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memória

- Publicada em 18h57min, 28/02/2021.

Negritude de Chiquinha Gonzaga ganha acento em mostra do Itaú Cultural

Exposição apresenta documentos da compositora e maestrina imortalizada por marchinhas como 'Ó Abre-Alas'

Exposição apresenta documentos da compositora e maestrina imortalizada por marchinhas como 'Ó Abre-Alas'


/ITAÚ CULTURAL/DIVULGAÇÃO/JC
Sob a luz do amanhecer, sons de vendedores, dos cascos de cavalos pelas ruas de pedra, e, ao escurecer do cair da noite, de músicos de calçadas, do falatório da saída do trabalho e dos copos que tilintam nos bares. É o ciclo de um dia no Centro do Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX que guia o visitante na Ocupação Chiquinha Gonzaga. A mostra dedicada à compositora, pianista e regente inaugurada na semana passada pelo Itaú Cultural, em São Paulo, segue até 23 de maio, também com visitação virtual.
Sob a luz do amanhecer, sons de vendedores, dos cascos de cavalos pelas ruas de pedra, e, ao escurecer do cair da noite, de músicos de calçadas, do falatório da saída do trabalho e dos copos que tilintam nos bares. É o ciclo de um dia no Centro do Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX que guia o visitante na Ocupação Chiquinha Gonzaga. A mostra dedicada à compositora, pianista e regente inaugurada na semana passada pelo Itaú Cultural, em São Paulo, segue até 23 de maio, também com visitação virtual.
Para o acesso online na plataforma Experiências Virtuais do Itaú Cultural, é necessário fazer agendamento prévio. Por enquanto, as datas disponíveis são para os dias 5, 7, 13, 14, 20, 26 e 28 de março. Horários em abril e maio ainda não estão abertos. A exposição virtual conta com 40 vagas por dia, para 60 minutos de duração, e é mediada pela equipe de educadores do Itaú Cultural.
A presença da rua na vida de uma mulher daquela época não é algo trivial. Mas Chiquinha Gonzaga (1847-1935) não alcançou o sucesso sendo trivial e a exposição evidencia as lutas que ela encampou contra a mentalidade do período - pela abolição da escravidão, pela liberdade das mulheres e pelos direitos autorais. Segundo sua biógrafa, Edinha Diniz, que concedeu entrevista à Folhapress, Chiquinha era "uma mulher no Segundo Reinado que lutava contra o atraso social". 
Aqueles que conhecem Chiquinha da minissérie da TV Globo que foi ao ar em 1999 ou das peças de teatro também dos anos 1990 escritas por Maria Adelaide Amaral vão descobrir ali que a compositora era negra. Logo na entrada, uma voz diz "fui educada para ser dama de salão, uma sinhazinha, mas fugia para ver os escravizados da fazenda dançando lundu e os sambas de umbigada, eu era uma menina negra e sabia disso". É a voz de Dona Jacira, multiartista e mãe de Emicida, uma das cinco mulheres negras que emprestam sua vozes para narrar a vida de Chiquinha.
Antes vivida por atrizes brancas, Chiquinha hoje é negra. Edinha, autora de Chiquinha Gonzaga: Uma história de vida (1984), conta que quando começou a pesquisar sobre a musicista, ainda nos anos 1970, suas duas biografias existentes mencionavam que ela era morena, mas não se referiam às suas origens. Chiquinha casou jovem, aos 16 anos, teve três filhos e, aos 25, abandonou o marido. Não existia, então, o divórcio, e uma mulher que sai de um casamento não era bem-vista.
Ela começou a viver com outro homem, com quem teve outra filha. Anos depois, teve um outro companheiro, décadas mais jovem, que ela apresentava como filho. Amante do escândalo, Chiquinha foi rejeitada pela família e sofreu, depois de sua morte, segundo Diniz, um processo de apagamento pelos herdeiros. Há, diz ela, uma tentativa da família de esconder Chiquinha, suas conquistas, sua personalidade, suas relações amorosas e sua origem.
Nos anos 1980, suas netas ainda eram vivas, e seguiam o ritual do embaçamento. "Ela era transgressora e a forma de punir o transgressor é o silêncio", diz Edinha. Por isso, foi só em 2009, numa reedição ampliada da biografia, que fica clara a origem negra de Chiquinha. A autora descobriu documentos que mostram que a mãe de Chiquinha era filha nascida alforriada de uma mãe escravizada.
Chiquinha participava na luta pela abolição, colando cartazes e arrecadando fundos para a causa. Seu nome e o de seu pai constam na lista de doadores da caneta com a qual foi assinada a Lei Áurea. No começo do século XX, numa viagem a Berlim, ela descobriu partituras de suas músicas sendo vendidas sem autorização. A partir daí, liderou uma campanha pelo direito autoral de compositores e autores do teatro e foi uma das fundadoras, em 1917, da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, primeira recolhedora de direitos no País.
A pianista Maria Teresa Madeira frisa a importância de Chiquinha para a formação de uma identidade dos ritmos brasileiros. No século 19, eram os ritmos europeus dos salões, como a valsa e a polca, que grassavam e foi a partir deles que Chiquinha construiu uma brasilidade.
"Ela ouvia a linguagem dos chorões, desses grupos com violão, cavaquinho e um sopro. Eles pegavam essas polcas dos salões e adaptavam, com suingue, transformando em choro ou maxixe", diz Maria Teresa, que gravou dois álbuns com a obra da compositora e adaptou suas partituras num projeto pedagógico, Chiquinha Gonzaga para todos, com o também pianista Wandrei Braga. Embora tenha estudado, como muitas mulheres da época, o repertório tradicional do piano, voltado ao lazer caseiro, foi a música popular feita na rua, diz a pianista, que inspirou a criatividade compositora de Chiquinha.
"As mulheres, nessa época, não pulavam a janela da sala de visitas", relata Edinha. Não à toa, as paredes que separam as etapas da exposição são uma referência às gelosias, espécies de cortinas de madeira vazada que se instalava nas janelas das casas que davam para a rua para impedir que as mulheres vissem o "lá fora" e que por ele fossem vistas.
Chiquinha não só pulou a janela e foi para a rua, como também por lá dançou e pulou o Carnaval. É dela a primeira música escrita para a festa, Ó Abre Alas, que, sem ter sido publicada em vida por Chiquinha como marchinha carnavalesca, triunfou na tradição oral até ganhar as primeiras gravações. "Ela era destemida, ousada, curiosa", afirma Maria Teresa. "Sua grande antagonista foi a mentalidade da época", acrescenta Edinha.
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