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MEMÓRIA

- Publicada em 21h12min, 02/02/2021. Atualizada em 22h01min, 03/02/2021.

Buddy Holly e 'o dia em que a música morreu'

Pioneiro do rock foi uma das vítimas de acidente aéreo que marcou época e inspirou canção icônica de Don McLean

Pioneiro do rock foi uma das vítimas de acidente aéreo que marcou época e inspirou canção icônica de Don McLean


BRUNSWICK RECORDS/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
Essa é uma história sobre Buddy Holly, Ritchie Valens e J.P. "The Big Bopper" Richardson. Mas nenhum deles se importará se começarmos a contá-la por Don McLean. Há 62 anos, em 3 de fevereiro de 1959, McLean era um norte-americano de 13 anos, que ganhava trocados como entregador de jornais.
Essa é uma história sobre Buddy Holly, Ritchie Valens e J.P. "The Big Bopper" Richardson. Mas nenhum deles se importará se começarmos a contá-la por Don McLean. Há 62 anos, em 3 de fevereiro de 1959, McLean era um norte-americano de 13 anos, que ganhava trocados como entregador de jornais.
A música, para o garoto, era uma fonte quase inesgotável de alegria; embora fascinado pelo folk, tinha como maior ídolo o vocalista e guitarrista Buddy Holly, jovem estrela do então nascente rock and roll. Foi dobrando exemplares para entrega, logo cedo na manhã seguinte, que ele descobriu a morte de seu herói.
A notícia era desoladora: Holly, junto com outros dois artistas de destaque na cena rock dos EUA, estava em um pequeno avião que caiu em uma cidadezinha do estado de Iowa, durante uma apertada turnê de inverno. Não havia sobreviventes.
Durante toda aquela manhã, Don McLean deixou as más notícias de porta em porta, sentindo um arrepio de tristeza a cada entrega. Buddy Holly estava morto, e levou bastante tempo para McLean superar o luto juvenil - 12 anos, para ser mais preciso. Lançada no segundo álbum de Don Mclean, em 1971, a música American Pie tornou-se uma das músicas definidoras de uma geração, cantando com emoção e lirismo a perda da inocência que, a partir da trágica morte dos três pioneiros, foi aos poucos consumindo o rock and roll e a juventude norte-americana como um todo.
Nas palavras do cantor e compositor folk, tinha sido "the day the music died", o dia em que a música morreu - e a poesia melancólica do verso acabou virando definição para o próprio evento no qual se baseava. McLean dedicou o álbum a Buddy Holly, e disse mais tarde que só depois de escrever a letra conseguiu sentir-se em paz com a tristeza daquela perda. Se a descrição de McLean pegou, é porque explica em poucas e poderosas palavras a dimensão do que se sucedeu. Aquela turnê reunia promessas do rock, em um tempo em que o estilo ainda estava encontrando a si mesmo.
De ascendência mexicana, Ritchie Valens havia estourado há poucos meses com La Bamba, adaptação de uma canção folclórica que tomou as paradas no final de 1958. O cantor tinha 17 anos. Um pouco mais experiente, The Big Bopper não deixava de ser também um novato: depois de anos de sucesso como DJ no rádio, o artista começava a curtir a repercussão de suas próprias músicas, que tocavam sem parar. A turnê contava ainda com o grupo vocal Dion and the Belmonts, que não se envolveu no acidente.
O grande destaque da turnê era Buddy Holly. Mesmo com os óculos fundo de garrafa e a postura de bom moço, o jovem de 22 anos era uma figura revolucionária. Seu grupo anterior, The Crickets, foi fundamental na consolidação do modelo guitarra, baixo e bateria que se tornaria, em anos posteriores, a base instrumental do rock. Embora não fosse um guitarrista extravagante como Chuck Berry, seu jeito de tocar também marcou época, com solos simples e palhetadas que se tornariam padrão logo adiante. Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, Eric Clapton, Elton John - todos falaram sem reservas sobre a idolatria que sentiam por Holly e sua música simples, divertida e inovadora. Para Holly, a turnê era uma necessidade financeira: recém-casado, precisava do dinheiro para montar a nova casa e equilibrar as contas depois de um contrato desfavorável com o antigo empresário. Arranjada às pressas, a excursão era uma tragédia em termos de logística: cidades agendadas ao acaso, forçando os músicos a um vai e vem incessante, com longas viagens em um frio de rachar.
Foi Holly, gripado e cansado de tanto desgaste, quem teve a ideia de alugar um avião para levá-lo ao próximo show, em Minnesota. Em princípio, seus colegas de banda o acompanhariam no voo: The Big Bopper, porém, estava com febre e pediu para que Waylor Jennings, um dos músicos de apoio de Holly, cedesse seu lugar. Ritchie Valens, por sua vez, ganhou o assento no cara ou coroa, em uma aposta com outro músico da banda do astro principal. A viagem aconteceu tarde da noite, com neve fraca e baixa visibilidade. O piloto não recebeu informações adequadas sobre as condições do tempo. Pouco depois de decolar, o avião foi ao solo. E a música, como disse Don McLean, morreu.
Como costuma acontecer depois das grandes tragédias, o mundo seguiu. A própria turnê continuou, com artistas substituindo de última hora as atrações falecidas. Mas foi um seguir em frente diferente: aos poucos, o rock foi deixando de ser criança, ficando mais adulto a cada sonho de mudança que esbarrava na guerra, na corrupção e em compromissos contratuais. Talvez aquele 3 de fevereiro de 1959 tenha sido apenas uma coincidência terrível e infeliz. Mas é possível também dizer que o rock ainda vive, na lembrança de sua própria infância ingênua - uma memória que, mesmo triste, nos faz sorrir.
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