A partir desta quinta-feira (19), e por quatro meses, uma nova intervenção ocupa o Ceia (Cultura, Empreendedorismo, Inovação e Arte), instalado no Farol Santander Porto Alegre (Sete de Setembro, 1.028). A exposição TransbordAR, da artista paraense Roberta Carvalho, fica no Átrio do edifício antigo até 19 de dezembro.
A entrada é franca, de segunda a sexta-feira, sempre das 9h às 18h. Também hoje, às 19h30min, será realizado um bate-papo entre a artista e a curadora Mel Ferrari sobre a construção da obra e a relação da arte com tecnologia e a inovação.
TransbordAR conta com a reprodução em grande escala de quatro obras da artista visual: Maré, Ilha, Submersos e Passa um rio por aqui. A exposição, que traz um mergulho na experimentação de realidades mistas, provoca interação do público através da realidade aumentada.
Os visitantes precisam instalar um aplicativo de celular chamado Amazônia aumentada para ter acesso ao conteúdo contido nas imagens fotográficas. Esse intercâmbio - instigado pela tecnologia - revela ao espectador a força das águas e dos rios enquanto potências de vida.
Sendo pioneira em intervenções com projeções na Amazônia, o trabalho de Roberta Carvalho expõe os limites entre realidades, com intuito de revelar a relação íntima do rio com as pessoas. "Uma das características do meu trabalho é a pesquisa e desenvolvimento da arte através da tecnologia, a investigação poética das mídias, desde a projeção à realidade virtual", afirma.
A artista foi vencedora de diversos prêmios como o Funarte Mulheres nas Artes Visuais (2014) e Funarte Microprojetos da Amazônia Legal (2010). Ela também foi bolsista de pesquisa e criação artística do Instituto de Artes do Pará (2006 e 2015). Roberta ainda tem participações em exposições, mostras e festivais no Brasil e em outros lugares como Paris, Barcelona, Martinica, Reino Unido.
Esta será a primeira mostra da paraense na Capital, e ela admite ter boas expectativas: "Vou expor em Porto Alegre, no Farol Santander, que é um espaço muito interessante da cidade, pelo qual as pessoas circulam, tem um fluxo de público, e levando um trabalho interativo, refletindo sobre a importância da água, a força dos rios, o rio como história, como fluxo, como afirmação da vida".
"Quem me apresentou o trabalho de Roberta Carvalho foi um colega de mestrado que também é de Belém do Pará. Na época, a Roberta havia divulgado a obra Não existe floresta em pé, se a gente ficar sentado, que se tratava de uma projeção mapeada que simulava fogo nas árvores do Ibirapuera. A intervenção artística era uma crítica às queimadas que ocorriam na Amazônia e trazer o 'incêndio' para o Centro de São Paulo seria uma forma das pessoas se conscientizarem do que ocorria. Essa obra me impactou muito, pois, para além da estética visual potente, ela conseguia unir a poética com crítica social e ambiental", detalha a historiadora de arte e curadora da mostra, Mel Ferrari.
A curadora explica que Roberta trabalha em suas obras o conceito de simbiose, um termo da ecologia que designa uma relação entre dois organismos vivos favorecendo ambos, e assim suas intervenções buscam evidenciar essa relação entre imagem e natureza: "As relações que se estabelecem entre territórios, narrativas e memórias constroem outros significados que instigam os espectadores".
Sobre TransbordAR, a artista diz que é "uma oportunidade de pensar e repensar a nossa relação com o meio ambiente, com essa casa comum, esse lugar que habitamos, enquanto seres da natureza que somos". "Foi isso que busquei quando chamei Roberta para expor no Ceia, queria trazer outros olhares para a nossa paisagem", conta Mel. Ela explora esse ponto no texto curatorial: "A exposição traz a relação entre indivíduo e natureza, com um olhar especial para os rios e a força das águas, evidenciando as narrativas da região Amazônica do Estado do Pará, local onde a artista nasceu. As obras são instalações fotográficas nas quais, através da realidade aumentada, Roberta Carvalho apresenta vivências que por muitas vezes nos escapam. Um misto de realidade e ficção pululam no imaginário como um convite à contemplação da nossa própria paisagem. Afinal, Porto Alegre possui uma rica história fluvial, assim como a capital paraense, Belém".
Mel Ferrari relembra que a Praça da Alfândega, onde se localiza o prédio do Farol Santander, até meados do século XIX, era a principal entrada da cidade. Nessa região de porto, havia grande circulação de pessoas e mercadorias, o que gradualmente foi substituído pelo transporte rodoviário: "Nas últimas décadas, com a construção do muro da Mauá e da constante verticalização da cidade, acabamos dando as costas a uma parte importante da nossa história: o Rio Guaíba".
Sobre este ponto, Roberta também opina: "Acho que esse projeto ganha uma relevância ainda maior, outros contornos, quando ele se relaciona com o espaço, com a história da cidade, apesar de eu trazer um recorte amazônico. A Mel me trouxe essas informações, e fomos entendendo ainda mais as conexões".