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Memória

- Publicada em 20h17min, 10/03/2021.

Piazzolla chega ao centenário com um legado mais vivo do que nunca

Figura revolucionária do tango, bandoneonista nasceu em 11 de março de 1921, em Mar del Plata (ARG)

Figura revolucionária do tango, bandoneonista nasceu em 11 de março de 1921, em Mar del Plata (ARG)


PUPETO MASTROPASQUA/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
Quando Astor Pantaleón Piazzolla embarcou para Paris, nos começo de 1954, estava decidido a virar um compositor de música erudita. Após desempenho destacado em um festival em Buenos Aires, o músico tinha sido agraciado com uma bolsa no conservatório de Fontainebleau, onde estudaria com a lendária compositora Nadia Boulanger. A proposta era irrecusável: deixou os dois filhos (11 e 10 anos) aos cuidados de parentes e, com a esposa Dedé Wolff, mandou-se para a França.
Quando Astor Pantaleón Piazzolla embarcou para Paris, nos começo de 1954, estava decidido a virar um compositor de música erudita. Após desempenho destacado em um festival em Buenos Aires, o músico tinha sido agraciado com uma bolsa no conservatório de Fontainebleau, onde estudaria com a lendária compositora Nadia Boulanger. A proposta era irrecusável: deixou os dois filhos (11 e 10 anos) aos cuidados de parentes e, com a esposa Dedé Wolff, mandou-se para a França.
O encontro entre Nadia e Piazzolla tornou-se folclórico e fundamental para a música latino-americana. Tentando esconder seu passado de tango nos inferninhos da capital argentina, o aluno mostrava nas aulas apenas músicas de inspiração clássica; a professora elogiava o rigor formal das peças, mas dizia que elas soavam demasiado impessoais, como se escritas por outra pessoa que não Piazzolla. Um dia, depois de vários pequenos fracassos, o músico encheu-se de coragem, tomou o bandoneon e tocou Triunfal, um de seus primeiros tangos, que considerava um pouco melhor do que os demais. Foi quando tudo mudou. A até então sisuda instrutora mostrou-se surpresa e emocionada, tomou as mãos do aluno e disse: "Astor, suas peças clássicas são bem escritas, mas aqui está o verdadeiro Piazzolla. Não o abandone nunca."
Para a alegria de todos que amam a música, Astor Piazzolla seguiu à risca a sugestão. Hoje, no dia em que se completa o centenário de seu nascimento, não haverá quem não o considere um dos compositores máximos da música argentina e sul-americana. Se Carlos Gardel foi o grande disseminador do tango, Piazzolla foi a pessoa que o revolucionou: no toque de seu bandoneon, o estilo deixou de ser pouco mais que uma desculpa para a dança nos bailes e se transformou em música de alta estirpe, capaz de impressionar o mundo - e isso com o pé fincado no popular, sem virar as costas para as ruas boêmias onde nasceu.
Vindo ao mundo em 11 de março de 1921, em Mar del Plata, o jovem Astor morava em Nova York quando recebeu a primeira grande bênção de sua carreira. O grande Carlos Gardel estava na cidade, e o garoto de 13 anos foi convidado em cima da hora para participar do filme El día que me quieras, fazendo uma ponta como entregador de jornais. Foi o único encontro entre o Rei do Tango e o novato que tomaria o cetro para si, mas nenhum deles sabia disso então: Gardel morreria no ano seguinte, em um acidente de avião. Conta-se que o astro chegou a convidar o garoto para juntar-se a essa turnê, e Piazzolla só não embarcou porque o pai não autorizou a viagem - uma ironia do destino que vive até hoje no imaginário do tango argentino.
Embora já tivesse uma trajetória respeitável desde sua volta à Argentina, o bandoneonista chegou a desistir do tango: suas primeiras ideias fora da caixa não foram bem aceitas pelos músicos com os quais tocava, e os estudos clássicos trouxeram a ele uma nova ambição. O retorno, marcado pela formação do Octeto Buenos Aires, disparou o que é visto, por todos os lados, como uma revolução para o estilo. Em peças mais próximas da música de câmara, com improvisações puramente jazzísticas e sem a presença de um vocalista, Piazzolla trouxe uma ruptura que encantou os vanguardistas, mas gerou também uma longa rixa com a ala mais ortodoxa do tango. A verdade é que os puristas, que baniram o músico de rádios e gravadoras durante anos, acabaram ficando meio mal na foto com o passar do tempo. Alvo de crescente reconhecimento internacional, Piazzolla alcançou também o coração dos argentinos com canções como Balada para un loco, Adiós Nonino e Verano porteño.
Já consagrado, passou um período na Itália nos anos 1970, gravando especiais hoje lendários para a emissora RAI, e realizou um sonho pessoal: tocar ao lado de Gerry Mulligan, jazzista que começou a ouvir nos tempos de Paris e que se tornou uma de suas principais inspirações. Gravados mais ou menos nesse período, discos como Libertango (1974), Oblivion (1982) e Tango: Zero Hour (1986) são considerados clássicos não só do tango, mas do jazz e da música internacional como um todo.
Em meio a um momento de amplo reconhecimento, foi vitimado por uma hemorragia cerebral em 1990 - ocasião em que, por outra curiosa ironia, estava na mesma Paris onde sua carreira ganhou o empurrão definitivo. Ficou cerca de dois anos em coma antes de falecer, em 4 de julho de 1992. Felizmente, o legado desse vanguardista segue vivíssimo, em um amplo catálogo musical - que vai, é claro, muito além das gravações do próprio bandeonista. De certo modo, se ouve Piazzolla em cada esquina de Buenos Aires, em qualquer músico que se aventure pelas avenidas tanguísticas abertas pelo revolucionário argentino.
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