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Memória

- Publicada em 20h32min, 19/08/2020.

Genial e polêmico, Nelson Rodrigues completaria 108 anos no domingo

Escritor brasileiro faleceu em dezembro de 1980, em decorrência de complicações cardíacas

Escritor brasileiro faleceu em dezembro de 1980, em decorrência de complicações cardíacas


ARQUIVO/AGÊNCIA ESTADO/AE/JC
Igor Natusch
Um tarado. Imoral. Sem vergonha. Lascivo. Pornográfico. Esses e muitos outros adjetivos pontuaram a carreira do dramaturgo, escritor e jornalista Nelson Rodrigues - alguém que, curiosamente, sempre se colocou como conservador e gostava de provocar os adversários políticos, chamando a si mesmo de reacionário.
Um tarado. Imoral. Sem vergonha. Lascivo. Pornográfico. Esses e muitos outros adjetivos pontuaram a carreira do dramaturgo, escritor e jornalista Nelson Rodrigues - alguém que, curiosamente, sempre se colocou como conservador e gostava de provocar os adversários políticos, chamando a si mesmo de reacionário.
Pretensos xingamentos que, verdade seja dita, não pareciam ofender tanto assim o genial autor, que completaria 108 anos de nascimento no próximo domingo, dia 23 de agosto: ele mesmo gostava da expressão "anjo pornográfico", na qual identificava a disputa entre pureza e perversão que, em sua visão, sempre girou a grande engrenagem do mundo.
"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura", disse Rodrigues. "Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou - e sempre fui - um anjo pornográfico."
Do lado de fora do quarto, olhando para a safadeza que rolava do lado de dentro, Nelson Rodrigues escreveu obras que revolucionaram a dramaturgia brasileira. Sua segunda peça, Vestido de noiva, é amplamente reconhecida como marco inaugural do teatro moderno brasileiro: o uso de gírias urbanas, o realismo sem disfarces e o uso de três planos narrativos (mundo "real", memórias e alucinações) causaram enorme impacto em tudo que viria depois.
Obras marcantes da 'tragédia carioca' como Os sete gatinhos, O beijo no asfalto e Toda nudez será castigada eram tão revolucionárias quanto implacáveis com a sordidez e hipocrisia da boa família brasileira - uma característica que, é claro, ajuda a explicar muitos dos termos amargos citados no começo da matéria.
Da tragédia humana Nelson entendeu, desde jovem. Nascido no Recife, em 1912, mudou-se muito jovem para o Rio de Janeiro. Ainda adolescente, começou a trabalhar no jornal A Manhã, de propriedade de seu pai Mário. Lá, atuou na seção de polícia; mais tarde, iria para o periódico Crítica, outro projeto da família. Em fins de dezembro de 1929, viveu um desastre familiar em plena redação: após ser acusada de adultério em uma matéria do jornal, a escritora e jornalista Sylvia Thibau foi à redação e matou com um tiro Roberto Rodrigues, irmão de Nelson e que atuava como ilustrador.
O então jovem de 17 anos estava em outra sala, fazendo um lanche; em citações futuras, sempre recordou o barulho do tiro, muito mais alto do que poderia ter imaginado nas coberturas policiais.
No rumoroso julgamento que se seguiu, Sylvia acabou absolvida, com os julgadores concluindo que o crime ocorreu sob efeito de forte emoção. Devastado pela perda do filho de 23 anos, Mário Rodrigues afundou no álcool e morreu poucos meses depois.
A tragédia deu início a um período de dureza financeira e pessoal, que só chegaria ao fim quando Vestido de noiva chegou ao palco, em 1943. À época, o autor tinha tão pouco dinheiro que não mandava as roupas à lavanderia, reutilizando-as até que ele mesmo achasse o cheiro insuportável. A aclamação da estreia, no grandioso Theatro Municipal do Rio de Janeiro, foi um ponto de virada em sua vida e sua carreira. O escritor de folhetins (sob o agora lendário pseudônimo Suzana Flag), o cronista de futebol apaixonado pelo Fluminense, as inesquecíveis histórias da série A vida como ela é - todos esses aspectos ajudaram a consolidar a imagem do escritor genial, capaz de falar da sociedade sem condescendência, mas sem abrir mão do lirismo.
Considerando a falta de pudores em meter o dedo na ferida, além do erotismo sempre presente, não surpreende que Nelson Rodrigues tenha tido problemas com as autoridades. Ele mesmo se autoproclamava o escritor mais censurado do Brasil: a peça Álbum de família, com seus retratos crus de incesto, pedofilia e estupro no coração de uma tradicional família carioca, foi publicada em 1944, mas só pôde ser encenada mais de 20 anos depois.
Teve problemas também com a ditadura militar, que muito defendeu de início. Para ele, que detestava os "vermelhos" acima de tudo, o regime de exceção era necessário para proteger o País - e os relatos de tortura, desmentidos cara a cara pelo próprio general Médici, uma mentirada inventada por comunistas. As coisas mudaram quando seu próprio filho, Nelsinho, foi preso e torturado pelos militares em 1977. Além de torná-lo em defensor da anistia nos últimos anos de vida, o sofrimento do filho esquerdista o levou a retomar o relacionamento com Elza Bretanha, sua esposa por quase 25 anos e de quem tinha se separado mais de uma década antes.
O anjo sem vergonha e inclinado aos temas sórdidos faleceu em 21 de dezembro de 1980, em decorrência de complicações cardíacas. Fiel ao ideal conservador, e contradizendo os críticos: em um ambiente familiar feliz, deixando amorosas saudades na esposa e nos filhos.
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