Porto Alegre, quarta-feira, 23 de setembro de 2020.

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Varejo

- Publicada em 18h57min, 22/09/2020. Atualizada em 09h46min, 23/09/2020.

'Pelo mercado, você conhece a cara da cidade', diz gestor do Mercado Central de Belo Horizonte

'A associação tem o compromisso e o poder de controlar o mix da operação', diz Braga

'A associação tem o compromisso e o poder de controlar o mix da operação', diz Braga


LUIZA PRADO/JC
Patrícia Comunello
A presidente da Associação do Comércio do Mercado Central de Porto Alegre (ASCOMEPC), Adriana Kauer, conta que ficou impressionada ao embarcar em mais de um Uber em Belo Horizonte, na semana passada, e ouvir dos motoristas. "Já conhece o mercado de BH? Vai que vale a pena". Era o que Adriana estava fazendo. Foi conferir de perto o empreendimento que, na década de 1960, foi comprado pelos permissionários.
A presidente da Associação do Comércio do Mercado Central de Porto Alegre (ASCOMEPC), Adriana Kauer, conta que ficou impressionada ao embarcar em mais de um Uber em Belo Horizonte, na semana passada, e ouvir dos motoristas. "Já conhece o mercado de BH? Vai que vale a pena". Era o que Adriana estava fazendo. Foi conferir de perto o empreendimento que, na década de 1960, foi comprado pelos permissionários.
Para ampliar o conhecimento sobre a trajetória do equipamento mineiro, a associação trouxe a Porto Alegre o superintendente do Mercado Central de Belo Horizonte, Luiz Carlos Braga, que visitou o mercado porto-alegrense nesta terça-feira (22) e se reuniu com associação e permissionários. Braga diz que vem percorrendo o Brasil para contar a trajetória do exemplo de BH em meio a uma onda recente de concessões de mercados públicos ao setor privado, que inclui Porto Alegre.
O superintendente está há 30 anos na função e deu até algumas dicas sobre o potencial do Mercado da Capital que precisa ser explorado. Braga elogiou a beleza da arquitetura do complexo, mas logo viu os espaços vazios, como o segundo piso, fechado desde o incêndio de 2013. O Mercado completou 150 anos em 2019
O modelo seguido na capital mineira reforça a tese da ASCOMEPC de que o Mercado da Capital deve ser assumido pelo próprios comerciantes, mesmo que a prefeitura tenha lançado a concessão que impede que a entidade entre na disputa. O processo está suspenso pela Justiça, com futuro, por enquanto, indefinido. O edital foi lançado em junho. Dois grupos chegaram a entregar propostas, mas os envelopes não foram abertos até agora devido às medidas judiciais. 
Jornal do Comércio - Quais são as origens do Mercado Central de Belo Horizonte e a situação atual?  
Luiz Carlos Braga - É um dos poucos mercados do Brasil que é privado. Foi privatizado em 1964, em pleno regime militar, quando 720 comerciantes se juntaram e compraram o espaço físico da prefeitura, pagando em 20 promissórias e com o compromisso de reformar em cinco anos. A obra principal foi colocar telhado e muros. O antigo mercado municipal era um tabuleiro de madeira - as mercadorias eram colocadas sobre tábuas de madeira. Era tudo descoberto e com chão batido. Era uma grande feira. Em 1971, passou a se chamar Mercado Central, com o fim da reforma. Hoje é uma associação de comerciantes sem fins lucrativos, tudo que é arrecadado e os lucros são revertidos ao empreendimento, o que garante a potência do local, que é um dos maiores atrativos turísticos da cidade. Desde 2013, o turismo cresceu muito na capital mineira, parte disso por causa da Copa do Mundo de 2014, e viramos uma atração. O mercado de BH foi escolhido, em 2016, como o terceiro melhor do mundo pela revista de bordo da Latam. Pelo mercado, você conhece a cara da cidade. Até porque mercado, igreja e cemitério são os três equipamentos mais antigos. 
JC - Como é a gestão e a geração de receitas?
Braga - A associação tem faturamento de R$ 16 milhões a R$ 18 milhões por ano e 170 funcionários. Hoje são 400 lojas em funcionamento. Não temos ingerência sobre as lojas. Temos mais receitas do  estacionamento, cerca de 60% do faturamento, e da cobrança pelo uso dos sanitários. Cada 'pipizinho' custa R$ 1,50. As pessoas preferem pagar para terem um banheiro de qualidade. Como estamos bem no centro, o local é muito procurado. Outra fonte de receita é a publicidade, com ativações em diversos pontos, desde o estacionamento a fachadas de lojas e bares. As lojas locadas custam R$ 28,00 por metro quadrado, que geram condomínio, que resulta em R$ 290 mil a R$ 320 mil ao mês. A propriedade é do associado, que tem cotas, e pode locar espaços a terceiros, que ocupam hoje 48% dos espaços. Os outros 52% são explorados por associados. Também foi instalado um sistema de monitoramento de vídeo com 306 câmeras.
JC - Como o mercado gerencia o mix do empreendimento e o que pode funcionar? 
Braga - A associação tem o compromisso e o poder de controlar o mix da operação. Este é um detalhe muito importante, senão o equipamento pode ser descaracterizado. Temos lojas de artesanato, hortigranjeiros, queijos, doces, padaria ... É mais fácil falar o que não pode ter: filiais de grandes magazines, franquias e lojas de R$ 1,99, de itens chineses, confecções e eletrônicos. Isso tudo é shopping e não mercado. Também não tem supermercado, apenas uma loja com 90 metros quadrados. A preocupação é em manter o mix e a história do lugar. Se não vira um grande camelódromo.
JC - Em Porto Alegre, criou-se uma polêmica em torno da tentativa da prefeitura de fazer a concessão do Mercado Público para um gestor e investidor privado, com oposição da associação dos permissionários. Por que há tanto temor? 
Braga - O que faz a história dos mercados não é o equipamento físico, são as pessoas. Quando um grande investidor, como um fundo imobiliário, paga a outorga para o município não quer nem saber dessa história e do passado. Por isso, o edital precisa ter diretrizes de proteção do equipamento. Quem paga uma outorga de R$ 40 milhões, R$ 80 milhões ou R$ 90 milhões em algum momento vai ter de ter retorno do valor investido e aí começa o perigo. Tem de estar claro o que não pode ter. Sem isso, você coloca em risco comerciantes que estão há 40 anos, 50 anos e conhecem o mercado como ninguém. 
JC - Por que o senhor defende que os comerciantes são os mais indicados para fazer a gestão?
Braga - Porque eles conhecem o local como ninguém. Se a associação tiver recursos, por que não pode entrar em pé de igualdade com outros grupos? Um grupo de investidores chega e não conhece nada dessa história. Por que não dar oportunidade para os permissionários, com as diretrizes já claras, participarem? O valor do retorno financeiro para a prefeitura será o mesmo.    
JC - O que é importante na gestão?
Braga - O caminho é a associação contratar um bom gestor administrativo com olhar para dentro e para ajudar. O comerciante tem olhar de venda.
JC - Qual foi a sua percepção sobre o Mercado Público de Porto Alegre?
Braga - É a primeira vez que venho aqui e é um prédio bonito, tem características de mercado, com corredores largos e apresentação dos produtos bem feita. Aqui tem um público muito flutuante, com 80 mil e 100 mil pessoas passando por dia, mesmo em tempos de pandemia. Percebi vários espaços que podem ser explorados por mídia, sem contar o segundo piso, que está fechado. O Mercado está no hipercentro da cidade e pode ser trabalhado como um grande equipamento turístico, pois já tem a acessibilidade de transporte de ônibus e trem. Isso facilita para que moradores da Região Metropolitana venham até aqui, por exemplo. 
JC - O que Porto Alegre perde com a indefinição sobre o futuro da gestão?
Braga - Investimentos. As pessoas acabam buscando outros locais. O grande problema quando tem um equipamento como esse na mão da prefeitura é que passam os prefeitos e vereadores, e o equipamento vai ficando deteriorado. 
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