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Memória

- Publicada em 17h29min, 08/09/2020.

O despertar do escritor Tolstói, nascido em 9 de setembro de 1828

Autor produziu obras geniais, em meio a uma profunda transformação filosófica e de vida

Autor produziu obras geniais, em meio a uma profunda transformação filosófica e de vida


SERGEI PROKUDIN-GORSKII/LIBRARY OF CONGRESS/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
A história de vida de Liev Tolstói pode ser descrita como a história de uma conversão. E ela se manifestou relativamente cedo. O escritor de boa família, até então autor de um punhado de livros autobiográficos de caráter sentimental, tinha menos de 30 anos quando, durante uma viagem pela França em 1857, testemunhou uma execução pública. Acusado de roubo seguido de morte, um jovem chamado Francis Richeux foi conduzido até a guilhotina, beijou os Evangelhos e foi decapitado, diante de quase 15 mil pessoas. No meio da multidão, o autor russo se erguia - e o espetáculo que viu disparou o nascimento de um novo Tolstói, hoje reconhecido com um dos maiores escritores de todos os tempos.
A história de vida de Liev Tolstói pode ser descrita como a história de uma conversão. E ela se manifestou relativamente cedo. O escritor de boa família, até então autor de um punhado de livros autobiográficos de caráter sentimental, tinha menos de 30 anos quando, durante uma viagem pela França em 1857, testemunhou uma execução pública. Acusado de roubo seguido de morte, um jovem chamado Francis Richeux foi conduzido até a guilhotina, beijou os Evangelhos e foi decapitado, diante de quase 15 mil pessoas. No meio da multidão, o autor russo se erguia - e o espetáculo que viu disparou o nascimento de um novo Tolstói, hoje reconhecido com um dos maiores escritores de todos os tempos.
Nascido na propriedade de Yasnaya Polyana em 9 de setembro de 1828, Liev Nikolayevich Tolstói acabou, de certo modo, renascendo naquela manhã. Não que ele vivesse alheio aos sofrimentos do mundo até então: tendo servido voluntariamente ao exército russo durante vários anos, certamente teve a oportunidade de testemunhar muitas atrocidades. "Mas, mesmo que um homem fosse feito em pedaços na minha presença, isso não teria sido tão repulsivo quanto essa engenhosa e elegante máquina com a qual mataram um homem forte, saudável e robusto em um instante", disse ele no mesmo dia, em uma carta escrita ao ensaísta e amigo Vasily Botkin. Tão horrorizado ficou que, convencido de que as leis impostas pela política não passavam de uma "mentira horrorosa", prometeu a si mesmo que, enquanto vivesse, nunca mais serviria a qualquer governo.
A conversão, por certo, não se deu da noite para o dia. Foi, na verdade, um longo processo de questionamento de si mesmo, que passou a se refletir de forma cada vez mais clara em sua literatura e modo de vida. E teve a ver com outras experiências ocorridas durante suas viagens iniciais pela Europa, quando teve contato com figuras como o escritor Victor Hugo e o filósofo anarquista Pierre-Joseph Proudhon.
De regresso à sua propriedade na Rússia, dedicou-se à implementação de uma rede de escolas rurais, voltadas ao ensino de camponeses e para as quais chegou a escrever parte do material didático. Também resolveu concretizar uma antiga paixão, casando-se com Sophia Andreevna Behrs em 1862 - uma união que rendeu 13 filhos e que foi feliz durante um bom tempo, embora tenha se deteriorado com o passar dos anos.
As obras escritas por Tolstói nos anos posteriores estão entre os clássicos máximos da literatura. O colossal Guerra e paz (1865) reúne romance, filosofia e observação histórica de uma forma até hoje difícil de igualar, e Anna Karenina (1873) descreve a sociedade russa da época com realismo e profundidade psicológica praticamente inéditos até então. Anos mais tarde, A morte de Ivan Ilitch (1886) ganharia fama como uma das novelas mais perturbadoras e definitivas já escritas. Bem-sucedido, herdeiro de uma ampla propriedade e com uma família estável, ainda assim o escritor não estava feliz: era a conversão iniciada anos antes, exigindo novos questionamentos e transformações.
Desencantado com a Igreja Ortodoxa Russa, Tolstói adotou gradativamente uma versão ascética e anarquista do cristianismo, na qual a mensagem de Cristo ganha um peso, acima de tudo, filosófico e moral. Seu desapego aos dogmas, explicitado em obras como Uma confissão (1882) e O reino de Deus está em vós (1894), fez com que ele fosse excomungado em 1901. O czarismo também passou a monitorar de perto o escritor, temendo que suas ideias animassem uma seita ou levante popular. Pensamentos que, de fato, influenciaram inúmeras pessoas - entre elas, o ativista indiano Mahatma Ghandi, que trocou correspondências com Tolstói e teve as visões de resistência não violenta ao mal do autor russo como uma de suas principais inspirações.
No fim de sua vida, a conversão de Tolstói parecia completa, muito embora (ou talvez por isso mesmo) cada vez mais desligada do mundo. Seguia uma agenda rígida, delimitando tudo que faria com grande antecedência, e desapegou-se cada vez mais das coisas materiais - o que causou graves confrontos com sua esposa, que se recusava a permitir que Tolstói doasse tudo que possuía. Por fim, vestindo apenas as roupas de camponês que tinham se tornado uma constante em seus últimos anos, Liev Tolstói abandonou o lar sem despedir-se, em uma noite de inverno de 1910.
Morreu cerca de um mês depois, aos 82 anos, em 20 de novembro daquele ano. Foi encontrado na estação de trem de Astapovo, sofrendo de pneumonia; diz-se que, em suas últimas horas, pregou não-violência e amor cristão aos passageiros, e que teria pedido aos médicos que não perdessem tempo com ele, já que vários camponeses precisavam de auxílio mais urgente. Consagrado e admirado pelo mundo, Liev Tolstói morreu descalço, sem um tostão, sem curvar-se a governos e poderes - fiel, enfim, à dolorosa epifania diante da guilhotina, numa manhã de Paris.
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