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Artes Visuais

- Publicada em 19h15min, 09/02/2021.

O universo imaginário do veterano artista gaúcho Fernando Duval

Pintor de 83 anos inaugurou o Wasthavastahunn há quase 60 anos

Pintor de 83 anos inaugurou o Wasthavastahunn há quase 60 anos


ANTONIO TORRES XAVIER/DIVULGAÇÃO/JC
Roberta Requia
Muito além da Via Láctea, na terceira dobra sideral, na Galáxia de Washemin, gira o Planeta Fahadoika. Em seu redor orbitam duas estrelas, quatro luas e dois sóis, o que leva a extremos de calor e frio, invernos e verões com o estranho fenômeno da bissolaridade, ocasião em que mal um dos sóis desaparece no lado Oeste, outro surge do lado Leste. É nesse local que os seres peculiares e bem-humorados da cultura wasthiana vivem.
Muito além da Via Láctea, na terceira dobra sideral, na Galáxia de Washemin, gira o Planeta Fahadoika. Em seu redor orbitam duas estrelas, quatro luas e dois sóis, o que leva a extremos de calor e frio, invernos e verões com o estranho fenômeno da bissolaridade, ocasião em que mal um dos sóis desaparece no lado Oeste, outro surge do lado Leste. É nesse local que os seres peculiares e bem-humorados da cultura wasthiana vivem.
O mundo imaginário criado por Fernando Duval há cerca de 57 anos não para de crescer. O artista plástico de 83 anos continua pintando quase que diariamente novos elementos para sua criação: "Acordo cedo, começo a trabalhar com a luz do dia, até 15h30min, 16h", comenta o pintor em entrevista ao Jornal do Comércio. Nascido no Rio Grande do Sul, mas radicado no Rio de Janeiro, o artista retornou ao Estado no início deste ano para expor algumas obras para amigos e conhecidos em Cassino e Rio Grande.
No momento, são mamíferos e insetos que nascem sob os pincéis de Duval e tomam forma em pinturas em acrílico e nanquim sobre o papel crepom. O artista transformou seu trabalho em uma série de revelações sobre a composição de seu mundo. Ao longo de mais de cinco décadas, seus trabalhos revelam elementos sobre a cultura wasthiana: a fauna e a flora, as vestimentas, a arquitetura, os costumes e tradições. "Quando comecei a criar, foi pouco a pouco. Dei uma nova versão nos pássaros; os insetos, eu nunca tinha feito, achei que chegaria o momento de fazer isso. Os mamíferos também já foram criados", comenta.
Em dezembro de 2019, Fernando Duval lançou, em um evento na Casa De Cultura Mario Quintana, o Dicionário Wasthavastahunn - Universo imaginário. A obra reunia um copilado de histórias e pinturas realizadas pelo artista. O livro também seria lançado em São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba em 2020, porém, a pandemia desmarcou os planos de divulgação da obra.
Duval conta que se sente livre para criar os elementos da cultura wasthiana sem pretensão de qualquer prendimento com a realidade humana na Terra. "Me inspiro um pouco no que vejo. Eu vivo, então tenho que estar atento às coisas. Muitas vezes, vejo na rua pessoas que poderiam estar no meu mundo, registro na memória. Os insetos e os pássaros, crio aleatoriamente, mas tudo imaginário".
Esse universo paralelo já registra quase 60 anos de existência. Tudo começou na década de 1950, quando Duval chegou pela primeira vez ao Rio de Janeiro: "Quando cheguei no Rio, vi uma coisa com a qual não estava acostumado. Aqui em Porto Alegre, a gente via os cachorros em casa. Quando cheguei lá, via muito as pessoas passeando com os cachorros e não recolhiam nada, os cachorros faziam suas necessidades e ficavam ali". Foi assim que nasceram os primeiros personagens da cultura wasthiana: os cachorretes. Cachorros sintéticos que foram criados para evitar a poluição nas ruas. A partir daí, nasceram personagens, cidades, países, planetas e uma galáxia completa. "Foi uma coisa que saiu de dentro pra fora. E de uma inspiração surge outra. Depois dos cachorretes saiu bastante coisa", relata o artista.
As peculiaridades estão por toda a parte e rendem novas exposições a cada ano. A exemplo, a incessante busca pelo bivar, animal que nunca existiu e que jamais fora visto, e que mesmo assim continua sendo procurado para registros acadêmicos. O animal ganhou inclusive um livro para si, Bivar - Em busca de um animal que nunca existiu. A história foi editada quando Duval participou da Bienal do Mercosul em 2013 e os quadros que compunham o livro foram exibidos no antigo Santander Cultural (atual Farol Santander Porto Alegre).
Daí também partem ciências obscuras, como a capologia, uma instituição que prega a dúvida na certeza, assim ninguém acredita em nada. A vidente que prevê apenas acontecimentos do passado, pois assim, não há chances de cometer erros em seus palpites. Com bom humor e sempre acrescentando novos elementos a essa realidade alternativa, ele afirma que os seres humanos têm muito a aprender com os wasthianos. "Eles não fazem guerras, pois não possuem exércitos e a arma mais potente de sua cultura é uma pistola que dispara veneno contra mosquitos. Sobrevivem majoritariamente de legumes e peixes e tratam muito bem os animais. Os seres humanos teriam muito a aprender com eles. Por isso acabo não me inspirando no que é comum. Eu procuro ser o mais independente possível. O que me vem na cabeça, vou anotando", finaliza o pintor.
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