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Porto Alegre, terça-feira, 29 de outubro de 2019.
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Jornal do Comércio

Economia

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Agronegócios

Edição impressa de 28/10/2019. Alterada em 29/10 às 09h24min

Sojas orgânica e convencional são alternativas de mercado

Nos planos de Vian está ampliar plantio convencional para 400 hectares

Nos planos de Vian está ampliar plantio convencional para 400 hectares


/ARQUIVO PESSOAL/DIVULGAÇÃO/JC
Thiago Copetti
A aplicação incorreta de químicos em lavouras gaúchas, especialmente no ciclo 2018/2019, deixou um prejuízo de R$ 100 milhões apenas na cultura da uva, segundo o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin). No entanto, as perdas devem ser maiores, uma vez que outros segmentos, como fruticultura e olivicultura, também foram afetados.
A aplicação incorreta de químicos em lavouras gaúchas, especialmente no ciclo 2018/2019, deixou um prejuízo de R$ 100 milhões apenas na cultura da uva, segundo o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin). No entanto, as perdas devem ser maiores, uma vez que outros segmentos, como fruticultura e olivicultura, também foram afetados.
Além dos danos, a deriva de produtos à base de 2,4-D, principalmente, também levantou uma questão até então pouco debatida no Estado: como reduzir o uso de químicos em lavouras de soja. Apenas nesses primeiros dias de preparação e plantio de soja no Rio Grande do Sul, já foram feitas ao menos 12 denúncias à Secretaria de Agricultura sobre aplicações incorretas de produtos químicos na preparação do solo para semeadura.
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O debate sobre o uso excessivo de químicos nas lavouras ganha ainda mais espaço no momento atual, de custos em alta devido ao dólar, e quando muitos produtores reclamam estar no limite do equilíbrio financeiro de suas plantações. Ainda que muitos sojicultores digam que produzir sem o
2,4-D é inviável atualmente, o exemplo de quem consegue semear e colher sem nenhum químico nesse processo, ou com uso reduzido ao máximo, mostra que há alternativas. O plantio de soja com mais defensivos biológicos no lugar dos químicos pode ser uma alternativa de trabalho, especialmente para quem planta a soja convencional no lugar de transgênicos. E até mesmo orgânica, rara no Rio Grande do Sul, tem um mercado mais representativo em outros estados e compradores internacionais dispostos a pagar valores extras por esse produto.
Uma das referências atuais no plantio de soja orgânica vive em Mineiros (Goiás) e preside o Grupo de Agricultura Sustentável (GAS), com 3 mil integrantes. Filho de gaúchos, mas natural do Mato Grosso, Rogério Vian cultiva 800 hectares de soja, dos quais 125 hectares foram semeados com soja convencional e manejo orgânico no ano passado, área que passará para 400 hectares na safra 2019/2020. Da semente ao manejo, explica, o trabalho precisa ser diferenciado, mas não menos remunerador. Nos atuais preços da soja em comparação com os custos dos insumos, diz o produtor, o grão orgânico tem sido a forma de manter a sustentabilidade do negócio.
Neste ano, em área própria, Vian terá conseguido eliminar completamente os químicos pela primeira vez. No lugar dos defensivos industriais, a aposta é em agentes biológicos. O produtor tem seis funcionários (inclusive para capina) e trabalha com a multiplicação de bactérias e fungos para controle de lagartas, percevejos e outras pragas. Controla ervas daninhas e do solo com produção e disseminação de micro-organismos. Parte dessa solução ele encontra na própria mata preservada no entorno, com fungos e bactérias replicadas na propriedade e aplicados no campo. De acordo com Vian, boa parte dos produtores estão no negativo, especialmente nas duas últimas safras, com impacto maior naqueles que não operam em grande escala. "O agricultor investe em máquina, compra insumo e arrenda terras para aumentar a área. Salvo os grandes proprietários de terra, o médio e o pequeno não estão ganhando nada", alerta.
O produtor ressalta que, se não tivesse buscando o plantio orgânico, já teria deixado a atividade. Ainda que tenha mais trabalho braçal nas lavouras para manejar o solo sem químicos, Vian assegura que o preço diferenciado pago pela soja orgânica (que exige semente convencional, ou seja, não transgênica) compensa. "Enquanto vendo soja transgênica a R$ 70,00 a saca, recebo R$ 100,00 pela orgânica. Mesmo com trabalho maior de capina e controle de invasoras, o custo compensa, pois não gasto com fungicida, herbicida, inseticida etc.", calcula Vian. Mesmo com rendimento cerca de 30% inferior à transgênica, a soja orgânica tem preços também em torno de 30% acima do produto geneticamente modificado.

Dilema comercial e risco de contaminação

Parte dos produtores não consegue mais sair do sistema de produção transgênica no qual estão inseridos. Com grandes indústrias orbitando seus negócios em torno de uma produção baseada em químicos, a oferta de crédito para compra de defensivo, de sementes e até da compra posterior da produção ajuda a manter o modelo.

"É um sistema comercial que está por cima disso tudo também. Mais de 80% dos produtores vivem dentro desta lógica: não têm crédito, se endividam e se comprometem com essas empresas a manter a produção neste ciclo", critica Rogério Vian. De origem Suíça, com base no Paraná, a Gebana é referência em compras de soja orgânica no Brasil. Gerente de produção agrícola da empresa, Marcio Challiol explica que o foco é estimular a produção na agricultura familiar e, para isso, além da compra garantida, dá assistência técnica, transportes e faz industrialização de farelo e lecitina. Hoje, a Gebana compra a produção de 120 propriedades.

Com custos em alta, reduzir químicos ganha novo apelo

Ambiente equilibrado exige maior presença a campo, afirma Bassani

Ambiente equilibrado exige maior presença a campo, afirma Bassani


ARQUIVO PESSOAL/DIVULGAÇÃO/JC
Um dos coordenadores do Grupo de Agricultura Sustentável (GAS) no Rio Grande do Sul, o produtor e engenheiro-agrônomo Ênio Bassani Filho vai fazer sua estreia com a soja convencional neste ano. Pretende destinar 10% dos 60 hectares nos quais semeará soja para sementes não transgênicas. Bassani acredita que cultivar soja convencional, especialmente pelos custos de produção em alta, além de mais sustentável, pode ser economicamente mais rentável.
Ir até a lavoura, olhar o sistema como um todo e pensar na solução do solo até a planta, como deve fazer o produtor, defende Bassani, foi trocado pela simples aplicação direta e constante de químicos, com os custos que isso implica. "Somos produtores e queremos lucro, mas acredito que há opção além dos transgênicos, que pode até ser mais barata, sem perder produtividade. É possível trabalhar com fungos, bactérias, reprodução de alternativas biológicas na fazenda e até mesmo com liberação de determinados insetos para combate de pragas", garante Bassani.
O produtor diz que a metodologia que aplicará nos 60 hectares cultivados com soja convencional exige mais trabalho direto no campo para entender o ambiente como um todo. Estar na lavoura, analisar os dados, observar e diagnosticar o problema - a solução ideal para cada caso - traz retorno, diz Bassani.
"Um ambiente equilibrado exige organização maior do produtor. É claro que é mais fácil fazer a agricultura de pacote, vendida pronta por grandes indústrias, mas, se é possível fazer de forma mais sustentável, e economicamente viável, por que não fazer?", questiona o agrônomo. Sobre os riscos, um dos grandes entraves é a contaminação, na venda ou no transporte, da soja convencional pela transgênica, avalia Bassani. Com isso, o esforço do produtor se perde, já que a produção acaba sendo comercializada sem o bônus pago pelo grão diferenciado. "Mas a soja é apenas um dos elementos dentro da agricultura biológica", ressalta Bassani, que também cultiva feijão e milho, entre outras atividades.
 
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