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Memória

- Publicada em 19h45min, 07/10/2020.

Os 80 anos de um garoto que mudou o mundo pela música

John Lennon continua sendo um dos mais poderosos símbolos culturais de nosso tempo

John Lennon continua sendo um dos mais poderosos símbolos culturais de nosso tempo


GERRY DEITER/AFP PHOTO/JC
Igor Natusch
Dizer que John Lennon foi o Jesus Cristo do rock and roll seria certamente um exagero. Ainda assim, é possível dizer que o músico inglês acabou tendo um papel quase messiânico para a cultura de massa ao redor do globo, tanto com os Beatles quanto com sua icônica carreira solo. Nascido há 80 anos, no dia 9 de outubro de 1940, Lennon deixou um rastro de profundas mudanças artísticas, culturais e sociais em suas quatro décadas de vida - sete anos a mais que Jesus, como talvez alguém mais chegado a coincidências se apressasse em lembrar.
Dizer que John Lennon foi o Jesus Cristo do rock and roll seria certamente um exagero. Ainda assim, é possível dizer que o músico inglês acabou tendo um papel quase messiânico para a cultura de massa ao redor do globo, tanto com os Beatles quanto com sua icônica carreira solo. Nascido há 80 anos, no dia 9 de outubro de 1940, Lennon deixou um rastro de profundas mudanças artísticas, culturais e sociais em suas quatro décadas de vida - sete anos a mais que Jesus, como talvez alguém mais chegado a coincidências se apressasse em lembrar.
A famosa frase sobre os Beatles serem "maiores que Jesus", talvez uma das mais citadas falas de um artista em todos os tempos, exemplifica bem essa inclinação de Lennon para balançar as estruturas. Na verdade, não era para ser algo muito polêmico: publicada como parte de uma série de perfis dos Fab Four em 1966, pelo diário londrino Evening Standard, a declaração comentava o declínio da Igreja Católica no Reino Unido, tópico bastante comum na imprensa local. Nos Estados Unidos, contudo, a fala não pegou nada bem, e a reação furiosa dos conservadores quase arruinou a turnê dos Beatles pelo país naquele ano.
Depois dela, tudo mudou. George Harrison ameaçou deixar a banda, sendo convencido a ficar pela decisão coletiva de não fazer mais turnês - e foi essa disposição de concentrar esforços em estúdio que rendeu alguns dos LPs mais revolucionários do rock, como Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967) e The Beatles, o chamado Álbum branco (1968). Mudou também, embora não de imediato, a postura que se espera de um rock star: o rebelde sem causa, cantando sobre garotas e festas de arromba, ganharia contornos cada vez mais engajados e opinativos. E isso se refletiu com perfeição no próprio John Lennon, que fez do susto uma libertação e, em especial a partir da entrada de Yoko Ono em sua vida, assumiu sem reservas o papel de líder contestador de uma geração.
Uma inclinação que, de certa forma, sempre esteve lá. O contato com a música foi até natural para um jovem de Liverpool que, desde muito cedo, apresentou uma predileção pela rebeldia. Filho de pais separados e criado pela tia, o jovem John era "o garoto sobre o qual os pais de todos os outros diriam 'fique longe dele'", como relembrou o próprio em uma entrevista de 1980. Com 15 anos, ele formou a banda The Quarrymen, ligada ao movimento skiffle, que fazia uso de instrumentos improvisados para tocar um híbrido de blues, folk e jazz. No segundo show do Quarrymen, em 1955, Lennon conheceu Paul McCartney, dando início à mais famosa parceria da história do rock.
Para John, Paul, George e o baterista Ringo Starr, os anos 1960 foram uma viagem daquelas. E o mesmo pode ser dito de todos nós, que viajamos junto com eles: de She loves you a Let it be, de Can't buy me love a Penny Lane, passando por Help e All you need is love, todos nós carregamos dezenas de músicas dos Beatles em nosso DNA musical - a maioria delas escrita por Lennon e McCartney, às vezes juntos, de vez em quando um deles dando apenas pequenos palpites nas ideias do outro. Tudo que hoje é normal nas bandas de rock surgiu ou foi aprimorado a partir desses quatro rapazes britânicos, e é justo dizer que John Lennon sempre esteve em uma posição à parte, como a figura mais irônica e provocadora de um grupo famoso pelo carisma e capacidade criativa.
A relação com Paul sempre oscilou entre a amizade e a rivalidade, sem deixar de lado momentos de tensão e eventuais puxadas de tapete. Decidido a sair dos Beatles desde setembro de 1969, John ficou furioso quando Paul anunciou o fim da banda primeiro, em abril de 1970, ao lançar McCartney, seu primeiro álbum solo. Se ele montou a banda, pensava Lennon, quem o amigo-rival era para separá-la antes dele? Anos depois, John Lennon escreveu a canção How do you sleep?, com críticas ácidas e até amargas ao ex-companheiro; ainda assim, frisou em muitas entrevistas que não tinham virado inimigos, inclusive conversando por telefone com alguma frequência.
A carreira solo de John Lennon teve tanta música quanto ativismo. Canções inesquecíveis como Imagine, Happy xmas (war is over) e Give peace a chance são indissociáveis de seus protestos contra a Guerra do Vietnã e a crítica a instituições religiosas e políticas. John e Yoko se transformaram, na primeira metade dos anos 1970, em símbolos de um rock que queria falar de coisas sérias e acreditava ser capaz de mudar o mundo.
Uma trajetória que chegou ao fim de forma brutal, com um martírio tão chocante quanto injustificável. Era 8 de dezembro de 1980 quando Mark Chapman deu cinco tiros em Nova York, e o rock como um todo morreu um pouco naquele dia. Mas, como os salvadores de todos os tipos, John Lennon não se apagou na morte, ao contrário. Vive de forma intensa entre nós, como uma mensagem de mudança que sempre nos fará cantar, enquanto houver um espírito jovem e inquieto no mundo.
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