A qualidade e o reconhecimento mundial dos espumantes produzidos no Brasil – em especial no Rio Grande do Sul – têm aumentado a procura pela bebida no mercado interno. E o pico é justamente no fim de ano, quando o espumante é uma das estrelas das ceias de Natal e de Ano Novo, assim como os vinhos finos.
Dados da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra) indicam aumento de 40% na comercialização de espumantes de janeiro a outubro deste ano em comparação em igual período do ano passado. Nos 10 primeiros meses de 2021, o setor totalizou a venda de 20 milhões de litros contra 14 milhões no mesmo período de 2020.
Considerada a bebida universal dos brindes, o espumante deve ultrapassar a comercialização de 22,4 milhões de litros em 2021, segundo estimativas da Uvibra, que atribui o crescimento também à flexibilização das regras sanitárias impostas para conter a pandemia de Covid-19. Formaturas, aniversários e casamentos voltaram a ser celebrados e, com eles, os espumantes voltaram à cena.
As exportações também cresceram. A entidade do setor vitivinícola aponta que foram embarcados cerca de sete milhões de litros de vinhos para diversos países de janeiro a outubro deste ano, superando os três milhões exportados nos primeiros 10 meses de 2020.
Outro fator que contribui para a expansão dos negócios é o recorde de medalhas recebidas pelos produtores brasileiros de espumantes. Das 414 medalhas recebidas pelo setor em 2021 (29% a mais do que 2020), 303 foram para os espumantes, , informa a Associação Brasileira de Enologia (ABE).
“Com este recorde histórico de premiações, os vinhos e espumantes brasileiros chegam a 5.910 distinções desde 1995, quando assumiu o papel de enviar as amostras para concursos reconhecidos mundialmente, função que fortaleceu a imagem do vinho brasileiro junto a instituições como a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV)”, diz a ABE.
Os reconhecimentos deste ano vieram de 18 concursos realizados na Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Espanha, França, Grécia, Hungria, Inglaterra, Luxemburgo e Portugal.
Se 2020 foi o ano do vinho, 2021 é, com certeza, o do espumante. Das 414 medalhas arrematadas no ano – 29% a mais que no ano passado -, 303 foram para espumantes brasileiros.
Sommelier dá dicas para acertar na escolha do espumante
Segundo Rita, primeiro passo é saber o que agrada mais o paladar
Liese Vargas/divulgação/jc
Em dúvida sobre qual espumante escolher para o brinde de fim de ano? Segundo a fiscal estadual agropecuária Rita Antochevis, que também é sommelier profissional, o primeiro passo é saber o que agrada mais o paladar. Neste caso, as opções vão desde os mais secos, como nature (com quase nada de açúcar), extra brut e brut, até os espumantes mais doces, como demi-sec e moscatel.
Feita esta escolha, a dica é observar o método utilizado na produção da bebida. As do tipo charmat são espumantes mais jovens, com sabor mais leve e fresco. A segunda fermentação é feita em tanques de inox. Outra opção é o método champenoise, que resulta em uma bebida mais estruturada e com mais aroma. Neste caso, a segunda fermentação ocorre na garrafa e a bebida fica mais tempo em contato com as leveduras, técnica que proporciona sensação de cremosidade.
O próximo passo é observar de qual safra são as uvas. “A dica é escolher as safras mais recentes”, explica Rita. A sommelier lembra que esta recomendação vale mais para compra feita em supermercado, até porque somente nas lojas especializadas há mais variedade de espumantes de safras mais antigas. Em Porto Alegre, também é possível encontrar alternativas no Mercado Público.
Branco ou rosé?
Em dúvida entre espumante rosé e branco? A diferença não está somente na “cor”, mas também no aroma e sabor. “Os rosés tem o apelo visual e costumam ter notas mais frutadas que os espumantes brancos”, descreve a sommelier. Rita acrescenta que os espumantes rosés costumam lembrar frutas vermelhas, como morango e framboesa. Já as bebidas brancas lembram frutas brancas, como pera, abacaxi e maçã.
Nas casas especializadas é possível encontrar outras três opções além dos tradicionais branco e rosé. São elas: espumante tinto, cuja elaboração é feita com a maceração das cascas e, portanto, tem mais tanino; sur lie, que vem com as borras e leveduras e, por isso, fica em constante evolução; e ice, uma versão mais concentrada indicada para a preparação de drinks com gelo.
Quantidade por pessoa
Se a intenção for apenas fazer um brinde, o cálculo é de 70 ml por pessoa. Ou seja, uma garrafa de espumante será suficiente para sete pessoas. Mas se a ocasião for uma festa, a quantidade estimada é uma garrafa para duas pessoas. A temperatura ideal é entre 6 e 10 graus. E para manter a bebida gelada, a dica é deixá-la em um balde com gelo e água.
Ainda está em dúvida? Uma dica de ouro é observar se o rótulo do espumante de vinícolas premiadas. “Na dúvida, prefira escolher produtos que apresentam selo de premiação”, acrescenta a sommelier.
Inspeção de vinhos e derivados
No Rio Grande do Sul, os fiscais estaduais agropecuários são responsáveis pela inspeção das vinícolas. Embora os estabelecimentos tenham registro no Ministério da Agricultura (Mapa), o Estado é responsável pela fiscalização das boas práticas de elaboração, bem como pelo controle da qualidade dos produtos, por meio de análises realizadas no Laboratório de Referência Enológica Evanir da Silva (Laren).
“O nosso trabalho na área de inspeção vegetal é pioneiro. Somos o único estado a fazer a inspeção de vinícolas com registro no Ministério da Agricultura”, explica a fiscal estadual agropecuária Fátima Miranda D’Avila Pereira, diretora da Associação dos Fiscais Agropecuários do RS (Afagro). Atualmente, servidores da fiscalização agropecuária de Minas Gerais estão inspecionando a produção de cachaça.
A atribuição desta responsabilidade ocorre por meio de termo de cooperação técnica entre o Mapa e a Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural.
Curiosidades
- Champagne – produto que vem da França e tem denominação de origem
- Espumante cava – bebida que vem da Espanha
- Prosecco – tipo de espumante que vem da Itália
- Espumante – bebida brasileira
Vinícolas urbanas começam a ganhar espaço
O engenheiro Eduardo Gastaldo investiu em um novo nicho que tem atraído o público
Juan F Rico Albano/divulgação/jc
Não são apenas os espumantes que avançam na preferência dos consumidores. Novas formas de produzir - e degustar - vinhos e espumantes ganha cada vez mais espaço. É o caso das vinícolas urbanas, que consistem em empresas que decidem produzir a bebida em capitais e grandes cidades, com foco na qualidade e na proximidade com o público.
Foi com foco neste novo nicho que o engenheiro Eduardo Gastaldo decidiu investir. Numa madrugada, em fevereiro de 2017, ele venceu os cerca de 150 quilômetros de distância que separam a Serra Gaúcha de Porto Alegre. Gastaldo dirigiu devagar e tinha um motivo para isso: na caçamba da camionete emprestada pelo sogro, estava um tanque de 500 litros de mosto onde iniciava a fermentação.
O que ele carregava não era ouro, mas uma preciosidade: dali nasceram as primeiras 391 garrafas da Ruiz Gastaldo Vinícola Urbana, um varietal de Cabernet Sauvignon que ganhou o nome de João Pedro. O vinho e o guri, hoje com 4 anos, nasceram praticamente juntos. A Ruiz Gastaldo, primeira vinícola efetivamente urbana do Brasil, fica no bairro Chácara das Pedras, em Porto Alegre, a 8 quilômetros do centro da capital gaúcha e a cerca de 10 minutos a pé, de um dos maiores shopping centers da região Sul do país.
Uma vinícola urbana, por definição, é aquela que está inserida em um centro populacional de grandes cidades, de metrópoles, afastada de zonas rurais, longe dos vinhedos. Desta forma, as uvas precisam ser transportadas até a vinícola para ali serem processadas. É assim que acontece na Ruiz Gastaldo: as uvas são colhidas nas primeiras horas do dia, em diferentes vinhedos e transportadas em caminhões refrigerados, preservando a qualidade da uva.
A Ruiz Gastaldo é a primeira Vinícola Urbana do Brasil com toda documentação necessária para ser uma vinícola de fato e de direito, como a autorização da Prefeitura Municipal de Porto Alegre e o registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA, desde 2019.
Uma vinícola urbana não se trata somente sobre distâncias e facilidades de mobilidade. Claro que a proximidade faz com que seja mais fácil para que os clientes acompanhem a elaboração dos vinhos e participem de degustações e eventos, sem a necessidade de grandes deslocamentos, mas uma vinícola urbana é, antes de tudo, uma filosofia. “Mais que um sonho, uma vontade e o amor ao vinho, a vinícola é também uma declaração de amor a cidade”, salienta Eduardo Gastaldo, sócio-fundador da empresa.
O portoalegrense Gastaldo é adepto disso – e hoje já passou esse estilo de vida para toda família. Desde que um sonho se transformou na Ruiz Gastaldo Vinícola Urbana, a vida de todos mudou. Na marca que carrega com orgulho, Eduardo junta o sobrenome Ruiz, da esposa Camila, e o seu sobrenome Gastaldo, que também já trazia na história, mesmo sem o empreendedor saber, um grande envolvimento com a uva e com o vinho.
Januário Greco, bisavô de Eduardo, pasmem: produzia vinhos na Porto Alegre no início do século XX, em uma casa que ficava localizada quase ao lado da Igreja Nossa Senhora da Conceição, no bairro Independência, no coração da capital.
Desde que começou a produção, Gastaldo já rotulou 9 diferentes vinhos na garagem da casa onde mora com a família – alguns esgotados. Atualmente, o local está reformado e adaptado para produção, degustações e visitações sob agendamento.
As uvas que são usadas na produção praticamente artesanal da Ruiz Gastaldo – num total de 4500 garrafas anuais hoje, entre todos os rótulos – vêm de diferentes pontos do Rio Grande do Sul, de vinhedos selecionados nas cidades de Caxias do Sul, Campos de Cima da Serra e Encruzilhada do Sul. As frutas, separadas e colhidas manualmente, descem a Serra até Porto Alegre em caminhões frigoríficos.
No portfolio cada um dos rótulos é uma homenagem
João Pedro – primeiro filho, o primeiro rótulo da vinícola, um Cabernet Sauvignon está esgotado, mas sempre merece o registro.
Matheus – nome do filho do meio, é um Cabernet Franc, com uvas dos Campos de Cima da Serra.
Luísa – para comemorar a filha mais velha um branco por vezes Chardonnay, mas também Sauvignon Blanc, com uvas de Caxias do Sul.
Marina – a sobrinha e afilhada, dá nome a um delicado rosé de Cabernet Franc, com uvas de Campos de Cima da Serra.
Arthur – outro sobrinho e afilhado do casal, identifica o potente Teroldego, com uvas de Encruzilhada do Sul.
Porto Alegre – um Pinot Noir delicado e sutil, com uvas de Encruzilhada do Sul. Uma singela homenagem à capital gaúcha.
Chácara das Pedras – para honrar o bairro, um espumante sur lie com o clássico corte Pinot Noir e Chardonnay. Atualmente o rótulo está esgotado.
1927 – um Tannat com uvas de Caxias do Sul, que traz no nome o ano em que houve a separação das zonas urbana e rural de Porto Alegre, com a divisão dos bairros da capital gaúcha).
Januário Greco - um corte com uvas de três regiões, Serra Gaúcha, Serra do Sudeste e Campos de Cima da Serra, para lembrar o bisavô de Eduardo, também um produtor de vinho.


Facebook
Google
Twitter