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Memória

- Publicada em 16h28min, 11/11/2020.

Emoção por meio da forma: os 180 anos de nascimento de Auguste Rodin

Responsável por obras como O pensador, escultor francês é um dos mais reconhecidos artistas do formato em todos os tempos

Responsável por obras como O pensador, escultor francês é um dos mais reconhecidos artistas do formato em todos os tempos


JEAN-PIERRE DALBERÁ/MUSÉE RODIN/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
Não faltou muito para que a carreira artística do escultor Auguste Rodin acabasse já na primeira grande obra. E não porque os contemporâneos do francês (nascido há exatos 180 anos, em 12 de novembro de 1840) achassem a obra ruim. Ao contrário: o problema é que ela parecia perfeita demais.
Não faltou muito para que a carreira artística do escultor Auguste Rodin acabasse já na primeira grande obra. E não porque os contemporâneos do francês (nascido há exatos 180 anos, em 12 de novembro de 1840) achassem a obra ruim. Ao contrário: o problema é que ela parecia perfeita demais.
Para realizar A idade do bronze (1875), Rodin fez uso de técnicas então incomuns no estudo de seu modelo vivo, como o uso de escadas e modelagens em argila de partes específicas do corpo retratado, que ele analisava à luz de velas madrugada adentro. O resultado foi uma figura em tamanho natural, extremamente convincente do ponto de vista anatômico. Tão naturalista, na verdade, que Rodin foi acusado de ser um trapaceiro: nas primeiras exposições da obra, em Bruxelas e Paris, muitos disseram que a peça não valia nada, pois só poderia ter sido feita tirando moldes de gesso de uma pessoa viva.
Uma polêmica que talvez nos pareça absurda hoje, que Auguste Rodin é amplamente reconhecido como um dos maiores escultores de todos os tempos. Mas a verdade é que, de certa forma, a maior parte do que o genial francês produziu depois disso foi uma tentativa de responder a essas acusações, com figuras desproporcionalmente maiores ou menores do que seria natural – uma forma de demonstrar que sua arte singular era fruto de esforço e observação, não de trapaças.
Mesmo a mais famosa de suas obras, O pensador (1902), encaixa nessa quase obsessão particular. A icônica imagem do homem sentado sobre uma pedra, uma das mãos apoiando o queixo em uma profunda reflexão, foi concebida inicialmente como imagem central para Os portões do inferno, conjunto escultórico que serviria de portal a um museu de belas artes, mas que Rodin nunca chegou a concluir em vida. Embora maior que a as demais figuras no conjunto original, O pensador é consideravelmente menor do que seria na vida real - e só mais tarde, quando passou a ser reproduzida de forma independente, a escultura ganhou o impacto visual pelo qual é mundialmente reconhecida.
Filho de operários, Auguste Rodin viveu na quase pobreza durante toda a juventude. Trabalhou durante anos como decorador e na elaboração de detalhes de escultura para construções, e chegou a desistir da arte durante algum tempo, disposto a virar frade em uma congregação católica.
Foi durante sua estada de seis anos na Bélgica, iniciada em 1870, que o artista começou a exibir suas primeiras obras autorais. De lá, ele partiu para uma viagem de dois meses pela Itália, em 1875, que deu a ele um novo propósito artístico. Encantado pelas obras de Michelangelo e pela potência poética de Dante, deixou de lado as idealizações de influência grega de seus contemporâneos, passando a buscar em suas obras a expressão de emoção por meio da forma. Não é à toa que o próprio Rodin teria dito que seu Pensador não pensava apenas com o cérebro, mas com cada músculo de seu corpo.
Obras como O beijo (1882), A eterna primavera (1884) e Os burgueses de Calais (1889) são outros exemplos bem-sucedidos dessa busca – que, vale dizer, também levava muito em conta o olhar do observador. O pensador foi concebida para ser vista de baixo para cima, e o próprio Rodin desejava que Os burgueses fosse exibida sem um pedestal, de forma que as pessoas pudessem observá-la no mesmo nível, melhor capturando nuances de luz, sobra e texturas.
Com o tempo, Rodin radicalizou sua busca por movimento, e muitas de suas obras seguiram chocando críticos. A reação ao monumento em homenagem ao escritor Honoré de Balzac, exibido como modelo de gesso em 1898, foi tão negativa que o escultor nem se deu ao trabalho de fazer uma defesa pública da obra: simplesmente devolveu o valor que tinha recebido pela encomenda e colocou a peça no quintal de sua residência. A obra outrora ridicularizada só seria transformada em bronze mais de vinte anos após a morte de Rodin; hoje, a escultura é vista por muitos críticos como uma de suas obras-primas.
A vida pessoal de Auguste Rodin também não foi vazia de sobressaltos. Relacionou-se com várias mulheres – a mais famosa delas, sem dúvida, a escultora Camille Claudel, que alternou momentos de aprendiz, amante e quase rival. Hoje amplamente reconhecida pelos próprios méritos, Camille esteve envolvida com Auguste, de uma forma ou outra, durante cerca de quinze anos. Uma relação que, segundo estudiosos da história da arte, teve papel não apenas na relativa obscuridade de sua obra durante muitas décadas, mas também no desequilíbrio mental que afetou as últimas décadas de vida da escultora.
Seja como for, Rodin nunca se distanciou de Rose Beuret, que o acompanhou desde a juventude e a quem, mesmo com as muitas amantes, sempre declarou como o amor de sua vida. Casaram-se em janeiro de 1917, mais de 50 anos depois de se conhecerem: Rose morreu duas semanas depois, e Rodin viveu até 17 de novembro daquele ano, quando faleceu por complicações respiratórias.
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