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Infraestrutura

- Publicada em 21h25min, 01/01/2020. Atualizada em 16h23min, 02/01/2020.

Projeto de gasoduto Uruguaiana-Porto Alegre volta a ganhar força

Estrutura teria 594 quilômetros e capacidade máxima de até 15 milhões de metros cúbicos ao dia

Estrutura teria 594 quilômetros e capacidade máxima de até 15 milhões de metros cúbicos ao dia


AG/DIVULGAÇÃO/JC
Jefferson Klein
Um empreendimento que no início dos anos 2000 era considerado como muito relevante para o setor energético do Rio Grande do Sul, mas acabou perdendo força, volta agora a ser debatido seriamente: o gasoduto Uruguaiana-Porto Alegre. O projeto já consta, inclusive, no Plano Indicativo de Gasodutos de Transporte (PIG), da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão vinculado ao Ministério de Minas e Energia.
Um empreendimento que no início dos anos 2000 era considerado como muito relevante para o setor energético do Rio Grande do Sul, mas acabou perdendo força, volta agora a ser debatido seriamente: o gasoduto Uruguaiana-Porto Alegre. O projeto já consta, inclusive, no Plano Indicativo de Gasodutos de Transporte (PIG), da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão vinculado ao Ministério de Minas e Energia.
A iniciativa não foi adiante no passado, pois a Argentina, que seria a fornecedora do gás que alimentaria o gasoduto, não conseguiu aumentar a oferta desse insumo como se esperava e deslocou sua produção para atender ao mercado interno. Porém, atualmente, com a descoberta da jazida chamada de Vaca Muerta, localizada nas províncias de Neuquén e Mendoza, a nação vizinha passou a contar com abundância de gás de folhelho, também chamado de gás de xisto.
Conforme o PIG, importantes cidades gaúchas estão na área de influência desse gasoduto, tais como Uruguaiana, Alegrete, Santa Maria, Santa Cruz do Sul, Triunfo e Porto Alegre. Como houve alterações de traçado da estrutura, a extensão analisada pela EPE ficou em 594 quilômetros, contra 565 quilômetros do plano original.
A capacidade máxima do gasoduto será de até 15 milhões de metros cúbicos ao dia e o investimento total é estimado em aproximadamente R$ 4,6 bilhões. Para se ter uma ideia do significado desse volume, o gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol) que abastece o Estado tem capacidade para em torno de 2,8 milhões de metros cúbicos de gás natural ao dia.
Conforme a assessoria da Empresa de Pesquisa Energética, o projeto do duto entre Uruguaiana-Porto Alegre foi autorizado no modelo anterior à lei do gás 11.909/2009, portanto não necessitaria passar por um processo de concessão para ser construído (isso também por se tratar de um gasoduto binacional, então poderia ser autorizado, e não concedido). O empreendimento pertence à Transportadora Sulbrasileira de Gás (TSB). "A gente sempre imagina o gasoduto como uma opção importante e que está com uma tendência de alta", salienta o diretor comercial e financeiro da companhia, Walter Farioli. Atualmente, a TSB possui quatro sócios, cada qual com 25% de participação, Petrobras, Ipiranga Produtos de Petróleo/Ultra, Total Gas and Power Brazil e Repsol Sinopec.
A empresa já adquiriu, no começo da década de 2000, cerca de 900 propriedades, entre Uruguaiana e Triunfo, pelas quais passaria a faixa do gasoduto. Hoje, para retomar o projeto, detalha Farioli, precisariam ser revisitados os estudos de impacto ambiental, atualizar os dados, obter uma licença ambiental de instalação (pois a anterior caducou) e contratar uma empresa para fazer a construção da estrutura. A partir do início das obras, seriam necessários cerca de dois anos para terminá-las.
O projeto inteiro do gasoduto abrange três trechos, sendo que o primeiro e o terceiro já se encontram em operação. O 1º é um duto que cruza o rio Uruguai, vindo da ligação com a Argentina, faz o entorno do município de Uruguaiana até o ponto de entrega de gás para a usina AES Uruguaiana (esse segmento final, de poucos quilômetros, até a termelétrica é de responsabilidade da distribuidora Sulgás). O 3º trecho fica localizado nos arredores da refinaria Alberto Pasqualini (Refap), em Canoas, onde o gasoduto da TSB conecta-se com o da Transportadora Brasileira Gasoduto Bolívia-Brasil (TBG), que traz o gás da Bolívia. A TSB pega esse gás e transporta até o polo petroquímico de Triunfo onde a Sulgás faz a distribuição para as empresas desse complexo.
O trecho 2 (ligando Uruguaiana até a região Metropolitana de Porto Alegre, mais precisamente Triunfo) é justamente o que falta ser feito, com quase 600 quilômetros de extensão, para completar a conexão. Os dois trechos atualmente em operação possuem, cada qual, cerca de 25 quilômetros. Uma ponta em Uruguaiana e outra que abrange as cidades de Canoas, Nova Santa Rita e Triunfo (ou seja, apesar do projeto como um todo ser conhecido como gasoduto Uruguaiana-Porto Alegre, curiosamente ele não passa diretamente pela capital gaúcha).
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Aumento da oferta de gás na Argentina é caminho sem volta

Um fator que gera otimismo quanto à realização do gasoduto Uruguaiana-Porto Alegre, ressalta o diretor comercial e financeiro da TSB, Walter Farioli, é que, nos grandes projetos de energia, há um ponto conhecido como "sem retorno". "É como o avião que chegou na cabeceira da pista e precisa levantar voo", compara o dirigente. Para o integrante da TSB, a exploração do gás na Argentina, com Vaca Muerta, se enquadra nesse cenário. Ele enfatiza que o prejuízo em parar esse processo seria muito grande. Ou seja, há gás para abastecer o gasoduto Uruguaiana-Porto Alegre, a questão, agora, é ter demanda e preço competitivo.

Se "os ingredientes do bolo" estão na mesa, o que falta para colocar "no forno" é ter um cliente de porte, o que normalmente significa, no setor do gás, uma termelétrica. Apesar de já ter duas usinas que poderiam consumir o gás vindo do gasoduto, a AES Uruguaiana e a térmica Canoas (da Petrobras), Farioli adianta que seria necessário ainda outro empreendimento. O diretor da TSB detalha que, mesmo que a AES Uruguaiana estivesse em condições de usar o gás, a térmica consumiria, no máximo, 2,8 milhões de metros cúbicos diários, para gerar em torno de 600 MW. O dirigente recorda que a usina foi descontratada, operando apenas em algumas ocasiões extraordinárias. O consumo da térmica de Canoas, usina que é biocombustível e muitas vezes opera com óleo devido às limitações de fornecimento do gás boliviano que vem pelo Gasbol, também seria insuficiente.

Além de uma nova termelétrica, entre as outras possibilidades para aumentar a demanda de gás no Estado está a substituição do uso da nafta petroquímica em Triunfo por gás por parte da Braskem e a instalação de novas fábricas de fertilizantes. Apesar da necessidade dessa "âncora" para o empreendimento sair do papel, o diretor-executivo da Comerc Gás, Pedro Franklin, destaca que há um interesse grande quanto ao gasoduto ligando Uruguaiana-Porto Alegre. O dirigente ressalta que, para a Argentina, o Brasil seria o melhor mercado para a exportação de gás, pela sua proximidade. Franklin recorda que a nação vizinha já está comercializando esse insumo com os chilenos.

Sem o gasoduto, o especialista adianta que a alternativa seria transportar o gás através de navios, como gás natural liquefeito (GNL), mas essa opção aumentaria os custos logísticos. "Assim que ficar equacionado o modelo de concessão ou de autorização de transporte (do gás natural no Brasil), que está sendo discutido no Congresso, acho que esse será um dos principais gasodutos a serem viabilizados", projeta.

Governo gaúcho vê ocasião como propícia para o empreendimento

Estado ganha vantagem, diz Lemos
Rio Grande do Sul ganha vantagem, diz secretário Artur Lemos Júnior
LUIZA PRADO/JC
Para o secretário estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura, Artur Lemos Júnior, chegou o momento em que o gasoduto Uruguaiana-Porto Alegre pode se tonar uma realidade. Ele destaca que o governador Eduardo Leite já conversou sobre a questão com o ministro da Economia, Paulo Guedes. Lemos ressalta que, além de uma questão de energia, trata-se de um tema importante para a balança comercial. O secretário considera como uma "janela de oportunidade", fortalecida com a reserva de Vaca Muerta, que, neste ano, registrou as primeiras exportações de gás.
"A interligação é importante não somente para o Estado, mas também para o Brasil, pois fecha um anel (de gasodutos) e dá maior segurança de abastecimento", argumenta. Lemos defende que o Rio Grande do Sul precisa deixar de ser visto como uma região que está na ponta do País para ser observado como um local que está no centro do Mercosul. O coordenador do grupo temático de energia da Fiergs, Edilson Deitos, pensa que há uma chance palpável do gasoduto Uruguaiana-Porto Alegre sair do papel. O dirigente acrescenta que esse projeto faria concorrência com outros empreendimentos locais, como a proposta de gaseificação do carvão gaúcho. Contudo, o integrante da Fiergs aponta que será uma disputa de mercado, e os preços mais competitivos é que determinarão o sucesso das iniciativas.
Uma das vantagens da nova obra seria a conexão dos dois países, com a possibilidade de troca de gás entre o Brasil e a Argentina. Deitos compara essa situação ao sistema elétrico interligado nacional, que, através de várias linhas de transmissão de energia, permite deslocar a eletricidade para diversas partes do País, a partir dos pontos mais favoráveis de geração. O dirigente enfatiza que há, hoje, um gargalo quanto ao fornecimento de gás natural através do Gasbol para o Rio Grande do Sul, com o limite de oferta chegando muito próximo à demanda apresentada.
O coordenador do grupo temático de energia da Fiergs não acredita que o fato de o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, ter manifestado apoio a Mauricio Macri, que perdeu a eleição para a presidência da Argentina para Alberto Fernández, possa significar uma barreira diplomática para o empreendimento. Deitos sustenta que a questão comercial terá mais peso do que a ideológica.
 
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