Porto Alegre, quarta-feira, 18 de março de 2020.

Jornal do Comércio

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Petroquímica

Notícia da edição impressa de 18/03/2020. Alterada em 17/03 às 21h31min

Tendência de venda da Braskem continua forte

Braskem no Polo Petroquímico de Triunfo

Braskem no Polo Petroquímico de Triunfo


JULIO BITTENCOURT /DIVULGAÇÃO/JC
Jefferson Klein
Mesmo com a desistência, em meados do ano passado, da holandesa LyondellBasell na negociação para assumir o controle da Braskem, os agentes do setor petroquímico mantêm a expectativa de que a maior produtora de resinas termoplásticas nas Américas será vendida. A percepção é que essa movimentação não demorará muito para acontecer.
Mesmo com a desistência, em meados do ano passado, da holandesa LyondellBasell na negociação para assumir o controle da Braskem, os agentes do setor petroquímico mantêm a expectativa de que a maior produtora de resinas termoplásticas nas Américas será vendida. A percepção é que essa movimentação não demorará muito para acontecer.
"Tenho quase certeza de que a Braskem terá um novo dono, não sei se neste ano ou no próximo, mas o ciclo da empresa com os sócios Odebrecht e Petrobras vai se encerrar", aponta o diretor da MaxiQuim Assessoria de Mercado, João Luiz Zuñeda. A Odebrecht possui 50,1% do capital votante e 38,3% do capital total da Braskem; a Petrobras tem, respectivamente, 47% e 36,1%, sendo o restante diluído entre outros empreendedores. O analista destaca que a estatal já manifestou que pretende focar na exploração e produção de petróleo e não na petroquímica. Por outro lado, a Odebrecht possui um grande endividamento e colocou as ações da Braskem como garantia dessa dívida. Em junho do ano passado, a Odebrecht, com débitos de R$ 98,5 bilhões, ingressou na Justiça com seu pedido de recuperação judicial.
Zuñeda comenta que se especula que o valor da Braskem gire em torno de US$ 10 bilhões, mas ressalta que se trata de uma cifra difícil de precisar. Para ele, é pouco provável que grupos nacionais possam competir pelo negócio - a perspectiva mais forte é que a concorrência fique concentrada nos players estrangeiros. O diretor da MaxiQuim acredita que a LyondellBasell ainda é uma possível interessada na petroquímica brasileira. Ele também estima que a saudita Sabic ou algum grupo chinês possam participar da disputa. Outra possibilidade seria a pulverização das ações da Braskem nas mãos de diversos investidores.
"A Braskem é uma bela de uma empresa e haverá companhias querendo comprá-la", frisa o analista. Apesar dessa colocação, Zuñeda admite que a Braskem enfrentou, recentemente, muitas dificuldades no Brasil - uma delas foi o problema com a extração de sal gema em Alagoas. A atividade foi considerada a responsável pelo afundamento do solo em vários pontos de Maceió. O diretor da MaxiQuim considera essa questão como uma das causas para que as tratativas com a LyondellBasell tenham cessado.
Soma-se a isso um ciclo de baixa da petroquímica mundial. O último balanço publicado pela Braskem, do terceiro trimestre do ano passado, apresentou um desempenho com prejuízo de
R$ 888 milhões. Zuñeda adianta que a estimativa é de que a próxima divulgação de resultados, que deve ocorrer amanhã, ainda não apresente números positivos.
Como boa notícia para a companhia está o fato que os impactos com a operação Lava Jato cada vez ficam mais no passado. O Ministério Público Federal (MPF) reconheceu recentemente as melhorias alcançadas pelo programa de conformidade da Braskem e deu por finalizada a monitoria externa que incidia sobre a empresa. A decisão se baseou na certificação de monitores independentes que atestaram: o cumprimento de todas as obrigações assumidas no Acordo de Leniência assinado entre MPF e Braskem em 2016 e a implementação de todas as iniciativas adicionais recomendadas. Durante o processo de monitoria independente, a companhia estabeleceu políticas e procedimentos, e implantou controles anticorrupção.
 

Transformadores defendem fatiamento da companhia

Para Zuñeda, fatiar a empresa pode reduzir preço dos ativos
João Luiz Zuñeda: fatiar pode reduzir preço dos ativos
JONATHAN HECKLER/JC

Para quem compra as resinas fabricadas pela Braskem, as companhias transformadoras, o ideal seria que a petroquímica fosse negociada com mais de uma empresa, aumentando a concorrência no setor. Essa opinião é compartilhada entre os presidentes do Sindicato das Indústrias de Material Plástico no Estado do Rio Grande do Sul (Sinplast-RS), Gerson Haas, e do Sindicato das Indústrias de Material Plástico do Nordeste Gaúcho (Simplás), Gelson de Oliveira.

Haas aposta que as unidades da Braskem serão desmembradas. "Ou seja, o polo petroquímico do Rio Grande do Sul será vendido para o grupo 'A' e o de São Paulo para o 'B', e assim por diante", comenta. O dirigente também projeta que o negócio envolvendo a Braskem deverá sair ainda neste ano ou, no mais tardar, em 2021. "Ela será vendida, isso é líquido e certo", prevê. O presidente do Sinplast-RS acrescenta que a maior probabilidade é de que estrangeiros adquiram a companhia. Haas argumenta que, se o comprador for uma grande empresa internacional, há chances de ter uma capacidade de aquisição de matéria-prima até superior à da atual Braskem.

Para o dirigente, a negociação com a LyondellBasell não foi adiante, principalmente, por dois motivos: o problema que a companhia brasileira teve em Maceió e também por um recuo estratégico dos holandeses para conseguir um preço melhor. O integrante do Sinplast-RS acredita que os europeus ainda mantêm o interesse em comprar a petroquímica. Haas enfatiza que a intenção da Odebrecht (sócio-controlador da Braskem) é vender a companhia com o objetivo de "salvar" o resto do grupo. Porém, no momento, um possível negócio poderia ser afetado pela questão do coronavírus. O dirigente recorda que muitos dos maiores produtores petroquímicos encontram-se na Ásia, um mercado que está sendo fortemente impactado pelo vírus.

O presidente do Simplás, Gelson de Oliveira, também considera que, para os transformadores de material plástico, seria benéfica a venda Braskem de uma forma desmembrada. O dirigente afirma que a empresa conta com "regalias", como o antidumping (proteção que impede que insumos entrem com preços muito baixos no País), que fazem com que os preços das resinas fiquem muito elevados no Brasil. "É uma única companhia e faz os aumentos da forma que quer e, internamente, estamos pagando muito mais caro a matéria-prima", frisa.

Oliveira defende que a empresa precisa ser competitiva sem protecionismo. Sobre a possibilidade da concentração no mercado petroquímico brasileiro perdurar após a eventual venda da Braskem, mas nas mãos de um grupo estrangeiro, o presidente do Simplás argumenta que é preferível "arriscar" com um novo player.

O diretor da MaxiQuim Assessoria de Mercado, João Luiz Zuñeda, reitera que o sonho dos transformadores seria a venda fatiada da Braskem, fazendo com que não houvesse um único dono para a produção das resinas petroquímicas no Brasil. No entanto, o consultor argumenta que, dentro de uma lógica econômica, se a Braskem fosse fracionada para ser vendida, dificilmente iria dividir os negócios dentro do Brasil. O que poderia ocorrer é a separação das atividades internacionais e nacionais. Além disso, fatiar poderia reduzir o preço final dos ativos.

Companhia mantém projeção otimista apesar do coronavírus

Nelzo Luiz Neto diz que consumo das famílias tem aumentado
Neto diz que perspectiva ainda é positiva
BRASKEM/DIVULGAÇÃO/JC

Em meio aos rumores de uma possível alienação e de um ano que começou turbulento na economia, a Braskem espera que ocorra uma recuperação do cenário atual. O diretor industrial do grupo no Rio Grande do Sul, Nelzo Luiz Neto da Silva, afirma que as perspectivas da empresa são positivas, apesar da epidemia de coronavírus.

Ele admite que será necessário aguardar um pouco mais para entender quais os impactos que esse panorama poderá trazer para o negócio da companhia em 2020, mas, apesar disso, a Braskem permanece com a expectativa de que haverá um ambiente de negócios favorável para o seu mercado nos próximos anos, com crescimento acima do PIB industrial. O dirigente justifica o posicionamento alegando que a taxa de juros básica da economia brasileira segue em trajetória descendente e o consumo das famílias está aumentando gradativamente.

"Acreditamos que, mesmo que mais lenta do que o esperado, a retomada da economia seguirá e favorecerá a recuperação de capacidade de alguns setores industriais que diminuíram seu ritmo nos últimos anos", aposta. Conforme Silva, a Braskem tem uma estimativa positiva para as resinas de polietileno, polipropileno e PVC. A projeção é de crescimento no mercado doméstico para as três resinas ao redor de 3%. No polietileno, os setores de infraestrutura e o consumo das famílias podem influenciar positivamente o resultado. Em polipropileno, com a queda das taxas de juros, espera-se um melhor desempenho do consumo de bens duráveis. Já em PVC, o reaquecimento do setor de construção civil deve estimular o mercado. Nesta resina, em especial, o novo marco do saneamento deve sustentar uma demanda aquecida para além de 2021.

Silva frisa, ainda, a importância do ambiente externo para o grupo. "Nossa intenção é de aumentar a presença da Braskem no mercado global em 2020, podendo chegar ao patamar de ter mais de 50% do nosso Ebitda gerado fora do Brasil", comenta. Entre as iniciativas que contribuirão para esse cenário está a nova linha de produção de polipropileno da companhia localizada em La Porte, no Texas (EUA), que está 82,5% concluída e deve entrar em operação no primeiro semestre de 2020, com potencial para substituir a importação pela produção local de polipropileno. Esta nova fábrica terá capacidade de produção de 450 mil toneladas anuais e é resultado do investimento de US$ 675 milhões.

Questionado sobre por que a venda da Braskem para a LyondellBasell não foi adiante e se a empresa mantém o plano de alienação para essa ou outra empresa, Silva diz que "este é um assunto do controlador". Sobre a Operação Lava Jato, o diretor da Braskem afirma que o grupo considera o episódio como uma página virada. Já quanto à situação em Alagoas e os problemas apontados com a extração de sal gema, Silva diz que a empresa cessou essa atividade na região urbana de Maceió e está estudando alternativas para retomar a operação da planta de cloro-soda na cidade (que utiliza como matéria-prima o sal gema).