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Cinema

- Publicada em 12 de Janeiro de 2022 às 20:27

Jornal produzido por moradores de rua em Porto Alegre é tema de documentário

Homens e mulheres que fazem jornal Boca de Rua viram personagens do longa 'De olhos abertos'

Homens e mulheres que fazem jornal Boca de Rua viram personagens do longa 'De olhos abertos'


ALICE/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
Há mais de duas décadas, Porto Alegre é um dos únicos lugares do mundo (talvez mesmo o único) onde os moradores de rua têm o seu próprio jornal. Vendido nas esquinas da Capital, o Boca de Rua é um veículo no qual a voz de quem fala faz toda a diferença - afinal, quem propõe o diálogo são os homens e mulheres que habitam as ruas e praças da cidade, tomando a iniciativa de escolher as temáticas, de falar de suas experiências com as próprias palavras, em seus próprios termos.
Há mais de duas décadas, Porto Alegre é um dos únicos lugares do mundo (talvez mesmo o único) onde os moradores de rua têm o seu próprio jornal. Vendido nas esquinas da Capital, o Boca de Rua é um veículo no qual a voz de quem fala faz toda a diferença - afinal, quem propõe o diálogo são os homens e mulheres que habitam as ruas e praças da cidade, tomando a iniciativa de escolher as temáticas, de falar de suas experiências com as próprias palavras, em seus próprios termos.
Uma experiência que ganha novos desdobramentos a partir do documentário De olhos abertos, produção independente dirigida por Charlotte Dafol e que traz depoimentos e vivências das pessoas que fazem e distribuem o informativo, falando com franqueza sobre as muitas dificuldades (mas também das alegrias e belezas) que as envolvem.
O longa terá sua primeira exibição presencial neste sábado (15), em sessão noturna ao ar livre no Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo (rua João Alfredo, 582), a partir das 18h, com entrada franca. No sábado seguinte, dia 22, a exibição será na Cinemateca Paulo Amorim da Casa de Cultura Mario Quintana (Rua dos Andradas, 736), às 19h, e, no dia 27, no Marakayá, antigo Comitê Latino-Americano (rua Vieira de Castro, 133), às 20h - dentro da programação do Fórum Social das Resistências.
Todas as sessões são gratuitas. Ao final de cada exibição, haverá bate-papo dos presentes com representantes da equipe do filme e do jornal Boca de Rua. 
Produzido pela Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação (Alice), o filme foi financiado por meio de vaquinha eletrônica, sem aporte de recursos públicos ou privados. O valor foi usado para compra de uma câmera usada e como ajuda de custo para transporte e alimentação. A diretora fez a maior parte da captação, com assistência de Annekatrin Fahlke e a ajuda de voluntários.
Um dos destaques da obra é a trilha musical, que une composições originais de Rafael Sarmento, Marcelo Cougo e Paulo Bettanzos à contribuição de outros músicos da Capital e além - incluindo o icônico Itamar Assumpção, que teve uma de suas músicas cedida pela viúva Elizena.
Charlotte Dafol (que também é fotógrafa, escritora e musicista) tem contato com o Boca de Rua desde 2008, quando começou a atuar junto ao projeto como voluntária. Essa convivência, naturalmente reforçada durante a produção do documentário, fez com que muitas escolhas de direção e roteiro fossem inspiradas, de forma direta ou inconsciente, por eles. "A própria ideia de fazer o filme veio de reuniões deles, anos antes (de começarmos a produção)", garante a diretora. Uma das preocupações, segundo ela, foi justamente fugir de uma visão de fora para dentro - ou, dizendo de outra forma, evitar que De olhos abertos fosse uma espécie de estudo sobre moradores de rua, no qual eles mesmos tivessem pouca ou nenhuma voz.
"Gosto de falar que é um filme feito junto com o Boca de Rua", define ela. "É meu olhar, não tem como não ser. Não posso fingir que é um filme deles, mas também não quero estar nessa posição de ser a pessoa de fora que fica mostrando os moradores de rua. Me sinto no papel de ponte, sabe? O filme foi totalmente baseado nas conversas que tivemos, eles foram os primeiros a assistir quando ficou pronto e deixei claro que se não quisessem algo, a gente tirava".
Assistindo De olhos abertos, é marcante a sensação de estarmos diante de uma Porto Alegre um pouco diferente - ou talvez de uma cidade que é a mesma de sempre, mas que nos percebemos provocados a olhar por outro ângulo, a partir da vivência de quem está dentro dela em todos os momentos, sem escudos ou disfarces. "Não pensei em fazer um filme sobre Porto Alegre, mas muitas pessoas que assistiram dizeram 'nossa, é um retrato de Porto Alegre', porque a cidade está muito presente", comenta Charlotte. "Na verdade, pensei a cidade mais como cenário, mesmo. É a cidade como a casa deles, uma casa um pouco diferente do que a gente está acostumado a ver."
Nesse processo, uma vez mais, o diálogo entre diretora e integrantes do projeto fez toda a diferença. "Uma das ideias que eu tinha era de filmar as calçadas, porque elas são irregulares, diferentes na frente de cada casa, e isso sempre me marcou em Porto Alegre. Acho que a primeira entrevista que fiz (para o longa) foi com o Marcos, um cadeirante, e uma das primeiras coisas que começamos a conversar foi sobre as calçadas, e aí surgiu o aspecto de mostrar não só que são irregulares, mas também os buracos. Muitas coisas dessas entrevistas não estão presentes no filme, mas influenciaram o filme como um todo."
A Cinemateca Capitólio também deve receber o longa, mas a definição de data está condicionada à reabertura do espaço, que atualmente passa por reformas. Há previsão de mostrar o filme em exibições itinerantes fora de salas de cinema. Interessados em exibir De olhos abertos podem entrar em contato pelo e-mail [email protected]
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