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Porto Alegre, segunda-feira, 09 de julho de 2018.
Feriado em São Paulo - Revolução Constitucionalista.

Jornal do Comércio

Economia

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Comércio exterior

Notícia da edição impressa de 09/07/2018. Alterada em 08/07 às 23h37min

Crise argentina afeta montadoras e projeção para o PIB do Brasil

Anfavea divulgou nova estimativa de exportação para o ano, de 800 mil veículos para 766 mil unidades

Anfavea divulgou nova estimativa de exportação para o ano, de 800 mil veículos para 766 mil unidades


IVAN BUENO/IVAN BUENO/APPA/DIVULGAÇÃO/JC
As dificuldades enfrentadas pela economia argentina devem produzir efeitos negativos sobre a produção brasileira e condicionar a revisão do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, segundo relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI). O país vizinho é um dos principais parceiros comerciais do Brasil e, neste ano, tem enfrentado um cenário econômico conturbado, chegando a pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI).
Um dos setores mais sensíveis a esse cenário é o automotivo. A Argentina recebe 76% das exportações do Brasil de veículos leves e 46% das de caminhões e ônibus, segundo a Anfavea, entidade que representa o setor automotivo. As vendas para o país vizinho também envolvem, segundo dados de 2017, grande volume de negócios nas áreas de máquinas e caldeiras (10%), e ferro e aço (4,5%).
Para Celso Grisi, professor de Comércio Exterior da Universidade de São Paulo (USP), a queda na demanda por carros na Argentina deve afetar o PIB. As projeções de crescimento já foram revistas por causa da mobilização dos caminhoneiros e estão entre 1% e 1,5%. A indústria automobilística representa cerca de 22% do PIB industrial e 4% do total.
"O setor vai apanhar mais um pouco com a crise na Argentina. Não acredito que vá representar mais que 3,5% do PIB neste ano. O impacto não é desprezível, apesar de não ser trágico", afirma. Mais preocupante, segundo ele, é uma possível repercussão na cadeia produtiva e nos empregos gerados pela produção de veículos.
O Brasil tem superávit comercial com a Argentina. "Somos grandes compradores do trigo argentino, mas a balança comercial é mais favorável para o Brasil, devido aos bens manufaturados e semimanufaturados que mandamos para lá", diz Otto Nogami, professor de economia do Insper.
Segundo dados divulgados pela Anfavea na sexta-feira, as projeções já começaram a se materializar. As vendas de veículos leves, caminhões e ônibus para o exterior ficaram em 64,9 mil unidades em junho, o que representa uma queda de 4,4% em relação ao mesmo mês do ano passado.
"É um início de revisão dos pedidos de importação pelo lado da Argentina, e, consequentemente, das nossas exportações. Estamos olhando com um pouco de cuidado. Vínhamos em um ritmo mais forte", diz Antonio Megale, presidente da Anfavea. No acumulado de janeiro a junho, o avanço foi de apenas 0,5% na comparação com o primeiro semestre do ano passado.
O resultado levou a entidade a revisar sua projeção de que as exportações alcançariam 800 mil unidades neste ano. Pelos novos cálculos, elas devem ficar em torno de 766 mil unidades, um número que Megale ainda considera satisfatório.
"Pelos pedidos que estão chegando da Argentina e do México, nossos principais mercados, acreditamos que ficaremos no mesmo nível de 2017, o que não é desprezível, porque 766 mil unidades foi o recorde histórico da indústria automobilística. Não é ruim, mas, infelizmente, está um pouco abaixo das nossas projeções anteriores." 

Retração nas vendas externas já prejudica a produção nacional

A revisão da estimativa de exportações de veículos também impacta as previsões da produção da indústria automotiva brasileira. No primeiro semestre, a indústria produziu 1,43 milhão de unidades no Brasil, alta de 13,6% até o momento, mas que deve arrefecer no segundo semestre, segundo o presidente da Anfavea, Antonio Megale.
Uma das mais sensíveis ao desempenho da economia argentina, a indústria automotiva já esperava que a crise do país vizinho afetaria as exportações de veículos, mercado que ajudou a retomar a produção em meio à queda nas vendas.
A Argentina recebeu 76% dos carros nacionais enviados ao exterior em 2017. Entre os caminhões, o total chega a 46% da produção, segundo a Anfavea. Cerca de 762 mil automóveis brasileiros cruzaram as fronteiras no ano passado, o que representa 28% de tudo o que foi produzido no Brasil entre modelos leves, ônibus e caminhões.
"Seguramente, o mercado argentino vai cair entre 50 mil e 100 mil unidades neste ano - a maioria, carros importados do Brasil. As vendas serão mantidas por veículos produzidos lá mesmo", afirma Antonio Filosa, presidente do grupo FCA (que reúne Fiat e Chrysler) na América Latina.
Ao todo, a montadora exportou 121 mil automóveis em 2017, mais de 70% foram enviados para a Argentina, que hoje produz apenas o sedã Fiat Cronos e peças na fábrica de Córdoba.
Na Ford, a preocupação maior está na linha de produtos que vêm da Argentina para o Brasil. Segundo Mauricio Greco, diretor de marketing da montadora, a empresa ainda está avaliando o cenário atual e espera que não haja problemas com a importação da linha Focus e da picape Ranger, fabricadas na cidade de Pacheco.
A Volkswagen - que produz, no Brasil, o Gol, modelo que é líder no mercado argentino - não quis se pronunciar sobre questões de exportação. 

Argentina deve enfrentar segundo semestre de recessão

Alta do dólar e pedido de ajuda ao FMI deflagrou onda de protestos

Alta do dólar e pedido de ajuda ao FMI deflagrou onda de protestos


/EITAN ABRAMOVICH/AFP/JC
O avanço da inflação faz os argentinos reduzirem seus gastos. De acordo com a Confederação Argentina da Média Empresa, as vendas a varejo caíram 2,5% nos primeiros cinco meses de 2018. No fim de abril, teve início uma corrida cambial que levou a uma depreciação de quase 35% da moeda somente neste ano. Depois disso, o Banco Central projetou a inflação de 2018 em 27%.
Antonio Filosa, da FCA, acredita que a Argentina pode se recuperar rápido e cita os US$ 50 bilhões (R$ 191,5 bilhões) emprestados ao país pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) como um sinal da credibilidade do governo de Mauricio Macri. Contudo, nem mesmo os líderes argentinos são tão otimistas. O chefe de gabinete do governo, Marcos Peña, disse que deverá haver recessão no segundo semestre devido aos problemas cambiais, embora o ano deva fechar com saldo positivo.
A Argentina cresceu 3,6% no primeiro trimestre de 2018 em comparação ao mesmo período do ano anterior, antes da crise que desvalorizou o peso em 20%. O ministério da economia já tinha antecipado que esperava mais inflação e menos crescimento para o resto do ano.
A partir do fim de abril, a situação saiu ainda mais do controle. O dólar disparou, as metas de inflação projetadas se mostraram irreais, e diversos sindicatos começaram a marcar suas greves. Economistas argentinos acreditam que, dificilmente, a inflação no país será inferior a 20%, mantendo-se como a maior da região, depois daquela da Venezuela em crise.
Macri precisa enfrentar também problemas políticos e convencer a população de que o acordo com o FMI é bom, que comparações com a crise de 2001 não cabem porque a conjuntura é diferente e de que o governo está seguro de suas decisões. 
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