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música

- Publicada em 20h04min, 28/07/2020. Atualizada em 20h03min, 28/07/2020.

Dona Conceição denuncia racismo e violência contra a juventude negra

Cantor, percussionista, compositor e poeta de Alvorada lança clipes de singles neste ano

Cantor, percussionista, compositor e poeta de Alvorada lança clipes de singles neste ano


/LUIS FERREIRAH/DIVULGAÇÃO/JC
Roberta Requia
O filho de Dona Vera e Seu Conceição é um dos nomes da música rio-grandense que denuncia o racismo e a violência contra a juventude negra. John Conceição tem 30 anos e é cantor, percussionista, compositor e poeta. Seu nome artístico, Dona Conceição (que pode confundir quem pense no gênero feminino à primeira vista), vem da união dos nomes de seus pais. "Em relação a equívocos eu levo muito de boa, acho que é um privilégio ser confundido com uma mulher e causar essa surpresa, por si só, já é legal. Enquanto artista, gosto que o público repense e refaça as maneiras de ver o mundo", revela o cantor em entrevista ao Jornal do Comércio.
O filho de Dona Vera e Seu Conceição é um dos nomes da música rio-grandense que denuncia o racismo e a violência contra a juventude negra. John Conceição tem 30 anos e é cantor, percussionista, compositor e poeta. Seu nome artístico, Dona Conceição (que pode confundir quem pense no gênero feminino à primeira vista), vem da união dos nomes de seus pais. "Em relação a equívocos eu levo muito de boa, acho que é um privilégio ser confundido com uma mulher e causar essa surpresa, por si só, já é legal. Enquanto artista, gosto que o público repense e refaça as maneiras de ver o mundo", revela o cantor em entrevista ao Jornal do Comércio.
Residindo em Alvorada desde pequeno, seu trabalho e suas inspirações sempre refletiram sua realidade na periferia da Região Metropolitana de Porto Alegre: "Uma grande parte da minha formação, enquanto sujeito, veio da minha base; sou nascido dentro de um terreiro de batuque de uma família negra, isso, sem dúvida, me ajudou muito na construção de um imaginário. E esse processo vivido na infância, consequentemente, me deu a capacidade de construir minhas narrativas", conta John. Ainda jovem, decidiu que deveria levar a música a sério quando fundou com um grupo de amigos o projeto social Nação Periférica, para lecionar música e percussão a crianças e jovens em situação de vulnerabilidade. "Acho que, nesse momento, entendi que deveria encarar a arte como profissão. Eu tinha 15 anos na época, no ano de 2005", reflete.
Como a grande maioria dos artistas, seu cronograma profissional de 2020 foi alterado por conta da pandemia. Mesmo com shows cancelados e algumas gravações adiadas, Dona Conceição se prepara para o lançamento de novos singles ainda neste ano. Após seu álbum de estreia Asé de Fala, de 2019, ele se organiza para retomar as gravações e produções de seu próximo disco, Samba de morte, contemplado pelo edital do projeto Tem Preto no Sul.
Porém, a morte abordada no álbum não vem da pandemia causada pela Covid-19. Em seu segundo trabalho de estúdio, Dona Conceição disserta sobre a morte como um processo natural da vida, transformado em um problema social através do genocídio da população negra. "A morte é um movimento necessário na nossa evolução, enquanto seres. O problema está em quem mata, e no caso da morte negra, o racismo é o epicentro do problema", declara o cantor.
Ao mesmo tempo que cita a morte como um acontecimento parte do processo natural da vida dentro da cosmovisão africana, Dona Conceição realça a morte da população negra no Brasil como um problema social a ser enfrentado e discutido: "O grande problema não está na morte, mas em quem mata. E é sobre isso que o Samba de morte fala. Essa perspectiva de um homem negro, nascido em uma periferia, batuqueiro, de religião de matriz africana, e como isso me bate".
Seu álbum problematiza não a morte, mas sim quem a executa: "Quando a gente coloca a morte dentro desse lugar social que se vive no Brasil, enquanto um instrumento de dor, de manutenção de poder, pensamos em um monte de questões que são urgentes para serem faladas. Falar sobre isso é um assunto muito delicado para mim, um assunto que me dá medo. Então, acho que é um desafio enquanto artista. Sempre me coloquei disposto a desvendar sobre essas coisas", conta.
Enquanto Samba de morte não chega, ele se prepara para outros lançamentos, alguns já gravados. Seu próximo clipe, da música Psicografia popular, foi feito em parceria com Gutcha Ramil e Fabrício Gambogi, e gravado na Vila Bom Jesus, em Porto Alegre. Uma composição que nasce de sua vontade de debater sobre a gentrificação das cidades, a precarização dos bairros pobres e de sua própria vivência: "É uma música minha e inédita, e esse projeto foi muito na perspectiva de tentar me exercitar em outras maneiras de composição e de arranjo".
Ele completa: "Moro em Alvorada, que é uma cidade constituída por pessoas que foram deslocadas do Centro ou vieram do Interior para cá e acabaram não tendo condições de ter a sua casa. Foram sendo jogadas para longe. Essa é uma música que fala sobre isso". Ainda sem data definida, o vídeo deve ser lançado em setembro.
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