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Porto Alegre, quinta-feira, 05 de julho de 2018.

Jornal do Comércio

Economia

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Notícia da edição impressa de 05/07/2018. Alterada em 05/07 às 18h41min

Opinião econômica: O lugar do drible

Laura Carvalho é professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP

Laura Carvalho é professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP


KEINY ANDRADE/fOLHAPRESS/JC
Laura Carvalho
Alvo principal de memes entre brasileiros durante a primeira fase da Copa, o dramatismo de Neymar ao ser atingido por adversários passou a ser objeto de críticas contundentes da imprensa estrangeira nos últimos dias.
Ignorando o pisão que o craque levou fora de campo do jogador mexicano, jornais e ex-atletas britânicos precipitaram-se em condenar a teatralidade de Neymar para, no dia seguinte, terem de assistir a seu conterrâneo Henderson simular diversas infrações inexistentes no jogo contra a Colômbia.
Se é verdade que o fim das simulações faria bem ao futebol, é no mínimo curioso que a limpeza ética tenha começado justamente com Neymar, quiçá o jogador que mais dribla e mais sofre faltas no futebol mundial. Em 2014, foi tirado da Copa por uma entrada criminosa de Zuñiga. Em 2018, chegou recuperando-se de lesão e já sofreu 23 faltas - nove a mais que Cristiano Ronaldo, o segundo da lista.
Nesse contexto, defender Neymar só não é mais fácil porque, mesmo sem ter inventado a malandragem, o jogador tampouco se destaca por nadar contra a maré. Fora do campo, responde na Justiça espanhola a acusações de ter participado de conspiração com o Santos e o Barcelona para ocultar o real valor de sua transferência.
No Brasil, foi condenado a pagar R$ 8 milhões pela utilização de empresas em nome de seu pai para receber salários travestidos de direitos de imagem - um ato nada incomum no País desde a isenção de Imposto de Renda (IR) da pessoa física sobre dividendos concedida em 1995, diga-se de passagem. Para além das nossas jabuticabas, ao tentar aproveitar-se de brechas legais e ilegais a fim de pagar menos impostos, Neymar não destoa de boa parte dos super-ricos no mundo.
Ao cruzar os dados do Panama Papers e outros vazamentos de instituições financeiras offshore com dados de anistias fiscais e de distribuição da riqueza, o professor da Universidade de Berkeley Gabriel Zucman e seus coautores mostraram que a taxa de evasão fiscal chega a ser de 25% a 30% entre o 0,01% mais rico, ante cerca de 3% em média nas outras faixas de renda.
Em artigo no jornal The New York Times na terça-feira (3), Zucman usou o exemplo de Cristiano Ronaldo, que no dia do jogo contra a Espanha reconheceu ter evadido € 14,7 milhões (R$ 67 milhões, no câmbio atual) em impostos entre 2011 e 2014, para chamar a atenção para o problema. Em 2017, Messi recebera sentença de prisão e pagou multa de € 1,6 milhão (R$ 7,3 milhões) por evasão fiscal.
Em ambos os casos, os jogadores foram condenados pelas autoridades espanholas por ter usado paraísos fiscais para evitar o pagamento de IR sobre seus direitos de imagem. Como destaca o autor, não o fizeram porque são pessoas ruins ou inconsequentes, e sim porque foram "cortejados por uma indústria global de evasão fiscal".
Escritórios de advocacia e intermediários financeiros vendem aos super-ricos arranjos supostamente legais para facilitar a evasão fiscal por meio de empresas e contas bancárias offshore.
Zucman defende como solução que os governos punam os intermediários financeiros que atuam nesse tipo de transação, de modo a reduzir a oferta desses serviços.
Como aponta o autor, reduzir drasticamente a evasão fiscal é condição necessária para taxar a renda e o patrimônio dos super-ricos, o que beneficiaria a sociedade como um todo.
Enquanto nos concentramos em julgar atos cometidos por indivíduos, o sistema continua facilitando - no futebol, na política e na economia - que tais atos sejam repetidos inúmeras vezes por aqueles que não estão sob os holofotes. Que Neymar continue driblando todos, menos o fisco.
Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa brasileira: do boom ao caos econômico".
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