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Memória

- Publicada em 10/11/2021 às 19h16min.

Nascido há 200 anos, Fiódor Dostoiévski foi um observador pleno da alma humana

Mundo literário celebra bicentenário do escritor russo, autor de obras como 'Crime e castigo' e 'Os irmãos Karamázov'

Mundo literário celebra bicentenário do escritor russo, autor de obras como 'Crime e castigo' e 'Os irmãos Karamázov'


VASILY PEROV/GOOGLE ART PROJECT/REPRODUÇÃO/JC
Igor Natusch
Não faltou muito para que Fiódor Dostoiévski, hoje amplamente reconhecido como um dos escritores máximos da literatura universal, morresse crivado de balas muito antes de chegar ao auge de sua criatividade. Em 1849, quando ainda era pouco mais do que um aspirante ao sucesso na escrita, o autor russo – nascido há exatos 200 anos, em 11 de novembro de 1821 – foi detido pela polícia de Nicolau 1, como integrante de uma célula revolucionária. Seu crime: ter acesso, em clubes clandestinos de leitura, a obras literárias que traziam críticas ao tzarismo e, portanto, eram consideradas subversivas.
Não faltou muito para que Fiódor Dostoiévski, hoje amplamente reconhecido como um dos escritores máximos da literatura universal, morresse crivado de balas muito antes de chegar ao auge de sua criatividade. Em 1849, quando ainda era pouco mais do que um aspirante ao sucesso na escrita, o autor russo – nascido há exatos 200 anos, em 11 de novembro de 1821 – foi detido pela polícia de Nicolau 1, como integrante de uma célula revolucionária. Seu crime: ter acesso, em clubes clandestinos de leitura, a obras literárias que traziam críticas ao tzarismo e, portanto, eram consideradas subversivas.
Condenado à morte, o escritor esteve literalmente a minutos do fuzilamento: seu caminho para o pátio foi interrompido por uma carruagem, que trazia a carta do tzar cancelando a pena capital. Ainda assim, penou durante quatro anos no presídio de Omsk, na Sibéria, e outros seis servindo como soldado raso em exílio, de forma compulsória. A experiência na imunda e precária prisão de Omsk inspirou o livro Recordações da casa dos mortos (1862), considerado um poderoso libelo contra o encarceramento e uma obra que, de certa forma, deu início ao período mais prolífico e marcante da obra do escritor russo.
Na verdade, Fiódor Dostoiévski é um escritor de muitas obras-primas. Talvez esse seja, no fundo, um de seus diferenciais máximos: mais do que simplesmente lançar uma sequência de grandes livros, ele foi capaz de construir, a partir deles, uma observação plena da alma humana diante de uma sociedade, mesmo então, impraticável. Bons livros temos aos milhares por aí, no passado e no presente, mas poucos são os que se poderá, com segurança, apontar como eternos. E Dostoiévski escreveu vários deles – todos carregados por uma disposição reflexiva que, sem dúvida, tem muito a ver com o que passou pela mente do russo naqueles minutos em que a morte parecia uma trágica certeza.
Até certo ponto, talvez se possa dizer que a compreensão do jovem Fiódor sobre a tragicidade inerente ao existir foi forjada bem antes da idade adulta. Pouco antes de completar 16 anos, perdeu a mãe, Maria, vitimada por uma tuberculose. O fim do pai, Mikhail Andreyevich, foi ainda mais trágico: embora a causa oficial seja atribuída a um choque apoplético, muito se falou que o pai de Dostoiévski foi assassinado pelos próprios servos, indignados com o tratamento quase tirânico que recebiam do patrão. Ao saber da morte, Fiódor teve a primeira das muitas crises epiléticas que marcariam sua vida.
Foi em São Petersburgo, onde estudou Engenharia em uma escola militar, que Dostoiévski mergulhou na leitura e encontrou sua vocação. Após estrear na literatura com uma tradução para o russo de Eugénie Grandet, de Honoré de Balzac, ele publicou em 1846 seu primeiro livro, Pobre gente, obra bem recebida pela crítica. As obras posteriores (incluindo a novela Noites brancas, de 1848), porém, não tiveram êxito, e o autor vivenciou algumas dificuldades financeiras, na mesma medida em que se engajava nas leituras subversivas que quase foram sua ruína.
Fortemente influenciada por sua criação católica, a literatura de Dostoiévski propõe um permanente questionamento. Capaz de uma observação aguda a respeito das contradições da sociedade em que vivia, o autor inseria em cada uma de suas obras várias camadas de análise filosófica e psicológica. Livros como Notas do subsolo (1864), O idiota (1869) e O adolescente (1875) são, ao mesmo tempo exercícios de realismo e reflexões profundas sobre a vida, a moralidade e a transcendência. Falou também de si mesmo: em O jogador (1867), construiu uma história em torno do vício em jogo, que atormentou o próprio Dostoiévski durante muitos anos.
Para muitos, seu último livro, o monumental Os irmãos Karamázov (1879) é sua obra máxima – ideia defendida, por exemplo, pelo psiquiatra Sigmund Freud, que considerava a obra o ponto máximo da literatura mundial. Mas talvez seja em obras como Crime e castigo (1866) que o caráter profundo da criatividade de Dostoiévski surja com especial profundidade: o estudante Raskólnikov, que cria um sistema de pensamento capaz de justificar um assassinato, é o mesmo que sente a alma quase consumida pela culpa e que encontra na admissão da própria maldade anterior a trilha para salvar a si mesmo.
De saúde frágil, Dostoiévski atribuía a seus sofrimentos um sentido quase de expiação religiosa - suas constantes crises de epilepsia, por exemplo, eram descritas por ele quase como um contato direto com Deus. No leito de morte, onde agonizava após uma sequência de hemorragias pulmonares, pediu que fosse lida aos filhos a parábola bíblica do Filho Pródigo, quase como se encontrasse nela um significado profundo para sua própria trajetória.
Faleceu em 9 de fevereiro de 1881, mas já tinha plantado várias sementes de imortalidade pelos anos – obras que até hoje lemos com certo espanto, convidados a refletir sobre a existência em uma profundidade que, uma vez atingida, nunca mais se poderá esquecer.
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