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Comércio Exterior

- Publicada em 03h00min, 20/01/2020.

Diplomacia do Brasil investe em formação de adidos agrícolas

Nove novos diplomatas voltados para negócios de agricultura e pecuária tomam posse no início deste ano

Nove novos diplomatas voltados para negócios de agricultura e pecuária tomam posse no início deste ano


/CARLOS SILVA/MAPA/JC

O presidente Jair Bolsonaro embarca esta semana para uma viagem de quatro dias à Índia, onde deve assinar uma dúzia de acordos comerciais que promovam o agronegócio brasileiro. Para abrir as portas do mundo para os produtos nacionais, o Brasil conta com um grupo de 24 adidos agrícolas, cargo criado em 2009 para internacionalizar o campo brasileiro.

O presidente Jair Bolsonaro embarca esta semana para uma viagem de quatro dias à Índia, onde deve assinar uma dúzia de acordos comerciais que promovam o agronegócio brasileiro. Para abrir as portas do mundo para os produtos nacionais, o Brasil conta com um grupo de 24 adidos agrícolas, cargo criado em 2009 para internacionalizar o campo brasileiro.

Quando o agrônomo Dalci Bagolin desembarcou em Nova Délhi, em janeiro de 2018, seus desafios não eram pequenos: desbravar um país com cultura diferente, lidar com um idioma desconhecido - o inglês não é falado por todo mundo na Índia - e identificar oportunidades para a agropecuária do Brasil no segundo maior mercado do mundo.

A missão de Dalci não é fácil. A Índia tem um histórico protecionista, desenvolvimentista e de muitas restrições cambiais, como o Brasil. Além disso, o agronegócio indiano é a imagem refletida do brasileiro. O país produz café, açúcar, aço, cimento e carne, que enfrentam dificuldades de escoamento em razão de uma infraestrutura precária - um panorama bastante familiar.

O desafio de Dalci, portanto, é encontrar interesses comuns entre os dois países. Já adaptado à Índia, ele tem dormido pouco na semana que antecede a chegada da missão presidencial brasileira, que ficará na Índia entre os dias 23 e 27. "Durmo todo dia depois das 2 horas da manhã", conta.

O cargo de adido agrícola foi criado pelo Ministério da Agricultura em 2009, durante a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, e mostra a importância que o agronegócio vem ganhando na diplomacia brasileira. O setor responde por cerca de um quarto do PIB do Brasil e está encarregado de manter a balança comercial superavitária.

Hoje, o setor agropecuário brasileiro fornece alimentos para cerca de um bilhão de pessoas em todo o mundo. Em 2019, o setor exportou US$ 96,8 bilhões - o equivalente a 43,2% do total produzido. A Ásia foi o principal destino, com 49%.

Além dos adidos agrícolas, o Itamaraty tem outros 120 postos de representação no exterior na área de promoção comercial - o agronegócio é apenas um deles. Ainda que o Ministério da Agricultura apoie o setor há algum tempo, a criação do Departamento de Promoção do Agronegócio (DPA), em 2019, permitiu unir discussões de promoção e política comercial.

Outra função importante dos adidos agrícolas - que se estende à diplomacia brasileira, em geral - é vender uma imagem positiva em momentos difíceis. A missão, neste caso, é contornar momentos de crise, como no caso dos incêndios da Amazônia, no ano passado, ou apagar o incêndio causado por declarações incômodas de lideranças políticas dentro do governo brasileiro.

"É preciso estar preparado para enfrentar uma quantidade muito diferente de desafios, que mudam conforme o país", explica a coordenadora dos adidos, Andressa Beig. Por isso, o cargo é visto hoje como imprescindível por diversos empresários do setor.

Em janeiro e fevereiro deste ano, começam a tomar posse nove novos adidos agrícolas, que se apresentarão nos seguintes países: China, Reino Unido, Singapura, Itália (sede da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação - FAO), Rússia, Estados Unidos, Japão, Bélgica (sede da Comissão Europeia) e Peru. Os diplomatas foram apresentados no início do mês à ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina.

Governo da Índia busca aproximação política e novos negócios com o Brasil

Em 2019, País exportou US$ 2,76 bilhões para o mercado indiano
Em 2019, País exportou US$ 2,76 bilhões para o mercado indiano
/DENNIS JARVIS/WIKIMEDIA/JC

A viagem do presidente Jair Bolsonaro à Índia ocorre após um pedido do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, que esteve em Brasília em novembro, na cúpula dos Brics - bloco formando por Brasil, Rússia, Índia China e África do Sul. "Existe um interesse grande do governo indiano em uma aproximação maior com o Brasil. Há muitos territórios inexplorados", diz Amit Kumar Mishra, cônsul da Índia em São Paulo.

Em 2019, o Brasil exportou US$ 2,76 bilhões para a Índia, número considerado baixo pelo governo, que vê potencial de crescimento sobretudo nas áreas de alimentos e energia. No ano passado, a autoridade sanitária da Índia aprovou a primeira permissão de importação para carne de frango in natura brasileira, desde o acordo sanitário firmado entre os dois países, em 2008.

No ano passado, foi registrado um déficit comercial de US$ 1,49 bilhão na relação com o país asiático, uma reversão do superávit de US$ 246 milhões de 2018, segundo dados atualizados do Ministério da Economia. "Há muito potencial a ser explorado", informou o embaixador Reinaldo José de Almeida Salgado, secretário de Negociações Bilaterais na Ásia, Pacífico e Rússia. "Existe algo a melhorar, e isso é um dos objetivos da visita", afirmou.

Apesar dos pontos concorrentes, que podem criar mais rivalidades do que parcerias, Brasil e Índia têm um caminho aberto para explorar áreas complementares. Os setores de tecnologia e de medicamentos, nos quais os indianos têm grande conhecimento e um forte parque industrial, e o etanol, em que o Brasil é referência, são pontos de partida.

Outro fator comum importante que une os dois países é a liderança nacionalista de Bolsonaro e Modi. Ambos lideram grupos políticos conservadores, de tons populistas e com fortes elementos econômicos de caráter liberal - embora o premiê indiano seja mais pragmático em política externa e consiga manter boas relações com países que vivem às turras, como EUA e Irã.

Enquanto Modi defende a diplomacia multilateral, Bolsonaro cultiva certo desprezo pelo multilateralismo. Ainda assim, Brasil e Índia compartilham uma reivindicação histórica: uma vaga de membro permanente na eventual ampliação do Conselho de Segurança da ONU - embora o chanceler Ernesto Araújo tenha dito algumas vezes que a vaga "não é mais uma prioridade" do governo brasileiro.

Ao menos seis ministros estão confirmados na comitiva presidencial: Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Tereza Cristina (Agricultura), Bento Albuquerque (Minas e Energia), Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Osmar Terra (Cidadania).

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