Porto Alegre, quarta-feira, 23 de setembro de 2020.

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FESTIVAL DE GRAMADO

- Publicada em 22h56min, 22/09/2020. Atualizada em 16h13min, 23/09/2020.

Influenciada pela Antropologia, Thais Fernandes leva seu longa à mostra de Gramado

Road movie 'Portuñol' desvenda, no trajeto, a latinidade que une personagens diversos

Road movie 'Portuñol' desvenda, no trajeto, a latinidade que une personagens diversos


PEDRO CLEZAR/DIVULGAÇÃO/JC
Caroline Zatt da Silva
A cineasta Thais Fernandes ganhou a Mostra Gaúcha de Curtas do Festival de Cinema de Gramado em 2018 com o documentário Um corpo feminino, saindo da Serra com o troféu e muitos elogios. O filme seguiu o circuito de festivais, e ganhou visibilidade em eventos para discutir a questão de gênero. 
A cineasta Thais Fernandes ganhou a Mostra Gaúcha de Curtas do Festival de Cinema de Gramado em 2018 com o documentário Um corpo feminino, saindo da Serra com o troféu e muitos elogios. O filme seguiu o circuito de festivais, e ganhou visibilidade em eventos para discutir a questão de gênero. 
Agora, com seu primeiro longa, também documental, ela concorre na 48ª edição do evento, com mais quatro títulos, ao Kikito de melhor título em longa-metragem produzido no Rio Grande do Sul. Portuñol é um road movie que viaja pelas fronteiras do Sul do Brasil com seus países vizinhos latinos investigando noções de "fronteira" e como se dão as trocas culturais dos habitantes desses territórios através da linguagem.
Os títulos produzidos no Estado concorrentes nesta seleção do festival podem ser assistidos no streaming do Canal Brasil até quinta-feira (24). Uma série especial de entrevistas com os diretores gaúchos está disponível para leitura diária no hotsite de Cultura do Jornal do Comércio. Nesta quarta-feira (23), às 17h, a diretora participa, com Luiz Alberto Cassol (de Deborah! O Ato da Casa), de um debate na TVE sobre o processo de seus filmes.
Os dispositivos de narrativa de Um corpo feminino e Portuñol são semelhantes. Com as participantes do curta, o questionamento era sobre as características do feminino, identificação. No novo filme, o eixo central de Thais é a concepção de fronteira para os moradores dessas zonas limítrofes. Dessa forma, com o norte das entrevistas para o significado subjetivo de cada um, possíveis conflitos ou afinidades dos idiomas viriam a reboque do questionamento, como consequência prática.
Outra comparação natural com o curta premiado da diretora é a busca do Outro, em uma perspectiva antropológica. A realizadora reconhece a inspiração nesse campo do conhecimento, e diz ter vontade de estudar mais no futuro, tendo já relações com os integrantes do Núcleo de Antropologia Visual da Ufrgs.
Ainda nessa relação com a etnografia, na parte final do filme, na cidade uruguaia de Rivera (espelho de uma avenida para a gaúcha Santana do Livramento), uma das entrevistadas declara: “O outro é diferente de ti”. E um dos meninos, também da fronteira com o Uruguai, vem com a palavra “entreverado” sobre o tema proposto.
A síntese da obra fílmica parece estar nesse ponto, refletida nas mesclas culturais, como na mistura de ingredientes na gastronomia, dos ritmos musicais e demais manifestações artísticas (rap, literatura ou performances de rua), tão contempladas no decorrer de todo o longa. Como é comum no gênero documental, quando a essência dos filmes surge na ilha de edição, a impressão que fica ao espectador é que também foi na montagem que se desenhou o fio narrativo de Portuñol, a partir da costura dos depoimentos e das paisagens (sonoras ou visuais).
O "entrevero" não é somente nas línguas - espanhol (castelhano), português, guarani e dialetos. Os monumentos, costumes, personagens e histórias exemplificam as representações identitárias não excludentes, mas, sim, em uma confluência que só tende a crescer. O fato de a linha ser efetivamente imaginária e de que os que frequentemente a atravessam não quererem vê-la é significativo. Assim como outra mensagem clara do documentário: os preconceitos vêm do desconhecimento. Talvez, por isso, Thais queira conhecer tanto, observar muito, perguntar e ouvir.
O projeto tem apoio da Globo News e Globo Filmes. 

Focada em narrativas documentais e na mágica relação de ouvir o outro

Bastidores da equipe - com diretora ao centro - filmando na Ponte da Amizade, entre Brasil e Paraguai
Bastidores da equipe - com diretora ao centro - filmando na Ponte da Amizade, entre Brasil e Paraguai
FABIANO FLOREZ/DIVULGAÇÃO/JC
Thais Fernandes (nascida em 1984) é formada em Jornalismo pela Pucrs. Desde 2007, trabalha como montadora e diretora de projetos audiovisuais para televisão e cinema.
Focada em narrativas documentais, dirigiu os curtas Contrato de amor (2013), Navegantes (2015) e Um corpo feminino (2018). A realizadora também assina produção-executiva, pesquisa e edição de vídeos do webdocumentário A cidade inventada (2014).
Outro trabalho recente de Thais Fernandes, a série documental Afinal, quem é Deus? já estreou na televisão. A realizadora conta que a produção voltada ao público infantil é seu xodó: "Esse projeto é a minha menina dos olhos. Acho muito interessante, pelo tema da religião, numa perspectiva de um olhar diverso. São crianças falando da sua religião para outras crianças, elas apresentam suas crenças. Ela não tinha intenção de ser didática, é a espiritualidade de um modo lúdico, porque são as crianças explicando do seu jeito. É um dos meus projetos favoritos, porque ele também fala da importância de conviver com o diferente, com o outro. Tanto que isso é uma coisa que eu faço questão de dizer: nenhuma criança que tivemos como personagem na série tinha discurso de ódio, disse que a religião delas era melhor que a outra. É um aprendizado perceber que é quando viramos adultos que nos tornamos intolerantes". 
Com 13 episódios, a produção financiada por edital explora a visão infantil sobre espiritualidade. Protagonizada por crianças, a primeira temporada foi rodada inteiramente no Rio Grande do Sul, estado que segundo o último censo do IBGE (2010) possui a maior diversidade religiosa do Brasil.
Construindo entendimentos através do pensamento lúdico da infância, cada roteiro foi criado em parceria com os personagens. A série aborda, ao todo, 11 culturas religiosas - tendo um episódio introdutório O que é religião?, e outro de encerramento compilando vivências.
Thais conta que a produção só foi possível porque foi financiada pelo Fundo Setorial do Audiovisual: "Ganhamos um edital das TVs públicas de 2015, que tinha objetivo de colocar um conteúdo na TV pública que não estava nas TVs abertas. Houve uma pesquisa, para saber o tipo de temas e tipo de públicos que ainda não eram devidamente contemplados na TV comercial".
A série já entrou na programação da TV Cultura. "E é legal porque fazemos parte de um catálogo que fica disponível para todas as TVs públicas. E as emissoras escolhem passar ou não, não é uma obrigatoriedade. É muito massa porque uma curadoria da TV Cultura viu e escolher exibir na grade deles", reflete a diretora.
JC - Já tens uma relação com o Festival de Cinema de Gramado, pois em 2018 ganhaste a Mostra Gaúcha de Curtas com Um corpo feminino. Qual a importância de ser selecionada para esta competição de longas gaúchos nesta 48ª edição, em formato online e televisivo? Haveria uma janela de visibilidade melhor neste momento para a estreia do teu primeiro longa?
Thais Fernandes - Fazendo esta retrospectiva mental, foi muito bacana. Depois de Gramado, muita coisa começou a acontecer, gosto de pensar que foi o que abriu as portas. O festival é o lugar para o curta-metragem, que não tem valor comercial. É o espaço que quem está começando na área tem para mostrar a que veio, para experimentar.
Num contexto de pandemia, tem um valor duplamente especial, não sabemos quando as coisas poderão reabrir. Exibir o filme em um festival consagrado, que, em uma decisão acertada, na minha opinião, resolveu trazê-lo para o ambiente digital, que querendo ou não se conecta com muito mais gente, mesmo, claro, com a questão da assinatura no caso do Canal Brasil. Mas, sim, estar na TV, leva todos os filmes que estão na mostra mais longe. Fico feliz de ter sido selecionada, porque, como todo realizador, faço filmes para serem vistos. E tenho sonhos que esta mostra gaúcha de longas tenha o mesmo caminho da dos curtas, que já é consolidada, com as produções melhorando, curtas saindo de universidades, isso é muito massa. O vencedor do ano passado é de universidade pública. Espero que no futuro tenhamos incentivo em outras categorias de premiação, porque a partir do ano passado começou a premiar somente melhor filme. Tenho certeza que essa mostrar vai criar um cenário para as pessoas produzirem mais para inscrever nela. Torço para que ela cresça mais e fique gigante, para o cinema gaúcho aparecer por aí.
JC - Há um dispositivo de narrativa parecido entre Um corpo feminino e Portuñol. Havia um norte para os depoimentos, sobre o significado de “fronteira”, e o idioma viria como consequência prática do pensamento do entrevistado?
Thais - Pode ter a ver com meu método de trabalho. Li uma frase uma vez, infelizmente não lembro do crédito, mas falo muito para os meus alunos e uso como mantra de trabalho: se vocês sabem exatamente o que querem dizer com o seu filme documentário, não façam um filme, façam um artigo. Isso é para provoca-los também a descobrir coisas no processo de fazer o filme. Isso não quer dizer que não possamos ou não devamos ter uma opinião... Por exemplo, se eu fosse fazer um filme sobre homofobia, claramente sou contra isso, e o filme refletiria. Mas quando estamos abertos a conhecer a diversidade do outro, isso se o meu entrevistado fosse um homofóbico, ninguém é uma coisa só.
E eu acho que quando vamos fazer uma narrativa e já sabemos que retrato queremos pintar de alguém ou de alguma situação, perdemos a mágica da relação de ouvir o outro. E, às vezes, o outro pode ter uma opinião completamente diferente da nossa e, ainda assim, dizer coisas incríveis, que vão ajudar nosso filme, ajudar nossa reflexão. Isso está no meu trabalho. No curta, eu sabia que nunca iria ter uma única resposta sobre o que é ser um corpo feminino. Quando fui fazer Portuñol, isso veio junto, já tinha esse entendimento da fronteira como uma coisa fluída, aprendi isso com os indígenas. A primeira pessoa que me disse que fronteira era uma coisa de homem branco foi o Cacique Mbyá-Guarani Cirilo, de Viamão. Isso foi no início da faculdade, ele foi o primeiro representante indígena que entrevistei, e nunca esqueci dessa fala dele. Isso permeou muito o meu pensar narrativo.
Filmar uma coisa que é invisível, tanto a fronteira, quanto a língua, que é um fenômeno que acontece ao vivo... É difícil de materializar essa mistura linguística e essa fronteira, que, na verdade, alguém inventou. É um filme de encontro, fui encontrando essas pessoas e essas definições. Gosto de conhecer gente, e estar aberta para o que têm a me dizer, e enxergar essas mágicas invisíveis.

Cartaz do filme foi feito pelo artista Leo Lage
Cartaz do filme foi feito pelo artista Leo Lage
LEO LAGE/DIVULGAÇÃO/JC
Portuñol é um documentário dirigido por Thais Fernandes a partir do argumento original de Jessica Luz, que também é produtora do filme. "Foi interessante o processo de chegar no projeto e me apropriar dele, no bom sentido. A Jessica tinha a ideia e me convidou para dirigir", comenta Thais, que assina a pesquisa e o roteiro do longa.
A arte do projeto é do sempre elogiado Leo Lage. A direção de fotografia é de Pedro Clezar; a montagem, de Jonatas Rubert. A interessante trilha sonora tem assinatura dos excelentes músicos Bruno Mad e Lucas Kinoshita.
A obra faz um mergulho na cultura fronteiriça do Brasil com seus vizinhos hispanohablantes. O portunhol, essa língua que nasce da intersecção de culturas, e pretexto para falar da gênese da America Latina. Um filme de estrada que no trajeto vai desfazendo limites físicos e desvendando a latinidade que une personagens diversos. Uma viagem de desconstrução que não busca uma resposta, mas sim romper todas as possíveis certezas do que significa existir nas bordas de definições culturais.
A produção visitou a fronteira do Brasil com quatro países - Uruguai, Argentina, Paraguai e Bolívia - fazendo um trajeto que conecta personagens através de suas vivências. Ao longo do caminho, o espaço se perde, e o que importa já não é mais onde estamos, mas sim quem são as pessoas que constroem essa identidade latina diversa.
A cosmologia indígena se mistura com a vivência acadêmica - a descendente dos povos originários é que explica que ideia de fronteira é uma coisa trazida pelos brancos, eles não conheciam limites. A paisagem da cidade se mistura com a floresta. Na tentativa de definir o que é fronteira, a câmera viaja por conceitos e entendimentos variados, enquanto a língua se transforma e se mistura ao longo do processo.
A equipe de Portuñol não busca especialistas, e encontra no diálogo com sotaques e idiomas variados um caminho sem rumo definido. Respeitando a fala de cada personagem, o filme usa legendas literais como forma de registro desses fenômenos linguísticos que existem enquanto acontecem - não há um portunhol único, não existe gramática - e tentar domesticá-lo é desconsiderar sua essência.
Músicos uruguaios, rappers indígenas, estudantes colombianos, poetas do portunhol selvagem, professores universitários - somos todos um mesmo povo, habitantes de um continente gigante e unidos por um idioma que traz junto da fala uma cultura única e diversa. Com humor e musicalidade, Portuñol é uma produção importante num momento de polarização política para lembrar que é possível conviver com as diferenças.
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