antes porque pode o associado não aprovar as contas ou pedir mudanças em assembleia. Mas nós temos alguns dados estatísticos por meio do Banco Central e da Receita Federal e conseguimos antecipar alguns elementos importantes. O setor mais difícil e de onde nos falta mais dados é o agropecuário. O setor de crédito o Banco Central fornece, assim como as agências ligadas à infraestrutura, saúde, energia. No agronegócio sabemos que é onde há um cenário mais difícil desde o final de 2019 e neste ano. Com a seca, houve uma perda de cerca de R$ 15 bilhões de faturamento das cooperativas do segmento. Mas, de qualquer maneira, todos os setores cresceram em termo de geração de empregos. No cooperativismo damos muita importância quando há aumento na mão-de-obra empregada, ainda mais na atualidade. Mesmo na crise econômica que já vinha antes de 2020, as cooperativas do Rio Grande do Sul não desempregaram.
JC - Algum setor se destacou mais neste sentido?
Perius - A absorção maior se deu pelo agronegócio. Nas cooperativas que têm agroindústria, houve um incremento muito forte. Algumas contrataram muita mão-de-obra em função do volume das exportações de carnes. Então esse é um fator extremamente importante. O segundo aspecto é que as sobras, que seria o lucro de uma empresa privada, cresceram significativamente em 2019. Isso demonstra que as cooperativas administraram bem suas atividades - mesmo não aumentando muito o faturamento, a alta deve ficam em torno de 9% a 11%. No quesito resultado econômico, as cooperativas gaúchas estão de parabéns. Outro elemento fundamental que destacamos é em relação ao salário pago aos empregados das cooperativas, que seguem 9% acima da média das demais empresas do setor privado. Isso é indicador bom, de que as sobras não são só para os sócios, mas também dos empregados pelo setor. No Estado, temos hoje perto de 3 milhões de sócios no sistema cooperativo. Temos uma enorme participação no quadro gaúcho e acho que estamos na liderança nacional em participação social de cooperativas.
JC - O que mais atraiu os novos sócios para o meio cooperativo?
Perius - O setor de crédito é um deles. Atrai a classe C e D, exatamente na linha de trabalho que quer o Banco Central, que as cooperativas de crédito façam no Brasil o que a Europa fez, a inclusão financeira das classes C e D, uma classe bastante forte no meio rural. Na crise até 2018, quando tivemos retração econômica, crescemos muito no setor com novos sócios. Isso porque há confiabilidade, o sócio pode, a qualquer momento, verificar suas contas, exigir mudança na direção, tem voz de voto para influir. Temos mais de 15 mil líderes de núcleos que são, vamos dizer assim, como se fossem vereadores que fazem esse acompanhamento constante. Têm cooperativas de 2 mil sócios com 80 líderes de núcleos, representando nas comunidades os interesses dos sócios. Isso tudo gerando confiança, muita integração e muito entendimento no processo cooperativo.
JC - Nesse cenário de pandemia as pessoas tendem a se unir mais. Isso pode estimular também o cooperativismo e o enfrentamento da crise?
Perius - Hoje, a Ocergs tem planos macroeconômicos para o Estado e para o Brasil. Primeiro, precisamos criar e pensar o pós-pandemia e gerar empregos. O Brasil precisa criar empregos. São 25 milhões de pessoas que dependem de R$ 600,00 para sobreviver, que não têm renda e nem trabalho. O corporativismo também tem formas de fazer com que todos se desenvolvam e cresçam. Dispomos de um plano para o crescimento das agroindústrias e também para o setor urbano, por meio de cooperativas habitacionais unidas às cooperativas de trabalho. Estamos propondo um projeto com orçamento próximo de R$ 30 bilhões em seis anos. Com esse recurso, criar um novo modelo para o Minha Casa, Minha Vida, priorizando justamente a construção de casas, e não de edifícios. A ideia é que trabalhadores desempregados tenham aulas de construção civil em um turno e no outro, por meio de cooperativa de trabalho, atuem em canteiros de obras e recebam um salário-mínimo por essa participação. Eles têm uma forma de sobrevivência nesse momento, ensino de graça pelo Sistema S e capacitação. Criamos, assim, ao mesmo tempo, moradias populares e trabalho. Encaminhei esse projeto ao governo do Estado. O setor da construção civil é o que gera mais emprego urbano. Mas, para este ciclo, estou falando em casas populares, não apartamentos.
JC - Por que casas? São mais simples de construir por uma mão de obra recém-treinada?
Perius - Para mim, o grande erro do Minha Casa, Minha vida, na política habitacional, é financiar a construção de edifícios, que exigem muitos menos mão-de-obra. Cada guindaste em uma construção substitui 120 pessoas. Ou seja, se o governo quiser criar empregos deveria fazer residências horizontais, de 50 metros quadrados, mas com toda a infraestrutura, de água e esgoto, calçamento, iluminação, áreas sociais e com escolas, inclusive, em alguns locais mais afastados. Foi o que fizemos no Jardim Sabará, em Porto Alegre, entre os anos 1965 e 1970. A proposta é de, inclusive, aproximar também as agroindústrias cooperativadas na Grande Porto Alegre, mais perto desses grandes projetos habitacionais horizontais. Esse é um caminho para gerar trabalho e renda, ao mesmo tempo, no meio urbano e no meio rural, para uma boa parcela dos 25 milhões que vão depender única e exclusivamente de auxilio emergencial se não houver projetos de investimento nesses setores.
JC - Esse projeto já foi encaminhado ao governo?
Perius - O projeto já está na mão do ministro da Economia, Paulo Guedes, no caso da habitação, e o projeto da agroindústria vamos levar ao governador para que avalie a implantação aqui e possa conduzir a proposta em nível nacional. Isso tem que ser uma proposta para todo o País. Precisamos de uma nova visão, uma mudança radical por parte do Minha Casa, Minha Vida, que hoje financia trabalhadores com uma renda de R$ 2 mil, R$ 2,5 mil... não é muito, mas ainda tem. E aqueles 25 milhões que não têm nada? Para esses, que temos que gerar mão de obra e renda, que é fundamental, e ao mesmo tempo vamos capacitá-los para uma profissão no futuro na construção civil.
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