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audiovisual

- Publicada em 21h22min, 17/11/2020.

Leandro Maia lança seu primeiro filme, o documentário musical 'Paisagens'

No road movie, a bordo de um Fusca 1972, cantor apresenta suas canções em cenários de Pelotas

No road movie, a bordo de um Fusca 1972, cantor apresenta suas canções em cenários de Pelotas


BUMBÁ/DIVULGAÇÃO/JC
Caroline Zatt da Silva
Depois de 20 anos de carreira, três discos solo e dois videoclipes infantis animados, agora, o cantor, compositor e violonista Leandro Maia lança seu primeiro filme, em parceria com a Bumbá Produtora de Conteúdo. Com direção de Juliano Ambrosini e Nando Rossa, o documentário musical Paisagens tem estreia nesta quarta-feira (18), às 21h, no canal de YouTube do músico. Algumas canções da obra de 50 minutos também estarão disponíveis em formato de EP virtual no site da distribuidora Tratore.
Depois de 20 anos de carreira, três discos solo e dois videoclipes infantis animados, agora, o cantor, compositor e violonista Leandro Maia lança seu primeiro filme, em parceria com a Bumbá Produtora de Conteúdo. Com direção de Juliano Ambrosini e Nando Rossa, o documentário musical Paisagens tem estreia nesta quarta-feira (18), às 21h, no canal de YouTube do músico. Algumas canções da obra de 50 minutos também estarão disponíveis em formato de EP virtual no site da distribuidora Tratore.
Paisagens é o nome da segunda faixa do primeiro disco do cantautor, Palavreio (Fumproarte, 2008) - um CD-livro lançado há 12 anos (que traz os versos "Espelho meu, revelação do eu - doeu", utilizados no título da resenha do filme na versão impressa do Jornal do Comércio). Aquela letra era uma declaração de amor a Porto Alegre e ao Guaíba. Hoje, seu "cenário líquido" é o Laranjal.
Já a primeira canção do disco de 2008, Apresentação, traz versos que abrem o documentário, em uma tentativa de autodefinição do próprio músico: "Eu já corri o mundo inteiro, eu tenho pé de cantador". Para a produção, o compositor diz que na época ele tinha recém-saído da capital dos gaúchos. Era uma mentira? "Não, era uma profecia."
Sem RG, com o violão na cacunda, com mil ideias na cabeça, tentando sempre abraçar o mundo, criando novas parcerias musicais, esse é Leandro Maia. A fonte de inspirações é inesgotável. O filme traduz isso. O documentário musical pode ser somente ouvido, mas ganha muito sendo visto, porque os horizontes das locações paisagísticas também têm os seus significados. Quem conhece bem a figura, enxerga ali também sua persona política.
Leandro é um universo criativo infinito, numa personalidade inquieta. A decisão de fazer as canções "narrarem" esta obra é acertada, na medida que as criações do autor mostram o resultado de seus processos de busca e suas andanças, como por exemplo seu retorno ao Brasil, após o doutorado em composição na Inglaterra. Ao estilo road movie, o filme exibe canções inéditas, regravações com novos arranjos, incluindo imagens peculiares da cidade de Pelotas, onde o cantor reside atualmente. Elas não seguem nenhuma ordem, nem de composição, nem de gravação. São um samplear de um cara que transita entre gêneros, tempos, mensagens, conjugando letras e melodias com muito apuro.
Pela personalidade criativa estar sempre em trânsito é que Paisagens talvez seja um road movie, filmado a bordo de um Fusca 1972, que o cantautor compara a uma "cápsula do tempo". O veículo foi herdado do falecido irmão, Luís Antônio Castagna Maia, ex-bancário, sindicalista e advogado que influenciou seu interesse pela música e pela poesia desde a infância.
O VW é chamado de Totôto, assim como o apelido que o pequeno Leandro deu ao irmão quando começou a falar. Para ele, compôs Trem do Cerrado, do CD infatil Mandinho (Procultura, 2013), e ela é interpretada junto à Antiga Estação Férrea da Princesa do Sul, no encerramento da produção audiovisual, como outra - e mais uma vez - despedida. Um dia, também nós embarcaremos no primeiro vagão.
Por outro lado, Perto de você, na abertura do média-metragem, é uma canção sobre identidade e parte de situações reais vivenciadas por Leandro Maia. Gravada entre os barcos da Colônia Z3, foi composta durante uma caminhada pela feira livre da avenida Bento Gonçalves, em Pelotas, ao relembrar o risco enfrentado ao cruzar clandestinamente uma fronteira por amor. Quando conheceu sua esposa, a bailarina Maria Falkembach, ele havia perdido a carteira de identidade e teve de atravessar para a Argentina utilizando modos alternativos para poder comemorar o aniversário da amada junto à família. 
Memórias afetivas, saudades, opiniões, estudos, reflexões e composições dessa trajetória são lançadas na tela com naturalidade. Não é um filme biográfico, é a vida do artista que atravessa sua criação. Além de Leandro e Maria (com discreta aparição do filho, Gonçalo), participam ainda o parceiro musical Paulo Gaiger e o fotógrafo Nauro Júnior. 

Entre as pontas da Lagoa dos Patos

Registros audiovisuais dialogam com memória viva da cidade do Sul do Estado
Registros audiovisuais dialogam com memória viva da cidade do Sul do Estado
BUMBÁ/DIVULGAÇÃO/JC
Ao eleger o Fusca 1972 como protagonista, as gravações iniciaram de forma independente e autofinanciada, tomando a forma de um documentário musical ou filme de estrada. As músicas inéditas em disco foram compostas com o apoio do Prémio Ibermúsicas de Composición de Canción Popular.
O percurso de Paisagens valoriza os cenários locais do entorno de Pelotas, cidade onde Leandro Maia vive e trabalha (dedicando-se ao fazer artístico, à produção cultural e à docência, junto ao Curso de Bacharelado em Música Popular da UFPel), entre a beira da Lagoa dos Patos, o Arroio Pelotas e o Canal São Gonçalo. Ao interromper o processo de produção devido à Covid-19, os realizadores perceberam o potencial do material já captado e a importância de lançar o filme neste momento.
O repertório se realiza através de uma perspectiva "glocal", onde global e local se articulam em histórias de vida e personagens ligados à irreverente matriz guaipeca (palavra que ele adora repetir para se referir a si mesmo), como os grandes homenageados Barão de Itararé (Aparício Torelly, 1895-1971), João Guimarães Rosa (1908-1967) e Dona Conceição dos Mil Sambas (1930-). O projeto reúne nove canções autorais e contação de histórias.
Os registros audiovisuais dialogam com memória viva da cidade do Sul do Estado, como na interpretação do samba Para agradar o tempo, com participação especial de Paulo Gaiger junto ao Relógio do Mercado Central, cuja letra homenageia a sambista Conceição Rosa Teixeira, a Dona Conceição dos Mil Sambas.
Já a canção Milagres do Barão de Itararé é apresentada em seu processo criativo ao fotógrafo Nauro Júnior, criador do projeto Expedição Fuscamérica. A música Feito São Tomé (Maia/Jerônimo Jardim) é gravada entre escombros à beira do Canal São Gonçalo, enquanto Apresentação, Paisagens e Palavreio são revisitadas à beira da Lagoa dos Patos, entre o Laranjal e o Balneário dos Prazeres.
A companheira de vida e de desafios artísticos Maria Falkembach, atriz-bailarina, participa de Diadorim, coreografando e interpretando a canção em meio à reserva do Pontal da Barra. A canção é a quinta faixa do disco solo mais recente, Suíte Maria Bonita e outras veredas (Funarte, 2014), com inspiração na obra de Guimarães Rosa.
As duas décadas de carreira como músico são contadas a partir da conquista do II Festival de Música de Porto Alegre, em 1999, com o grupo Café Acústico. Ele também já recebeu cinco Prêmios Açorianos de Música, e seus álbuns costumam figurar nas listas de melhores lançados a cada ano.
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