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Artes Cênicas

- Publicada em 11/11/2021 às 20h05min.

Após censura, Grupo Cerco afirma que manterá linguagem neutra em espetáculo infantil

Peça Puli-Pulá tem quatro prêmios Tibicuera de Teatro Infantil, e desde sua estreia em 2015 já se apresentou para milhares de pessoas, inclusive em festivais e no exterior

Peça Puli-Pulá tem quatro prêmios Tibicuera de Teatro Infantil, e desde sua estreia em 2015 já se apresentou para milhares de pessoas, inclusive em festivais e no exterior


ADRIANA MARCHIORI/DIVULGAÇÃO/JC
Adriana Lampert
Ainda abalados pela situação enfrentada na última semana de outubro, integrantes do Grupo Cerco afirmam que "a brincadeira não vai parar". Os artistas, que sofreram censura por parte da direção do Colégio Farroupilha - que cancelou três apresentações do espetáculo infantil Puli-Pulá, após um grupo de pessoas reclamar da utilização da linguagem neutra na peça -, já se organizam para levar a montagem para a rua neste domingo (14). A apresentação ocorrerá no Recanto Africano do Parque da Redenção (próximo ao chafariz principal), às 16h. 
Ainda abalados pela situação enfrentada na última semana de outubro, integrantes do Grupo Cerco afirmam que "a brincadeira não vai parar". Os artistas, que sofreram censura por parte da direção do Colégio Farroupilha - que cancelou três apresentações do espetáculo infantil Puli-Pulá, após um grupo de pessoas reclamar da utilização da linguagem neutra na peça -, já se organizam para levar a montagem para a rua neste domingo (14). A apresentação ocorrerá no Recanto Africano do Parque da Redenção (próximo ao chafariz principal), às 16h. 
"Não vamos adaptar o texto", ressalta a atriz Elisa Heidrich, lembrando que o assunto da peça é justamente a inclusão e aceitação das diferenças, em meio à brincadeira de pular corda. A linguagem neutra é uma forma de comunicação que tem a intenção de ser inclusiva para pessoas que se consideram não-binárias, ou seja, que não se reconhecem nem homens nem mulheres, ou que transitam entre os dois gêneros. Para esse público, a linguagem neutra utiliza palavras como "amigues" e "todes" e os pronomes "elu/delu", em vez das flexões tradicionais das palavras para homens e mulheres usando as letras "a", "e" ou "o".
Elisa lembra que antes de serem informados de que não poderiam mais entrar em cena, os artistas foram "pressionados" para mudar a linguagem da peça, minutos antes de iniciarem o segundo espetáculo no ginásio esportivo do Farroupilha.
O fato ocorreu no dia de retorno das atividades do Grupo Cerco, após o início da pandemia. Durante a manhã, os artistas chegaram a realizar a primeira de quatro apresentações contratadas pela escola particular para serem executadas até o final deste ano. Além da encenação da tarde, que iria contemplar uma plateia de cerca de 400 pessoas, outras duas que estavam agendadas para o dia 3 de novembro foram canceladas, por decisão do colégio. Segundo a atriz, o grupo saiu para almoçar após a apresentação do primeiro turno e quando voltou ficou sabendo da "mudança de planos" da direção.
Procurada pelo Jornal do Comércio, a escola se manifestou em nota, alegando que a gestão identificou a "utilização de termos não reconhecidos pela norma-padrão da nossa língua", o que seria, então, considerado "inadequado observando-se, ainda mais, a faixa etária de crianças em fase de alfabetização ou ainda não alfabetizadas." 
Segundo Elisa, os integrantes do grupo ficaram surpresos com a decisão da direção do Farroupilha, uma vez que foi a própria escola quem entrou em contato com o Cerco para levar a peça para ser apresentada às turmas de anos iniciais. "Eles já conheciam o espetáculo, pois nos apresentamos no Palco Farroupilha com a mesma peça em outubro 2018, e havia tido uma excelente receptividade."
A atriz destaca que a peça estreou há seis anos, quando recebeu quatro prêmios Tibicuera de Teatro Infantil pela Secretaria de Cultura de Porto Alegre, incluindo o de Melhor Dramaturgia e Melhor Espetáculo pelo Júri Popular. "O espetáculo foi apresentado centenas de vezes em escolas, praças, parques e ginásios, para milhares de crianças, pais, mães, professores, professoras e todo tipo de público, tanto em Porto Alegre, quanto no interior do Estado", observa Elisa. A peça também circulou por festivais pelo Brasil e até no exterior. "Todo mundo sempre brincou, se divertiu e aplaudiu. Até quem não pula, brinca. A nossa mensagem é uma só: brincar é para todes."
"Sentimos muito pelas crianças que não puderam brincar por causa desta decisão. Para nós, enquanto artistas, cidadãos e cidadãs, é grave que uma obra artística sofra esse tipo de ataque", sublinham os atores em uma postagem no Instagram do Grupo Cerco. O episódio, tido como censura por artistas e políticos, entre outras personalidades, foi também comentado pela deputada federal Fernanda Melchionna (PSol) nas redes sociais: "A linguagem neutra é um importante avanço no respeito à diversidade de gênero. O preconceito e a intolerância não farão retroceder a luta da comunidade LGBTI+ e tampouco impedir a arte de circular! Todo o apoio ao Grupo Cerco!"
"A linguagem neutra, embora zere uma redação no vestibular, talvez não tenha vindo para ficar, pois tem suas implicações linguísticas, mas deve ser entendida como um movimento de reflexão da sociedade diante de estruturas de dominação que se perpetuam também com a colaboração da estrutura gramatical contida nos artigos e tratamentos de gênero", refletiu o diretor de teatro de bonecos, Mario de Ballenti, em publicação nas redes sociais. 
O assunto vem à tona em paralelo a uma portaria publicada pela Secretaria Especial da Cultura no Diário Oficial da União do último dia 28, que proíbe a linguagem neutra em projetos que sejam financiados através da Lei Rouanet. Segundo o documento assinado pelo secretário nacional de fomento e incentivo à Cultura, André Porciuncula, "fica vedado, nos projetos financiados pela Lei nº 8.313/91, o uso e/ou utilização, direta ou indiretamente, além da apologia, do que se convencionou chamar de linguagem neutra".
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