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Literatura

- Publicada em 19h00min, 10/02/2021.

Sem a redoma de vidro da autora norte-americana Sylvia Plath há 58 anos

Autora ficou marcada no cânone da literatura feminista ao falar sobre depressão e questionamentos acerca da posição da mulher na sociedade

Autora ficou marcada no cânone da literatura feminista ao falar sobre depressão e questionamentos acerca da posição da mulher na sociedade


Warren Kay Vantine/Smith College Archives/JC
Roberta Requia
Poucas escritoras do século XX retrataram tanto a depressão na vida de uma jovem mulher quanto Sylvia Plath (1932-1963). Poeta e romancista, cuja morte trágica completa 58 anos nesta quinta-feira (11), publicou apenas dois livros em vida: The Colossos, seu primeiro título de poesia, e o romance A redoma de vidro, considerado um clássico da literatura feminista. Sua obra-prima poética, Ariel, foi deixada em cima da mesa da cozinha em que Sylvia cometeu suicídio.
Poucas escritoras do século XX retrataram tanto a depressão na vida de uma jovem mulher quanto Sylvia Plath (1932-1963). Poeta e romancista, cuja morte trágica completa 58 anos nesta quinta-feira (11), publicou apenas dois livros em vida: The Colossos, seu primeiro título de poesia, e o romance A redoma de vidro, considerado um clássico da literatura feminista. Sua obra-prima poética, Ariel, foi deixada em cima da mesa da cozinha em que Sylvia cometeu suicídio.
A cada lançamento póstumo (como o inédito Mary Ventura e o nono reino, conto escrito por Sylvia aos 20 anos de idade e lançado pela editora Biblioteca Azul em 2019), fãs do mundo inteiro se debruçam sobre novas páginas tentando entender mais sobre a mulher que, aos 30 anos de idade e com uma promissora carreira como escritora, suicidou-se em uma madrugada enquanto os dois filhos dormiam no quarto ao lado. Seus trabalhos apresentam as marcas da depressão, ao mesmo tempo que delineiam a delicadeza com a qual escrevia.
Sylvia sempre escreveu sobre seu universo íntimo, sem esforços para disfarçá-lo. Sua principal obra e único romance, lançado semanas antes de sua morte, retrata períodos pessoais de sua conturbada vida. Em A redoma de vidro, conhecemos Esther Greenwood, uma jovem estudante de jornalismo que aos 19 anos que vive um delicioso sonho americano: foi selecionada para um estágio de verão em uma glamurosa revista de moda em Nova Iorque. Enquanto começa a encarar novas responsabilidades e frustrações, aos poucos os sinais da depressão começam a contornar Esther, que passa a se enxergar sufocada, dentro de uma redoma de vidro. "Para a pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim", reflete a personagem enquanto está internada em uma clínica psiquiátrica.
Vários acontecimentos na vida da personagem refletem passagens da vida da própria autora: a tentativa de suicídio com remédios durante a faculdade, a passagem por uma clínica psiquiátrica e até mesmo os tratamentos com eletrochoque. A redoma de vidro mostra o declínio progressivo na vida de alguém que sofre de uma doença mental.
Os primeiros relacionamentos amorosos, a transformação da juventude para a vida adulta e o próprio papel da mulher na sociedade também viram questionamentos para a autora. O tabu sobre os métodos anticoncepcionais e os planos para um casamento estável e seguro são elementos que circundam a vida de Esther, assim como a vida da própria Sylvia. Em um dos trechos mais famosos do livro, ela compara sua vida a uma figueira, de onde cada galho pendem enormes figos. Um deles era um lar feliz com marido e filhos, outro era uma poeta famosa; uma professora brilhante; uma fantástica editora: "Me vi sentada embaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir com qual figo eu ficaria. Eu queria todos eles, mas escolher um significava perder todo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés". Em 1955, formada pela Smith College, Sylvia conheceu o poeta Ted Hughes, seu único marido e figura controversa em sua vida: traições e um relacionamento tóxico que até hoje sugere ter tido uma influência no suicídio da escritora.
Sylvia mantinha o hábito de escrever diários, desde a infância até seu suicídio. Os escritos foram publicados, primeiro em 1980, em uma versão duvidosa que passou por muitos anos pelas mãos do ex-marido que os guardava. Em 1998, pouco antes de sua morte, Ted Hugues entregou o restante dos diários a seus filhos, que o publicaram em Diários de Sylvia Plath. Em 2017, os escritos ganharam uma nova edição publicados pela editora Biblioteca Azul, assim como o livro de contos Johnny Panic e a bíblia dos sonhos.
Aclamada por gerações por conta de sua obra confessional, construída sobre um fundo sombrio e melancólico, Sylvia transita das sutis variações da melancolia à falta de chão de quem sonha em fugir da realidade. Na prosa, ela demonstra a qualidade que a mantém em alta até os dias de hoje: um olhar aguçado sobre dilemas profundos da alma. Assim como o Lázaro bíblico inspirou Lady Lazarus, seu poema célebre publicado em Ariel, Sylvia atesta a previsão de seus versos finais: "Sou uma mulher que sorri/ Não passei dos trinta/ E como um gato tenho nove vidas/ Esta é a terceira/ Que besteira/ Se aniquilar a cada década". A seu modo, ela renasceu para a eternidade.
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