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memória

- Publicada em 19h31min, 06/01/2021. Atualizada em 16h42min, 08/01/2021.

Cantora norte-americana Joan Baez completa 80 anos de música e ativismo

Artista que esteve na Capital em 2014 curte aposentadoria dos palcos, dedicando-se à pintura

Artista que esteve na Capital em 2014 curte aposentadoria dos palcos, dedicando-se à pintura


GILMAR LUÍS/ARQUIVO/JC
Igor Natusch
"As pessoas deveriam desistir com mais frequência." A frase da cantora norte-americana Joan Baez, dita em uma entrevista para a Rolling Stone em 2019, veio acompanhada não de um lamento, mas de uma risada. Cerca de dois meses depois, a artista - que completa, no sábado (9), 80 anos de vida - fazia o último show da última turnê de sua carreira, no Teatro Real de Madrid, na Espanha. Foi o encerramento de quase seis décadas nos palcos: o primeiro e lendário show profissional de sua carreira, no festival de música folk de Newport, nos Estados Unidos, aconteceu em julho de 1959.
"As pessoas deveriam desistir com mais frequência." A frase da cantora norte-americana Joan Baez, dita em uma entrevista para a Rolling Stone em 2019, veio acompanhada não de um lamento, mas de uma risada. Cerca de dois meses depois, a artista - que completa, no sábado (9), 80 anos de vida - fazia o último show da última turnê de sua carreira, no Teatro Real de Madrid, na Espanha. Foi o encerramento de quase seis décadas nos palcos: o primeiro e lendário show profissional de sua carreira, no festival de música folk de Newport, nos Estados Unidos, aconteceu em julho de 1959.
Na época, Joan Baez era uma jovem cantora e violonista de 18 anos, que tocava em clubes para plateias que, por vezes, mal iam além de seus próprios familiares. Mesmo assim, sua voz ao mesmo tempo doce e poderosa chamou a atenção de Bob Gibson, um dos nomes fundamentais do revival da música folk norte-americana nos anos 1950 e 1960. Gibson convidou a desconhecida cantora de ascendência mexicana para duas músicas em seu show em Newport - e a performance foi tão bem recebida que rendeu a ela um contrato de gravação e o apelido "madona descalça", referência à beleza despretensiosa de sua presença de palco e que a acompanharia durante muitos anos.
Se o folk moldou muito do que hoje entendemos sobre a música como veículo de engajamento social, Joan Baez é um dos nomes fundamentais nessa realidade. Uma das artistas mais bem sucedidas dos Estados Unidos na década de 1960, ela também foi uma das primeiras figuras de amplo sucesso a fazer da própria popularidade um instrumento de ativismo político, ao ponto de ser detida pelas autoridades em mais de uma ocasião. A própria cantora disse, em mais de uma ocasião, que a música surge para ela como consequência da consciência política, e não o contrário. Suas irmãs, Pauline Marden e Mimi Fariña, também seguiram carreiras que uniram música e ativismo.
Além da própria trajetória, Joan abriu portas para outros nomes seminais. Basta lembrar que ela foi uma das primeiras pessoas a gravar canções de Bob Dylan, que depois se transformaria em um dos artistas mais reverenciados de sua geração. Durante alguns anos, Joan e Bob foram um casal; com o fim do relacionamento, a conexão entre eles achou um estranho equilíbrio entre a reticência e a admiração mútua - extremos que podem ser vistos em Rolling thunder revue, longa dirigido por Martin Scorsese para a Netflix. Em suas seis décadas de carreira, a cantora gravou inúmeras canções assinadas por Dylan; uma escolha sempre simples, segundo ela, já que ele seria "o melhor de todos" os compositores com os quais ela trabalhou.

Relação da cantora com Bob Dylan marcou a trajetória de ambos
Relação da cantora com Bob Dylan marcou a trajetória de ambos
ROWLAND SCHERMAN/DIVULGAÇÃO/JC
Joan Baez teve outros companheiros famosos - entre eles, o inventor e empresário da informática Steve Jobs. Seu brilho, de qualquer modo, longe está de ser um simples reflexo de outras estrelas. Sua aparição no emblemático festival de Woodstock, em 1969, marcou época: grávida do então marido David Harris, que estava preso por se recusar a lutar no Vietnã, subiu ao palco no começo da madrugada, apenas ela e o violão, em uma performance até hoje lembrada como um dos pontos máximos de um festival repleto deles. Cinco décadas depois, acabou recusando um convite para participar do Woodstock 50, que celebrava o histórico evento da contracultura: segundo ela, algo instintivo a disse que tentar recriar o passado seria uma má ideia.
Essa sequência de ciclos que se iniciam e se encerram no palco tem um capítulo aqui no Brasil. Seus primeiros shows no País aconteceriam em 1981, mas foram cancelados pela ditadura militar, em cima da hora e sem explicações. Mas a viagem não foi em vão: cantou à capela no Teatro Tuca, em São Paulo (viagem na qual conheceu o então líder metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva e, dizem muitos, teve uma breve história de amor com Eduardo Suplicy) e subiu no palco do Conclave do Sol, no Rio de Janeiro, para participar de uma dança coletiva de baião.
Os shows de fato em nosso País foram acontecer mais de três décadas depois, em 2014. Em sua única turnê pelo Brasil (que passou por Porto Alegre em 19 de março daquele ano), Joan Baez dividiu o palco com Suplicy e com o compositor Geraldo Vandré, amarrando as pontas de uma resistência artística que se espalha por países e gerações.
Nas últimas décadas, a atenção de Joan Baez consolidou-se na pintura; segundo ela mesma, são décadas sem compor praticamente nenhuma música. Após lançar Whistle down the wind (2018), decidiu embarcar em sua última turnê. Não com o coração pesado de quem se vê incapaz de seguir em frente, mas com a mistura de alegria e melancolia de quem sabe que chegou a hora de desistir de um aspecto de si mesma e seguir outras direções. A música permanece conosco, e Joan Baez também, mesmo que curtindo a mudança de ritmo de uma justa aposentadoria dos palcos.
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