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Memória

- Publicada em 17h21min, 25/08/2020.

Histórias de Julio Cortázar falam ao espírito dos exilados

Na última visita a Buenos Aires, em 1983, escritor foi ignorado pelas autoridades

Na última visita a Buenos Aires, em 1983, escritor foi ignorado pelas autoridades


DANI YAKO/CLARÍN/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
Julio Cortázar é um escritor de exílios. O autor argentino, um dos mais destacados nomes da literatura fantástica do continente, talvez pudesse dizer de si mesmo que estava fora de casa desde que nasceu: filho de cidadãos argentinos, veio ao mundo em 26 de agosto de 1914 na cidade de Bruxelas, na Bélgica, onde seu pai desempenhava tarefas diplomáticas.
Julio Cortázar é um escritor de exílios. O autor argentino, um dos mais destacados nomes da literatura fantástica do continente, talvez pudesse dizer de si mesmo que estava fora de casa desde que nasceu: filho de cidadãos argentinos, veio ao mundo em 26 de agosto de 1914 na cidade de Bruxelas, na Bélgica, onde seu pai desempenhava tarefas diplomáticas.
Uma chegada que acabou sendo presságio de sua vida: de seus 69 anos de vida, apenas 31 foram vividos no país que considerava seu, e essa eterna sensação de não estar no lugar certo acabou sendo uma das forças motrizes de uma escrita intensa, aguda e singular.
Regressou à Argentina com os pais aos cinco anos de idade, depois de períodos na Suíça e Espanha. Menos de um ano depois do retorno, o pai abandonou a família para nunca mais ser visto.
Da infância, ficou a lembrança das doenças frequentes e a paixão pelo francês Julio Verne, apresentado a ele por sua mãe e que sempre listou como uma de suas influências máximas.
Pressionado pelos peronistas, com os quais teve numerosas divergências políticas, Cortázar deixaria a Argentina em 1951, indo morar em Paris. À época, tinha acabado de lançar seu primeiro volume de contos, Bestiário.
Embora já escritor de grande capacidade em seu país natal, parece que a distância da pátria disparou em Cortázar estranhos mecanismos criativos. Afinal, foi durante sua longa estada na França, onde começou a sustentar-se como tradutor para a Unesco, que sua obra literária ganhou contornos realmente impressionantes, marcados pelo surrealismo e pela intromissão do fantástico em cenários e acontecimentos típicos do cotidiano.
Os romances de Cortázar subvertem a estrutura narrativa de forma não raro desconcertante. Os capítulos de Jogo da amarelinha (1963) podem ser lidos tanto na ordem publicada quanto em um espírito não-linear, dependendo de como o leitor prefere fazer a jornada.
A partir de uma ideia de romance sugerida no capítulo 62 desse livro, surgiu uma obra ainda mais ousada: 62/ Modelo para armar (1968) não tem estrutura prévia, uma trama definida ou mesmo qualquer relação óbvia entre os personagens. Boa parte dos sentidos ocultos precisam ser decifrados - ou mesmo inventados - pela própria pessoa que lê. Por exemplo, a ação se passa nas cidades de Paris, Viena e Londres, mas nunca se sabe exatamente onde as personagens estão, e o fato de falarem em línguas diferentes a cada momento pode ser um indicativo de sua localização naquela cena específica, ou não.
Mesmo de longe, Julio Cortázar nunca se alienou das convulsões políticas na América Latina. Ao mesmo tempo, jamais abriu mão da independência intelectual. Tornou-se apoiador de Fidel Castro após visitar Cuba em 1963, mas se indispôs com o regime após questionar a prisão do poeta cubano Heberto Padilla. Também demonstrou apoio aos sandinistas na Nicarágua, e chegou a visitar o presidente chileno Salvador Allende em 1970, anos antes do golpe que instituiria a ditadura de Augusto Pinochet.
Com os regimes militares e seus crimes, sempre foi implacável. Histórias como Segunda vez, conto publicado em Alguém que anda por aí (1977), e a novela O livro de Manuel (1973) trazem, em meio ao realismo fantástico característico, uma dura denúncia das torturas e desaparecimentos forçados promovidos pelo general Jorge Rafael Videla. De fato, o escritor não poderia ter voltado à Argentina durante a última junta militar nem mesmo que quisesse: entre 1976 e 1983, sua entrada no país era banida por decreto, devido a seus "antecedentes ideológicos marxistas".
Uma vez recuperada a democracia em sua Argentina natal, regressou ao país uma vez mais em dezembro de 1983, depois de 10 anos distante. A visita acabou sendo emblemática: foi ignorado pelas autoridades, que não fizeram qualquer tipo de preparativo para recebê-lo, mas acabou recebendo uma calorosa homenagem por parte do povo, que o reconhecia nas ruas e chegava a fazer filas para cumprimentá-lo. Foi o último reencontro: faleceu meses depois, em 12 de fevereiro de 1984, aos 69 anos de idade.
A causa de sua morte acaba, de certo modo, trazendo os elementos nebulosos de boa parte de sua literatura. O atestado de óbito fala em leucemia, mas há suspeitas de que tenha contraído HIV em uma transfusão de sangue, o que teria disparado um quadro não diagnosticado de Aids. Um argentino que nasceu fora da Argentina, viveu e morreu fora da Argentina - mas que fez de seu eterno distanciamento uma força criativa, com histórias que seguem falando ao espírito dos exilados (reais e metafóricos) de todo o mundo.
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