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Memória

- Publicada em 18h57min, 17/02/2021.

Os 90 anos da primeira mulher negra a receber o Prêmio Nobel de Literatura

Toni Morrison nasceu em 1931 em Ohio (EUA) e completaria nove décadas nesta quinta-feira (18)

Toni Morrison nasceu em 1931 em Ohio (EUA) e completaria nove décadas nesta quinta-feira (18)


ANGELA RADULESCU/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
Em suas manifestações públicas, Toni Morrison falava com frequência sobre como aprendeu o poder do riso. Nascida há exatos 90 anos, em 18 de fevereiro de 1931, a primeira mulher negra a receber o Nobel de Literatura nasceu em Lorain, no estado norte-americano de Ohio - um lugar mais tolerante do que muitos outros nos EUA, mas ainda assim longe de ser um paraíso na terra se você fazia parte de uma família negra. Podia acontecer muita coisa com você por lá - como, por exemplo, incendiarem a sua casa, com você lá dentro.
Em suas manifestações públicas, Toni Morrison falava com frequência sobre como aprendeu o poder do riso. Nascida há exatos 90 anos, em 18 de fevereiro de 1931, a primeira mulher negra a receber o Nobel de Literatura nasceu em Lorain, no estado norte-americano de Ohio - um lugar mais tolerante do que muitos outros nos EUA, mas ainda assim longe de ser um paraíso na terra se você fazia parte de uma família negra. Podia acontecer muita coisa com você por lá - como, por exemplo, incendiarem a sua casa, com você lá dentro.
Na época, Chloe Anthony Wofford Morrison tinha apenas dois anos. Seu pai estava tendo dificuldades em conseguir um emprego na indústria local, o que levou a família a atrasar o aluguel da casa onde viviam. Diante da dívida, o senhorio tomou uma medida tão violenta quanto despropositada: ateou fogo à casa, assim mesmo, como se a casa fosse só madeira, como se a família que lá morava nem gente fosse.
O que fazer, diante do que a própria Toni descreveria, anos depois, como um "ato bizarro e histérico de maldade"? De que forma reagir a um gesto tão hostil e, ao mesmo tempo, descontrolado à beira do ridículo?
A família de Toni Morrison caiu na risada. Riram longamente do dono do imóvel, que agora não teria nem o valor do aluguel, nem a casa para alugar. Deram ruidosas gargalhadas de toda a situação e foram embora, seguir a vida em outra propriedade.
A própria Toni admitia não ter nenhuma lembrança do incêndio. Mas o incidente, que logo se tornaria lendário dentro da família, trouxe uma lição. "Se você internaliza algo assim, vai ficar imensamente deprimido, porque é um jeito de dizer que sua vida vale tão pouco", comentou a escritora, em uma entrevista concedida em 1993 ao Washington Post. "(A risada) devolve você a si mesmo. Você toma a sua vida e a sua integridade de volta."
Embora a literatura de Toni Morrison não seja exatamente engraçada, suas obras trazem um sentido de sabedoria e redenção em meio às brutalidades da vida, que em tudo dialoga com o incidente que marcou sua família. A própria existência de O olho mais azul (1970) é um testemunho dessa capacidade de perseverar e estar no comando do próprio existir.
À época, Toni Morrison era mãe divorciada de dois filhos pequenos, trabalhando como editora na Random House e publicando escritoras negras como Angela Davis e Gayl Jones. Segundo seu próprio relato, ela acordava todos os dias às 4h da manhã, e escrevia por algumas horas antes que seus filhos acordassem. Não contou a ninguém o que estava fazendo; segundo ela, decidiu escrever seu primeiro livro simplesmente porque era o tipo de narrativa que gostaria de ler.
A história, sobre uma mulher negra que sonhava em ter olhos azuis como o da atriz Shirley Temple, transformou sua carreira. Já reconhecida como professora universitária e empregada em uma das maiores editoras de língua inglesa do mundo, ela passou a ser reconhecida também como autora. Livros como Amada (1987, premiado com o Pulitzer), Jazz (1992) e Paraíso (1997) consolidaram Toni Morrison como uma escritora de prosa sonora e cheia de fluidez, capaz de evocar a melodia da tradição oral afro-americana. Em suas histórias, a comunidade é quase tão importante quanto as personagens, e os muitos horrores da escravidão e do racismo nos EUA surgem como feridas abertas, mas sempre passíveis de cura individual e coletiva.
Celebrada por Oprah Winfrey (que produziu e atuou no filme Bem-amada, de 1998, baseado na obra da escritora) e Barack Obama (que a homenageou em 2012 com a Medalha da Liberdade), Toni Morrison não gostava de falar sobre si mesma, concedendo poucas entrevistas e evitando comentários sobre sua vida pessoal. As turnês de divulgação de seus livros eram curtas, tanto pelo pouco apreço da autora pelas badalações, quanto pela intensa atividade acadêmica que manteve até o fim da vida. Ainda assim, suas posições políticas eram claras: chegou a chamar Bill Clinton de "o primeiro presidente negro dos EUA", em um elogio à disposição inclusiva de seu governo, e escreveu duros artigos contra Donald Trump, interpretando sua eleição como um esforço de sobrevivência por parte dos supremacistas brancos norte-americanos.
Toni Morrison faleceu em 5 de agosto de 2019, aos 88 anos, em decorrência de complicações de uma pneumonia. Boa parte de sua obra foi publicada no Brasil, estando disponível para quem busca literatura que fale de dores e chagas coletivas, mas que também seja um elogio à força de espírito e à vida. Como disse a própria, durante seu discurso de aceitação ao Nobel recebido em 1993: "Nós morremos. Essa talvez seja a medida da vida. Mas nós fazemos linguagem. E essa pode ser a medida de nossas vidas".
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