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Memória

- Publicada em 17h17min, 11/01/2021.

Jack London e a aventura da escrita

Nascido há 145 anos, autor norte-americano teve vida tão movimentada quanto enredos de suas obras

Nascido há 145 anos, autor norte-americano teve vida tão movimentada quanto enredos de suas obras


CHARMIAN LONDON/REPRODUÇÃO/JC
Igor Natusch
Houve um tempo em que ser escritor era, por si só, uma aventura. E poucas figuras terão representado esse conceito com tanta propriedade quanto Jack London - um trabalhador que assumiu a escrita como uma forma de escapar da pobreza e acabou se tornando uma das principais celebridades da literatura norte-americana. Nascido há exatos 145 anos, em 12 de janeiro de 1876, deixou atrás de si uma trajetória marcada pela inquietude e pelas bruscas viradas de narrativa - tanto nos muitos livros que escreveu quanto na própria vida.
Houve um tempo em que ser escritor era, por si só, uma aventura. E poucas figuras terão representado esse conceito com tanta propriedade quanto Jack London - um trabalhador que assumiu a escrita como uma forma de escapar da pobreza e acabou se tornando uma das principais celebridades da literatura norte-americana. Nascido há exatos 145 anos, em 12 de janeiro de 1876, deixou atrás de si uma trajetória marcada pela inquietude e pelas bruscas viradas de narrativa - tanto nos muitos livros que escreveu quanto na própria vida.
A história de vida de John Griffith London é tão cheia de acontecimentos que contá-la em poucos parágrafos vira um desafio para qualquer cronista. Algo ainda mais significativo quando consideramos que o escritor morreu jovem, com apenas 40 anos de idade - sua carreira literária, por exemplo, durou menos de duas décadas ao todo, resultando em dezenas de livros e incontáveis artigos, comentários e textos jornalísticos. Que tenha conseguido produzir tanto e, ao mesmo tempo, viver tantas experiências é testemunho de um espírito que nunca teve paciência para esperar a vida acontecer.
O escritor nunca teve certeza sobre quem era seu pai. Acreditava (e a maioria de seus biógrafos concorda) que era filho do astrólogo William Chaney, com quem sua mãe, Flora Wellman, viveu durante alguns anos. William, porém, escreveu uma fria carta a Jack em 1899 dizendo ser vítima de calúnias e alegando até que, como era impotente, não poderia ser pai de criança alguma.
A decisão de escrever surgiu não como vocação, mas como conclusão de uma busca. Na adolescência, Jack London trabalhava até 18 horas por dia em uma fábrica de enlatados, e logo concluiu que precisava achar uma rota de fuga. Primeiro, pegou dinheiro emprestado da mãe de criação, a ex-escrava Virginia Prentiss, para comprar um barco de pesca de ostras; depois, inspirado pelo livro Moby Dick, de Herman Melville, viajou até a costa do Japão como marinheiro em uma escuna.
Mais tarde, London atuaria como correspondente de guerra, e também participaria da corrida do ouro no Canadá - uma experiência que, ao invés de riqueza, trouxe cicatrizes e problemas de saúde que o acompanhariam por toda a vida. Nos dias duros em terra inóspita, o futuro escritor desenvolveu um forte sentido de consciência social: tornou-se socialista e dedicou muito de sua obra à promoção do sindicalismo e à denúncia das desigualdades.
Depois de tantas aventuras, foi com a literatura que Jack London achou seu caminho. Ele mesmo nunca viu a escrita de forma muito idealista: a quem perguntasse, admitia que considerava seus textos apenas uma forma de trabalho menos penosa que as fábricas ou canteiros de obras. Da mesma forma, via a si mesmo como um bom contador de histórias, mas sem muito talento para inventá-las. Muitos de seus textos mais célebres foram inspirados em recortes de jornal, e chegou a comprar argumentos de outros escritores em mais de uma oportunidade, hábitos que renderam até algumas acusações de plágio.
Seja como for, London definiu muito do que hoje se entende por aventura, e não apenas na literatura. Ao mesmo tempo que captura a imaginação de quem lê com cenários impactantes e enredos envolventes, consegue inserir em seus escritos um olhar para quem está à margem, ao ser humano que precisa sobreviver às circunstâncias, dando camadas de observação social e até comentário político a várias de suas obras. Para alguns críticos, muitos de seus contos são precursores da ficção científica, tal como a conhecemos hoje. Além disso, London sempre foi um observador da natureza e crítico da crueldade contra animais, o que dá a livros como O chamado selvagem e Caninos brancos camadas extras de lirismo.
O primeiro casamento, com Bessie Maddern, foi razoavelmente bem sucedido sem nunca ter sido realmente feliz: ambos reconheciam que a união era uma conveniência, movida pela disposição mútua de ter filhos saudáveis. Tiveram duas crianças, Joan e Becky, e todos os relatos são de uma relação gentil, mas distante e sem amor. Com a segunda esposa, a também escritora Charmian Kittredge, isso mudou: além de apaixonados um pelo outro, foram parceiros literários (com Charmian editando e até reescrevendo vários trechos das obras do marido) e tocaram juntos o Beauty Ranch, propriedade rural que se pretendia um espaço autossustentável, mas nunca chegou realmente a decolar.
Foi uma vida intensa, a de Jack London. E acabou cedo. Vitimado pelo alcoolismo, e sofrendo de um quadro severo de uremia, passou a tomar doses de morfina para suportar a dor das crises; historiadores acreditam que sua morte, em 22 de novembro de 1916, tenha sido causada por uma overdose acidental. Não foi muito tempo de vida, mas foi o suficiente - e as muitas aventuras vividas e escritas por Jack London seguem presentes para provocar nossa imaginação.
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