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cinema

- Publicada em 08h00min, 17/09/2020. Atualizada em 18h00min, 17/09/2020.

Ana Luiza Azevedo lança filme 'Aos olhos de Ernesto' em drive-in e streaming

Gabriela Poester e uruguaio Jorge Bolani no premiado longa filmado em Porto Alegre

Gabriela Poester e uruguaio Jorge Bolani no premiado longa filmado em Porto Alegre


FÁBIO REBELO/DIVULGAÇÃO/JC
Caroline Zatt da Silva
Estreia em drive-in e nas plataformas de streaming (Net Now, Vivo Play, Oi Play e Looke), nesta quinta-feira (17), o aguardado filme da diretora e roteirista Ana Luiza Azevedo. Filmado na capital gaúcha e protagonizado pelo ator uruguaio Jorge Bolani (de Whisky), o longa Aos olhos de Ernesto é uma produção da Casa de Cinema de Porto Alegre.
Estreia em drive-in e nas plataformas de streaming (Net Now, Vivo Play, Oi Play e Looke), nesta quinta-feira (17), o aguardado filme da diretora e roteirista Ana Luiza Azevedo. Filmado na capital gaúcha e protagonizado pelo ator uruguaio Jorge Bolani (de Whisky), o longa Aos olhos de Ernesto é uma produção da Casa de Cinema de Porto Alegre.
Belo, reflexivo e sensível, o título foi premiado pela crítica na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e pelo público no 23º Festival Internacional de Cine de Punta del Este - neste último, Bolani também foi eleito o melhor ator da mostra competitiva. A obra que conta o encontro de duas almas solitárias de diferentes gerações também foi exibida no 24º Festival Internacional de Busan (Coreia do Sul - o maior festival de cinema da Ásia, na categoria World Cinema), na Mostra Latina do Festival do Rio 2019 e no 41º Festival Del Nuevo Cine Latinoamericano de Havana.
Na narrativa, a solidão, a amizade, o amor e as redescobertas na terceira idade permeiam a história de Ernesto (Bolani). Aos 78 anos, o personagem, ex-fotógrafo uruguaio, se depara com uma crescente cegueira - que tenta disfarçar - e as limitações diversas que acompanham a avançada idade.
Viúvo e pai de filho único - Ramiro (Julinho Andrade), que vive em São Paulo -, Ernesto ressignifica sua vida e os padrões da velhice ao conhecer a jovem Bia (a atriz de olhos grandes e expressivos Gabriela Poester), que o ajuda, até mesmo a reencontrar um grande amor. Também no elenco, estão Jorge d’Elia, como o vizinho argentino quase surdo Javier; Glória Demassi, que vive Lucía, o amor uruguaio do protagonista; e as participações de Mirna Spritzer como outra vizinha, Áurea Baptista como a diarista, Celina Alcântara como a atendente das transações financeiras, Janaina Kremer como dona do restaurante e Marcos Contreras (como o namorado de Bia).
Quando ficou viúvo, Ernesto aprendeu que envelhecer é ocupar os silêncios com um disco rodando, com os telefonemas do filho que mora longe, com as idas ao banco para buscar sua escassa aposentadoria, com rápidas visitas do vizinho Javier e a espera de uma nova carta de Lúcia. Mas Bia, de 23 anos, uma descuidada cuidadora de cães, atropela a sua vida e coloca em risco seu metódico cotidiano.
Mario Benedetti - cujo centenário de nascimento se completou nesta semana - é uma das referências culturais da produção, e sua mensagem é uma bela homenagem ao escritor. Entre diversos aspectos e processos de criação do filme, uma das marcas é a mescla de culturas e o uso do “portuñol”. A proximidade cultural entre as cidades do Sul do Brasil, Uruguai e Argentina estão presentes na obra através da música, da língua e da literatura. 
As ruas e praças da capital gaúcha (Alberto Torres, Perimetral, Jerônimo de Ornellas, Julio Bozzano, restaurante Pampulha, MM Lanches) também estão nas cenas, sempre presentes nas produções da Casa de Cinema. E o Jornal do Comércio, sim, exatamente, é o próprio diário disputado pelo protagonista e seu vizinho no tapete da porta do apartamento. A história é de adaptação e superação, em um embate latente entre passado e presente.
Num apartamento com quadros e fotografias antigas, a direção de arte de Fiapo Barth e William Valduga é criteriosa. Ernesto faz questão de conservar o mundo em que viveu, trocando cartas, com máquina de escrever, telefone fixo, torradeira de boca de fogão. Ele só é entusiasta das vantagens do futuro quando compra um confortável par de tênis para caminhada, que destoa da palheta de cores mornas e sóbrias que pintam sua rotina.
Ele é antiquado ou tradicional? Essa resistência com a modernidade significa o quê? Mas a tecnologia também pode mostrar o seu neto que está longe na tela do celular...
A trama foi inspirada na vida do fotógrafo italiano Luigi Del Re (pai do fotógrafo e artista Fabio Del Re), que vivia em Porto Alegre e, com a idade e avanço da cegueira, já não conseguia mais se corresponder com a irmã, que morava na França. Em sua homenagem, foram utilizadas as suas fotografias e equipamentos de filmagem para compor o universo de Ernesto.
Para dar vida a um roteiro com toques cômicos certeiros, Ana Luiza pinçou atores excelentes, que construíram uma interpretação na medida para suas aparições em cena. O que demonstra um ambiente de set de filmagem também muito bem equilibrado e dirigido. Ela conta que não conhecia Bolani, que lhe escreveu uma carta, foi assistir a peças suas no Uruguai e se encontrou com ele em um café para construírem a relação que possibilitaria a interpretação do protagonista.
Aos olhos de Ernesto começa dando indícios de ser mais uma crítica à especulação imobiliária, depois vai trazendo as mazelas do envelhecimento e os desafios da solidão, levando a questionar um possível abandono. No entanto, o filme não é pesado. O espectador embarca na garupa do velho turrão e vai “enxergando” – assim como ele, em uma nova visão – pequenos motivos coloridos da existência, como uma refeição compartilhada ou apresentar um autor à juventude. A mensagem da obra é positiva, esperançosa, nesses tempos em que muitos seguem na teimosia das dicotomias.
Escrito por Ana Luiza, em parceria com Jorge Furtado (e com participação de Miguel da Costa Franco e Vicente Moreno), o roteiro passou por laboratórios de desenvolvimento e teve consultoria do escritor cubano Senel Paz (autor de Morango e chocolate, 1993). O projeto foi contemplado com o prêmio MinC para desenvolvimento do roteiro em 2012, e, depois, também participou do Laboratório Sesc de Novas Histórias.
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