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Memória

- Publicada em 20h33min, 05/08/2020. Atualizada em 13h07min, 06/08/2020.

Sambista Adoniran Barbosa nasceu há 110 anos, em 6 de agosto

Com nome original João Rubinato, artista cantou o povo paulistano como ninguém

Com nome original João Rubinato, artista cantou o povo paulistano como ninguém


PANDORA FILMES/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
João Rubinato foi muito bom em muitas coisas, mas a sua especialidade parece ter sido mesmo a de criar personagens. Não que falar de pessoas inventadas seja algo fora do comum no mundo do samba, mas é difícil pensar em alguém que tenha imaginado figuras tão reais, conectadas ao povo, tão divertidas e comoventes em suas canções. Tão bem sabia criar pessoas inesquecíveis que criou uma para si mesmo: afinal, é pelo nome Adoniran Barbosa que esse compositor, intérprete, comediante, locutor e radioator entrou para a história da cultura brasileira.
João Rubinato foi muito bom em muitas coisas, mas a sua especialidade parece ter sido mesmo a de criar personagens. Não que falar de pessoas inventadas seja algo fora do comum no mundo do samba, mas é difícil pensar em alguém que tenha imaginado figuras tão reais, conectadas ao povo, tão divertidas e comoventes em suas canções. Tão bem sabia criar pessoas inesquecíveis que criou uma para si mesmo: afinal, é pelo nome Adoniran Barbosa que esse compositor, intérprete, comediante, locutor e radioator entrou para a história da cultura brasileira.
Nascido há 110 anos, no dia 6 de agosto de 1910, ele é ainda hoje um dos mais populares nomes do samba brasileiro - uma posição pela qual ele lutou bastante, e que soube muito bem valorizar.
Para não deixar a data passar em branco, a cervejaria Eisenbahn promoverá o lançamento de 11 canções inéditas de Adoniran, que ficarão disponíveis para audição na plataforma Spotify. O elenco das gravações é de peso: nomes como Elza Soares, Zeca Baleiro, Di Melo, Francisco El Hombre, Rubel e Amanda Pacífico estão envolvidos no projeto, com produção musical de Lucas Meyer.
Para entender o povo, é preciso estar no meio dele. E o futuro Adoniran certamente foi um homem do povo, praticamente desde o berço. Sétimo filho de uma família de imigrantes italianos, mudou-se várias vezes, no embalo das tentativas de encontrar sustento, e fez de tudo um pouco: entregou marmitas, trabalhou carregando vagões de trem, foi garçom, encanador, vendedor de meias, metalúrgico.
Desde cedo, contudo, almejou uma carreira no rádio, grande meio de comunicação do País entre os anos 1930 e 1940 - e usou muito do que viu e aprendeu nesses anos correndo atrás da máquina para criar figuras difíceis de esquecer. Incluindo, é claro, ele mesmo. O Adoniran pegou emprestado de um frequente colega de boemia, e nunca devolveu; o sobrenome escolheu como homenagem ao cantor Luis Barbosa, um de seus artistas favoritos. "João Rubinato não é nome de sambista", justificou mais tarde, não sem uma boa dose de razão.
Depois do primeiro sucesso em São Paulo, no show de calouros da Rádio Cruzeiro do Sul, foi quase uma década rodando por emissoras até entrar na Record, em 1941, como comediante no programa Serões Domingueiros. Em parceria com o produtor e roteirista Osvaldo Moles, desenvolve figuras que entrariam na mente e no coração dos ouvintes, como o judeu pão-duro Moisés Rábinovic, o malandro Zé Cunversa e o galã francês Jean Rubinet. O mais marcante deles talvez tenha sido o sambista Charutinho - que, curiosamente, acabou emprestando um pouco de si ao próprio Adoniran, que vinha compondo sambas desde os anos 1930.
Em suas músicas, ele retratou o cotidiano da São Paulo do povão, das pessoas que correm atrás da máquina e passam perrengue todos os dias. Usou o linguajar das vilas e dos bairros de origem italiana, cheio de pretensos erros de português, e fez uso de personagens reais ou inventados em profusão, transformando seus sambas em verdadeiras crônicas do lado pobre da cidade grande.
O primeiro sucesso veio com Saudosa maloca, escrito em 1951 e que estourou (ironicamente, primeiro no Rio de Janeiro) quatro anos depois, na regravação dos Demônios da Garoa. Depois viriam músicas como Samba do Arnesto, Trem das onze e Tiro ao álvaro - composta em parceria com Moles lá em 1960, mas censurada pela ditadura por "falta de gosto" e só eternizada em disco 20 anos depois, em interpretação de Elis Regina.
Durante um bom tempo, suas composições receberam algumas críticas - em geral frágeis, é verdade, mas ainda assim dignas de nota. A principal delas era pelo uso de uma linguagem deliberadamente "errada" para os padrões da norma culta: para os detratores, ele estava fazendo um elogio à ignorância. A resposta de Adoniran era simples: "É assim que o povo fala". Quando queria encerrar de vez o assunto, lançava mão de uma frase definitiva, que nunca perdeu a força mesmo depois de repetidamente citada: "Pra falar errado, é preciso saber falar errado. Se não souber falar errado, fica quieto".
Tinha toda a razão, e hoje é difícil encontrar quem diga algo em contrário. O legado do artista (que, além do dial e das rodas de samba, também alcançou espaços como o cinema e a tevê) foi alvo do documentário lançado no início deste ano, Adoniran - Meu nome é João Rubinato, dirigido por Pedro Serrano, que mostra uma figura séria, até certo ponto melancólica e introspectiva. Uma abordagem que desperta a reflexão: onde fica o criador em meio à duradoura genialidade de suas criações? Em meio a esses personagens todos, João Rubinato teve o bom senso de ficar em um canto mais distante - e é por meio deles que alcançou uma poderosa permanência na mente de brasileiros e brasileiras.
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