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Negócios Corporativos

- Publicada em 10/01/2022 às 16h57min.

Depois da curta falência, indústria gaúcha tem novo dono e salários em dia

Antiga Graintek passou por dificuldades, com redução da capacidade e atraso de salários

Antiga Graintek passou por dificuldades, com redução da capacidade e atraso de salários


NUTRICEREAIS/DIVULGAÇÃO/JC
Patrícia Comunello
"É uma empresa nova", resume o empresário Anderson Kreuz, acionista da holding BLK, dona agora da ex-Graintek, que, a partir desta segunda-feira (10), é a Nutricereais. E é "nova" literalmente, pois a indústria tem CNPJ recém-criado, demarcando o fim da Graintek, indústria gaúcha de alimentos que passou por uma recuperação judicial frustrada, que virou falência no fim de 2021, e teve a sobrevida assegurada por um leilão judicial feito rapidamente para evitar a desvalorização de ativos e assegurar quase 70 empregos.
"É uma empresa nova", resume o empresário Anderson Kreuz, acionista da holding BLK, dona agora da ex-Graintek, que, a partir desta segunda-feira (10), é a Nutricereais. E é "nova" literalmente, pois a indústria tem CNPJ recém-criado, demarcando o fim da Graintek, indústria gaúcha de alimentos que passou por uma recuperação judicial frustrada, que virou falência no fim de 2021, e teve a sobrevida assegurada por um leilão judicial feito rapidamente para evitar a desvalorização de ativos e assegurar quase 70 empregos.
Este é o resumo da história recente da indústria com sede em Pelotas, na Zona Sul do Estado, que surgiu em 2016 da separação de ativos da Cereale, player alimentícia com mais de 30 anos de atuação. A ex-Graintek processa grãos como milho e arroz para elaboração de cereais matinais e farinha láctea para marcas próprias, entre elas a Nestlé. 
A recuperação judicial foi instaurada em 2019, após uma crise de reduziu o uso da capacidade, atrasou o pagamento de funcionários e redundou em uma dívida estimada hoje em cerca de R$ 90 milhões, incluindo o passivo tributário de cerca de R$ 55 milhões, explica o administrador judicial, Fábio Cainelli de Almeida, do escritório Cainelli de Almeida. No auge da operação, a antiga Graintek chegou a ter 300 funcionários.
Em outubro, o plano de recuperação foi rejeitado pela maioria das classes de credores. Com isso, o processo foi convertido em falência pela Justiça, seguindo a legislação para empresas, o que ocorreu em 24 de novembro. A partir daí, o administrador judicial montou uma estratégia para acelerar a etapa de venda em busca de recursos para saldar dívidas, usando o recurso do "stalking horse", modalidade de leilão de preferência. 
"A brevidade é indispensável. A instabilidade da situação falimentar, ainda que continuada, somada à escassez de caixa tornam urgente a venda da operação para empresa que possua recursos para injetar no negócio, mantendo a sua função social e os postos de trabalho", justificou o administrador judicial, em petição no começo de dezembro. 
O leilão com lance mínimo de R$ 8,4 milhões, no dia 17 do mês passado, não teve interessado. Com isso, a BLK, que fez o "stalking horse" e havia ofertado 70% do valor, arrematou a operação por cerca de R$ 5,8 milhões, sendo que 60% foram pagos na oficialização da venda, um pouco antes do Natal. Os 40% restantes serão pagos em 12 parcelas, a partir do fim de janeiro deste ano.

Crédito e recontratação de pessoal para seguir a atividade

No valor inicial, foram descontados ainda R$ 1 milhão antecipados pela compradora para dar um respiro no caixa. O dinheiro foi usado principalmente para quitar salários e pagar em dia o vencimento de dezembro. "Pagamos a folha no dia 5 deste mês, depois de dois anos de parcelamentos e atrasos", pontua o sócio-proprietário da Nutricereais.
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Kreuz (centro, de bege), advogados e funcionários deram a largada na nova fase do negócio. Foto: Nutricereais/Divulgação
Na aquisição, ficaram de fora os ativos industriais, que devem ser vendidos e são avaliados em R$ 10 milhões, informa o administrador judicial. A Nutricereais alugou o parque de processamento por cinco anos, prazo que pode ser renovado por igual período. Já há compradores interessados no parque industrial, adianta o administrador judicial. O recurso dos ativos será usado para abater do passivo da antiga Graintek.
Com a quitação de salários e verbas rescisórias, o quadro foi demitido e recontratado 100% pela nova dona, o que estava contemplado na proposta de venda. Os trabalhadores terão ainda estabilidade de seis meses.
O café da manhã dos quase 70 funcionários da empresa nesta segunda foi também simbólico. Além da troca de uniforme, que agora tem a nova marca, os acionistas da BLK falaram dos planos de reativação da capacidade total, que hoje é usada em apenas um terço, e ampliação de produtos e clientes.   
"A gente vai construir a história da Nutricereais, com DNA produtivo da Graintek. O quadro está engajado e acredita no projeto, isso é muito importante", projeta Kreuz.
Os novos donos fazem parte de um grupo familiar, que faz a primeira investida em alimentos. Os Kreuz são donos da empresa que detém a marca de sabão Imperial e de uma indústria de subprodutos para ração animal, situada em Goiás.

O que é o "stalking horse", instrumento que agilizou a venda pós-falência

Entre a decretação da falência, em 24 de novembro de 2021, e o leilão foram 23 dias apenas. Em 6 de dezembro, o administrador judicial apresentou a proposta de alienação e já com o formato. Seria usado o recurso do "stalking horse", modalidade de leilão com preferência.
Pelo instrumento, um interessado prévio no negócio faz a avaliação dos ativos para definir um preço mínimo, mas não participa necessariamente da disputa. A empresa só entra no negócio se não tiver interessado ou para cobrir o valor ofertado, exercendo a preferência na compra dos bens.
"É uma oferta inicial, antecipada e vinculante que é utilizada para garantir o valor mínimo de venda dos bens da falida. A modalidade evita a necessidade de um segundo leilão, no qual os bens poderiam sofrer a depreciação de 50% ou até mais", argumentou o administrador judicial Fábio Cainelli de Almeida, citando que, na tradução livre, "stalking horse" é "cavalo perseguidor”, em alusão ao animal que vai à frente para auxiliar nos objetivos da caçada.
O Ministério Público também foi ouvido e indicou que a modalidade seria benéfica por acelerar o processo e garantir recursos para pagar débitos trabalhistas e com fornecedores, classes que são priorizadas na quitação para manter a continuidade da operação.
Esta etapa de busca de uma solução também faz parte da chamada falência continuada, a qual as atividades do negócio seguem por um período provisório até que seja possível realizar a venda da empresa, explica o escritório Cainelli de Almeida. 
Enquanto a Nutricereais segue na operação, o passivo da Graintek precisa ser administrado. Almeida diz que os valores arrecadados serão usados no pagamento da dívida trabalhista, de cerca de R$ 3,5 milhões. A quitação do restante que completam os R$ 90 milhões, sendo cerca de R$ 55 milhões da conta tributária federal e estadual, será feita com os recursos que forem entrando do leilão e venda dos ativos.
"O passivo que faltar, a menos que haja alguma responsabilização de terceiros, fica em aberto", observa o administrador. 
"A empresa que quebraria e colocaria todos os funcionários na rua conseguiu ser vendida, com a recontratação do pessoal", valoriza o advogado Júlio de Almeida, que integra o escritório Cainelli de Almeida. "A falência não é o fim do ativo e do capital humano. Foi só o fim do CNPJ. A empresa não acabou", resume ele. 
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