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Memória

- Publicada em 28/11/2021 às 19h41min.

Os 20 anos da morte do beatle que achou a sua voz, George Harrison

O "beatle calado" conseguiu brilhar tanto - ou até mais - depois que a banda chegou ao fim

O "beatle calado" conseguiu brilhar tanto - ou até mais - depois que a banda chegou ao fim


BARRY FEINSTEIN/APPLE/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
A afirmação, para boa parte dos fãs de música, surge de forma quase natural: George Harrison foi o beatle mais legal depois que os Beatles se separaram. Talvez se possa dizer que ele foi o único que realmente conseguiu brilhar ainda mais forte depois que a lendária banda se desfez, em 1970, quase como uma estrela que se descola de outra e, assim, encontra a força para iluminar o céu.
A afirmação, para boa parte dos fãs de música, surge de forma quase natural: George Harrison foi o beatle mais legal depois que os Beatles se separaram. Talvez se possa dizer que ele foi o único que realmente conseguiu brilhar ainda mais forte depois que a lendária banda se desfez, em 1970, quase como uma estrela que se descola de outra e, assim, encontra a força para iluminar o céu.
Mas a verdade é que o músico e compositor - falecido há 20 anos, em 29 de novembro de 2001 - sempre foi mais do que um fiel escudeiro dos superlativos Paul McCartney e John Lennon: a seu modo, ele ajudou a definir o papel do guitarrista em uma banda de rock, além de ter expandido as fronteiras da música popular, tanto em termos de sonoridade quando em sua capacidade de engajamento com questões sociais.
Em sua jornada pela música, o jovem George (nascido em Liverpool, na Inglaterra, em 25 de fevereiro de 1943) contou com o apoio fundamental de sua mãe Louise: apreciadora de música, ela reconhecia que nada deixava o filho mais feliz do que tocar. Antes mesmo de aprender a tocar, o garoto já desenhava instrumentos em seus cadernos escolares, e na primeira oportunidade formou o grupo The Rebels - que logo cruzaria caminhos com The Quarryman, grupo que tinha uns certos John Lennon e Paul McCartney na formação. 
Quando os garotos de Liverpool se transformaram em um fenômeno global, George ganhou o apelido de "o beatle calado". A alcunha nasceu de forma circunstancial: durante a viagem aos Estados Unidos em 1964, o músico foi recomendado a falar o mínimo possível em decorrência de uma inflamação na garganta, e o apelido dado por jornalistas após vê-lo silencioso em atividades públicas acabou pegando. Mesmo que não combinasse com a personalidade afável do músico, o apelido dizia algo a respeito da posição criativa de George dentro da banda: uma voz a ser ouvida, sem dúvida, mas que não deveria falar mais alto que a desde então emblemática parceria entre Paul e John.
Uma posição contra a qual o guitarrista sempre tentou, mesmo que de forma indireta, se rebelar. Sem os arranjos sugeridos ou iniciados por Harrison, talvez os Beatles nunca tivessem feito a guinada rumo a sonoridades folk e à cultura indiana, a qual clássicos como Rubber soul (1965) e Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967) devem boa parte de seu apelo. De fato, a jornada espiritual de George na direção do hinduísmo simbolizou uma busca por maturidade não só dentro da banda, mas do cenário roqueiro como um todo - algo que dialogou positivamente com sua própria evolução como guitarrista solo, dando ao instrumento um papel que ia muito além de inserir melodias e solos em uma canção de três acordes.
A verdade, de qualquer modo, é que Harrison há tempos queria explodir para além do papel de compositor coadjuvante. Foi o primeiro beatle a gravar discos solo, tendo lançado Wonderwall music (1968) e Electronic sound (1969) ainda antes da separação da banda, em 1970. Mas foi com All things must pass, lançado no final daquele mesmo ano, que George Harrison libertou de vez sua persona criativa. Produzido pelo renomado Phil Spector, o disco triplo transformou-se em um clássico quase imediato, e é até hoje presença constante nas listas de melhores álbuns da história do rock. A capa, fotografada por Barry Feinstein, parece trazer um recado de liberdade e paz de espírito: sentado em um banquinho de madeira, ar ar livre, cercado de sorridentes enfeites de jardim, ele é a imagem de um homem conectado com a própria natureza, que surge completo em si mesmo e sem sinais de temor pelo que está por vir.
É esse George Harrison, confortável na missão de andar pelas próprias pernas, que promove o Concerto por Bangladesh em 1971, primeiro festival de natureza beneficente do rock e que introduziu a ideia de que artistas famosos poderiam atuar de forma concreta para ajudar comunidades em apuros. Da mesma forma, o guitarrista (autor, é verdade, de sucessos dos Beatles como Something e Here comes the sun) encontrou o topo das paradas por conta própria, com faixas como My sweet Lord, Give me love (give me peace on Earth) e a versão de Got my mind set on you. Seguiu explorando sonoridades exóticas com o instrumentista indiano Ravi Shankar, e ainda achou tempo para a superbanda The Travelling Wilburys, ao lado de nomes como Roy Orbison, Bob Dylan, Jeff Lynne e Tom Petty.
George Harrison faleceu em decorrência de um câncer, que se espalhou da garganta para o cérebro - condição, acreditam amigos do músico, piorada pelo ataque que sofreu em 1999, quando um homem invadiu sua casa e esfaqueou a ele e sua esposa, Olivia. Seja como for, estava em paz quando passou para o lado de lá, com sua fé e com seu próprio destino - um sentimento talvez melhor exemplificado pela citação incluída em seu álbum póstumo Brainwashed (2002), retirada do texto religioso Bhagavad Gita: "Nunca houve um tempo no qual eu ou você não existimos. E jamais haverá um futuro no qual deixaremos de ser."
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