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literatura

- Publicada em 20h18min, 29/09/2020.

No sopapo e no gogó, Richard Serraria apresenta projeto cultural 'Sopaporiki'

Cancionista e poeta une tambores e palavra para contar surgimento dos orixás na Bacia do Prata

Cancionista e poeta une tambores e palavra para contar surgimento dos orixás na Bacia do Prata


ALASS DERIVAS/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
"Eu fui em busca do Sul. Ao invés de nortear, o meu conceito foi 'suleador', digamos assim. O Sul foi o lugar para onde fui: pegar a estrada rumo ao Sul do meu passado." 
"Eu fui em busca do Sul. Ao invés de nortear, o meu conceito foi 'suleador', digamos assim. O Sul foi o lugar para onde fui: pegar a estrada rumo ao Sul do meu passado." 
A definição do cancionista e poeta Richard Serraria evoca uma imagem que vai muito além da retórica. De fato, o projeto cultural Sopaporiki é uma seta criativa apontada para o Sul, propondo uma cosmogonia para o sopapo, tambor característico da cultura negra sul-rio-grandense. Dando forma poética à chegada dos 12 orixás do Batuque de Nação Oyó Idjexá na região, o projeto deu seus primeiros passos para o mundo em setembro, com o lançamento de um audiobook com mulheres negras e indígenas apresentando as criações de Serraria. Com direção musical de Angelo Primon, o produto teve apoio do edital FAC Digital RS.
Além do gogó, Sopaporiki traz também o som dos tambores, a cargo do grupo de percussão negro Alabê Ôni. A obra pode ser acessada no perfil de Serraria no YouTube e também está disponível nas plataformas de áudio Anchor e Soundcloud.
Em outubro, o livro Sopaporiki será lançado pela Escola de Poesia, com curadoria de Eliane Marques e prefácio de Eliana Mara Chiossi.
A trajetória artística de Richard Serraria se mistura com o sopapo há pelo menos duas décadas, a partir das experimentações do grupo Bataclã FC. Mestre e doutor em Letras pela Ufrgs, ele participou do encontro de percussão e cultura negra Cabobu, realizado em Pelotas em 2000, e em 2010 fez pesquisa e trilha sonora para o documentário O grande tambor, usando a figura do luthier Mestre Batista como fio condutor.
Refletindo sobre essa confluência de datas, Richard passou a elaborar um novo projeto, no qual o sopapo fosse o eu lírico - e que também permitisse ao artista trabalhar com o universo religioso do batuque e a cosmogonia dos orixás.
Nos poemas, o autor explora a língua 'pretuguesa' de nosso Estado, incorporando palavras e elementos linguísticos bantos e iorubás, além dos idiomas charrua, guarani, kaingáng e quechua, falados pelos indígenas da Bacia do Prata. O resultado são peças que explodem em plurilinguagens - capazes não apenas de evocar a força dos mitos de criação, mas também de evidenciar a presença desses povos na formação de tudo que chamamos de cultura gaúcha.
"Acho que a gente tem um folclore oficialesco, uma ideia construída de 'gauchidade' que não inclui o elemento negro ou indígena. Isso é manifestação de um racismo estrutural, que faz com que boa parte do Brasil construa uma imagem de que, no Rio Grande do Sul, não existem negros", diz Serraria. "(Com Sopaporiki, quero) mostrar a presença negra na construção do Rio Grande do Sul a partir dos escravos negros nas charqueadas. O sopapo é um tambor das charqueadas, e nisso o instrumento transcende a estética e passa a ter também uma dimensão política".
Como o oriki - poética do povo iorubá à qual Serraria remete - é uma forma de expressão oral, a ideia do audiobook surgiu com naturalidade. "Me considero um poeta que se expressa pela via da canção, eu sempre publiquei minhas poesias em forma de CD", define. "Tendo o conceito do Sopaporiki, uma metaficção poética e historiográfica na qual o sopapo falaria por meio dos orixás, comecei a elaborar as poesias, a partir de um conjunto de regras (do oriki): a forma oral, imagens grandiloquentes, pouco uso da rima, aliterações. A partir dessa decisão, foi um trabalho de pesquisa e de carpintaria poética."
Há amplo espaço também para o uso de gírias - não apenas as gaúchas, mas também para o bozal uruguaio e o lunfardo da Argentina. Além de margem para ouvintes e leitores criarem suas próprias linguagens. "O livro tem essa brincadeira de vocábulos misteriosos. Há um glossário ao final, mas há uma série de invenções de palavras também, que são meio que um convite para que as pessoas inventem significados. Se você não sabe o que a palavra quer dizer, crie um sentido para ela", provoca.
A etapa final de Sopaporiki, é claro, será o palco. A pandemia não permite uma previsão exata, mas a tendência é que o gogó e o sopapo se unam em um espetáculo no segundo semestre de 2021, acompanhados de dança e de elementos cênicos que ainda estão sendo definidos. Camada fundamental em uma obra que traz, em seu espírito, dar ao negro seu justo - e visível - espaço na experiência cultural de ser gaúcho ou gaúcha.
"Há uma saga da imigração alemã, surgida através de Vianna Moog e Luiz Antonio de Assis Brasil; há uma saga da imigração italiana, através de José Clemente Pozenato; há a saga da imigração judaica, na voz de Moacyr Scliar", enumera Serraria. "E acho que a gente está no tempo da criação e afirmação desse imaginário histórico da presença negra no Rio Grande do Sul, com Oliveira Silveira, Ronald Augusto, Eliane Marques, Ana dos Santos. Sopaporiki tem essa pretensão estética."
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