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Tecnologia

Notícia da edição impressa de 07/06/2018. Alterada em 07/06 às 00h06min

Brasil enfrenta a falta de pessoas proativas

Cavalcante conta como o Porto Digital se transformou em um dos principais ambientes de inovação no País

Cavalcante conta como o Porto Digital se transformou em um dos principais ambientes de inovação no País


/CESAR/DIVULGAÇÃO/JC
Patricia Knebel
Mirem-se no exemplo do Porto Digital, um parque urbano instalado no Centro Histórico do Recife e nos bairros de Santo Amaro, Santo Antônio e São José, totalizando uma área de 171 hectares. A dica é do superintendente do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), Sérgio Cavalcante, que destaca que essa iniciativa se transformou ao longo dos anos em um dos principais ambientes de inovação do Brasil, porque teve planejamento e reuniu pessoas que, desde o início, apostaram no senso de cooperação, e não apenas de competição. Hoje, cerca de 309 empresas e instituições estão conectadas ao Porto Digital, 800 empreendedores e 9 mil pessoas, gerando um faturamento de R$ 1,7 bilhão. O grande segredo, entretanto, foi a capacidade ali criada de fazer com que esse ambiente perpasse toda a cidade, e as interações e inovações ali desenvolvidas não fiquem reduzidas ao espaço físico onde está instalado. Nesta quinta-feira, Cavalcante vai contar um pouco dessa história e dos desafios da inovação no Brasil durante o XV CEO Fórum, promovido pela Amcham Porto Alegre. O encontro também vai contar com a participação da diretora-geral da Paypal Brasil, Paula Paschoal, e do diretor do IXL Center, Hitendra Patel.
Mirem-se no exemplo do Porto Digital, um parque urbano instalado no Centro Histórico do Recife e nos bairros de Santo Amaro, Santo Antônio e São José, totalizando uma área de 171 hectares. A dica é do superintendente do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), Sérgio Cavalcante, que destaca que essa iniciativa se transformou ao longo dos anos em um dos principais ambientes de inovação do Brasil, porque teve planejamento e reuniu pessoas que, desde o início, apostaram no senso de cooperação, e não apenas de competição. Hoje, cerca de 309 empresas e instituições estão conectadas ao Porto Digital, 800 empreendedores e 9 mil pessoas, gerando um faturamento de R$ 1,7 bilhão. O grande segredo, entretanto, foi a capacidade ali criada de fazer com que esse ambiente perpasse toda a cidade, e as interações e inovações ali desenvolvidas não fiquem reduzidas ao espaço físico onde está instalado. Nesta quinta-feira, Cavalcante vai contar um pouco dessa história e dos desafios da inovação no Brasil durante o XV CEO Fórum, promovido pela Amcham Porto Alegre. O encontro também vai contar com a participação da diretora-geral da Paypal Brasil, Paula Paschoal, e do diretor do IXL Center, Hitendra Patel.
Jornal do Comércio - Por que o Brasil não é um país inovador?
Sérgio Cavalcante - Não temos um contexto cultural voltado para a inovação no Brasil. O brasileiro é muito criativo, mas não é inovador. Inovação exige mais. O nosso modelo educacional, por exemplo, desde o Ensino Médio até a universidade, é aquele em que as pessoas ficam esperando que o professor entregue a informação. Os indivíduos não são treinados a buscar o conhecimento. Com isso, acabamos formando pessoas passivas, sem proatividade, que ficarão apenas esperando alguém mandar eles fazerem algo. Tivemos avanços nas últimas décadas, porque começamos a falar mais sobre inovação, e não apenas em ciência e tecnologia. Antes, parecia que tudo se resumia à geração de conhecimento. Inovação exige mais conhecimento do negócio, dos problemas que a sociedade precisa resolver. Precisamos encontrar oportunidades, criar cenários futuros, e não esperar ele acontecer. Não só não podemos perder o bonde, como temos que tomar a frente e construir o bonde. Mas, para isso ser possível, precisamos de planejamento não só do governo como também das empresas.
JC - Existe alguma sinalização de evolução?
Cavalcante - Eu percebo mais interesse real de algumas empresas em buscar a inovação. Muitos bancos, como BMG, Itau e Bradesco, estão investindo em startups, tentando entender como eles podem se conectar com os novos tempos. Isso é interessante. Do ponto de vista industrial, o processo é mais acanhado, mas já vemos players que antes só pensavam em fazer evolução de seus produtos, agora mais focados em criar coisas novas. Há também interesse dos empreendedores mais jovens de buscar coisas além do seu mundo. Na área educacional, mesmo que de forma modesta, já surgem exemplos de ensinar além da técnica, de se pensar nas competências do século XXI. Aliás, estamos há 18 anos no século XXI, mas só agora estamos pensando em ensinar as pessoas a serem mais colaborativas, a pensar diferente. As coisas estão mudando. Poderiam ter sido feitas antes, mas que bom que, enfim, estão acontecendo.
JC - O Porto Digital é apontado como um modelo de parque digital de futuro. A saída é tentar replicar em outros estados?
Cavalcante - Acredito, realmente, que deveríamos tentar replicar o Porto Digital em outras cidades. Mas sabendo que isso levou anos e que é preciso exercitar o senso de cooperação, e não apenas de competição. Não é apenas pensar no que você vai receber, mas também o que você pode fazer para também contribuir para todos crescerem juntos. Estamos na periferia de um país periférico, então tivemos que nos diferenciar. Baixamos as barreiras de vaidades, de tentar fazer tudo sozinho. Construir um parque industrial ou tecnológico não significa que as empresas ali instaladas vão conversar entre si. O que tem que se pensar é que as empresas são parte de um sistema que tem pessoas e quando você conecta isso, passa a ter um ecossistema. Essa é uma diferença brutal. Hoje em dia, se fala muito em criar parques tecnológicos, mas o importante é criar ecossistema. Em Recife, tivemos muita convergência de interesses anos atrás. Foi feito um planejamento como cidade, e não de cada um tentando construir a sua parte. São Paulo, por exemplo, criou uma estratégia para a criação de parques tecnológicos que, na minha opinião, está errada. Eles criaram uma lei, definiram estes espaços precisam ter "x" metros quadrados, que as empresas possam estar juntas, recebendo subsídios. Mas qual a conexão com a própria cidade? Sem falar que, em um país como o Brasil, construir um parque do zero, em um lugar distante da cidade, representa um custo absurdo. Não temos tempo nem dinheiro para gastar nisso.
JC - O que você acha das iniciativas de Porto Alegre nessa área?
Cavalcante - Porto Alegre tem três grandes universidades (Pucrs/Tecnopuc, Unisinos/Tecnosinos e Ufrgs/Zenit) com competências fantásticas, mas que criaram seus próprios parques tecnológicos. Às vezes, isso é uma vantagem que se transforma em desvantagem. Será que não seria interessante elas se juntarem e criarem um cenário mais ecossistêmico? Acho que isso poderia acontecer não só no Rio Grande do Sul, mas em outros estados também.