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Música

- Publicada em 16h27min, 02/08/2020.

Estabelecida em São Paulo, Camila Toledo canta a própria história

Voz em ascensão na arte gaúcha, ela estuda enquanto não pode remarcar shows pela crise da pandemia

Voz em ascensão na arte gaúcha, ela estuda enquanto não pode remarcar shows pela crise da pandemia


MARLON LAURÊNCIO/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
Para Camila Toledo, a carreira musical surge como um passo decisivo na direção da própria história. Ela mesma diz que é uma cantora profissional "dos 30 anos em diante", tendo estado muito perto de seguir uma trilha bem diferente em sua vida. E isso que não faltava gente ligada à música na família. Afinal, seu avô foi músico atuante na noite porto-alegrense dos anos 1950 - mas não se pense que essa experiência abriu um caminho óbvio para a futura cantora.
Para Camila Toledo, a carreira musical surge como um passo decisivo na direção da própria história. Ela mesma diz que é uma cantora profissional "dos 30 anos em diante", tendo estado muito perto de seguir uma trilha bem diferente em sua vida. E isso que não faltava gente ligada à música na família. Afinal, seu avô foi músico atuante na noite porto-alegrense dos anos 1950 - mas não se pense que essa experiência abriu um caminho óbvio para a futura cantora.
"Enquanto eu crescia, ele fazia questão que eu me envolvesse com qualquer coisa, menos música, porque ele achava que era uma vida muito difícil. Mas acho que os genes fizeram com que eu não conseguisse fugir", diz Camila, dando uma risada.
Na verdade, a decisão aparentemente tardia da gaúcha pela carreira musical veio a partir do falecimento do avô, em 2012, e do pai de Camila, no ano seguinte. "Eu venho de uma família negra de classe média, e eles tinham uma preocupação muito grande de que eu tivesse segurança financeira, que eu fosse para a faculdade, que eu buscasse uma vaga no serviço público. Enquanto eles estavam vivos, eu acabei abraçando essa busca por segurança".
Quando os dois partiram, a mente de Camila "virou a chave". "Acho que me dei conta de que, se eu deixasse minha disposição em investir nisso para outra hora, talvez isso nunca acontecesse. Eu entendo que viver nessa segurança era muito importante para eles, mas senti que, talvez, eu pudesse tentar algo diferente."
Desde então, a vida musical de Camila Toledo é uma seta que aponta para cima, unindo empoderamento, pertencimento e descoberta artística. Caiu na estrada com a MotherFunky, banda dedicada à black music brasileira e internacional, além de liderar shows tributo a nomes como Tim Maia e Billie Holiday. Além dos palcos, ela idealizou e produziu o festival NosOutras, um esforço coletivo de bandas formadas por mulheres, e engajou-se no Coletivo Nimba, que reúne mulheres negras conectadas ao mundo da arte.
O surgimento aparentemente tardio de Camila na cena, como aponta a própria, está longe de ser uma exceção. "Se a gente pensar em mulheres negras significativas na música e na arte, há muitos casos parecidos. Quanto tempo levou para a Conceição Evaristo lançar um livro? Para a Juçara Marçal ou a Sharon Jones despontarem como cantoras? É algo bem mais comum do que parece, vir de uma família negra e viver muito tempo sem se permitir sonhar", acentua.
Redescobrir histórias assim é parte fundamental da banda Camila e A Ponte, que traz versões jazzísticas para artistas negras dos mais diferentes estilos, do Brasil e do exterior. "Sempre me perguntei porque as pessoas na minha volta tinham crescido ouvindo música brasileira e eu não. Por que na minha casa tinha Stevie Wonder e não tinha Caetano Veloso, tinha Diana Ross e não tinha Elis (Regina)? Hoje sinto que era meio silenciosa essa ausência de identificação além do samba para as pessoas negras. Fora do samba, a referência de pessoas negras bem-sucedidas estava na música norte-americana, desde os anos 1970", reflete.
Assim, Camila e A Ponte é a chance de trazer para o centro do palco uma riqueza musical que, em vários casos, passa quase despercebida. "Começou a rolar todo um processo antropofágico: quem sabe não rola colocar uma coisa meio Muddy Waters numa música da Sandra de Sá?", exemplifica. "Trazer nomes como Ludmilla, Dolores Duran e Dona Ivone Lara, contar a história delas com uma linguagem (jazz) que é apropriada, que tem essa origem negra, é um processo muito legal e enriquecedor, inclusive para mim mesma, como artista."
A jornada era ascendente, e não há motivos para imaginar que não continuará sendo. Mas a pandemia surgiu em uma hora das mais inadequadas: recém-estabelecida em São Paulo, Camila tinha vários shows agendados e trabalhava pesado para construir uma rede de contatos na cena local. "Me deu uma travada legal", admite. Os dias vem sendo dedicados a aulas de teclado, ao trabalho em novas composições e às aulas de pós-graduação em canção popular na Faculdade Santa Marcelina, que devem ser retomadas on-line a partir de agosto. "Decidi focar em coisas que possam fazer de mim uma artista mais qualificada quando tudo isso passar", afirma.
Uma disposição que a faz ver com desconfiança algumas febres dos dias de isolamento, em especial as lives. "Para mim, as lives são um sucateamento para o artista independente. Muitas vezes, é um exercício de mendicância: colocar um código QR de uma conta esperando que as pessoas contribuam, sem criar em quem está assistindo uma responsabilização pela experiência", dispara. "É preciso que as pessoas parem de glamourizar o artista como um dispositivo divino, que vive de luz, não tem contas para pagar e que se diverte para trabalhar. Acho que, aos poucos, todo mundo está se dando conta de que é preciso estabelecer um limite, senão os negócios artísticos vão todos por água abaixo."
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