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cinema

- Publicada em 16h41min, 23/07/2020. Atualizada em 20h40min, 23/07/2020.

Novo filme de Maria Augusta Ramos entra diretamente em streaming

'Não toque em meu companheiro' resgata movimento sindicalista bancário dos anos 1990

'Não toque em meu companheiro' resgata movimento sindicalista bancário dos anos 1990


NOFOCO FILMES/DIVULGAÇÃO/JC
Caroline Zatt da Silva
Reconhecida documentarista com atuação em temas políticos, Maria Augusta Ramos lança mais um título: Não toque em meu companheiro. O longa estreou direto nas plataformas de streaming NetNow, Oi Play, Vivo Play, FilmeFilme e Looke. A produção é da NOFOCO Filmes em parceira com a Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), licenciada pelo Canal Brasil.
Reconhecida documentarista com atuação em temas políticos, Maria Augusta Ramos lança mais um título: Não toque em meu companheiro. O longa estreou direto nas plataformas de streaming NetNow, Oi Play, Vivo Play, FilmeFilme e Looke. A produção é da NOFOCO Filmes em parceira com a Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), licenciada pelo Canal Brasil.
O documentário reconstrói uma luta histórica do sindicalismo brasileiro, no início dos anos 1990, quando os trabalhadores da Caixa Econômica Federal se mobilizaram pela reintegração de 110 colegas demitidos injustamente após uma greve da categoria, pagando seus salários durante um ano até sua readmissão - fato inédito para o período. Ao reencontrar esses trabalhadores hoje, o filme traça um paralelo entre o período Collor, com suas medidas severas de redução do Estado, e o atual governo federal, que inaugura um novo ciclo neoliberal no País. Conforme a diretora, o filme propõe uma reflexão sobre as relações atuais no mundo do trabalho, nesse cenário de crescente redução de direitos dos empregados.
Maria Augusta conta que a oportunidade de filmar sobre esse cenário coletivo dos bancários surgiu através de um convite da Fenae, federação que reúne as associações de trabalhadores da Caixa Econômica. "Foi através deles que eu soube dessa luta importante do sindicalismo no Brasil. Achei que essa história de solidariedade deveria ser contada. Sou muito grata a Fenae pelo convite e pelo profundo respeito ao meu trabalho. Tive liberdade total para realizar o filme que desejava." 
A primeira parte do documentário, com largo uso de imagens de arquivo da época, remonta ao cinema operário brasileiro (representado pelos cineastas Leon Hirszman, Roberto Gervitz, Renato Tapajós, João Batista de Andrade) do final dos anos 1970 e início da década de 1980. Esses diretores construíram a tradição de documentar movimentos grevistas, os quais foram determinantes para a construção de imagem pública de um presidente brasileiro da era recente: Luiz Inácio Lula da Silva. Em Porto Alegre, o movimento sindicalista posterior, já envolvendo os bancários, despontou outro expoente político local: Olívio Dutra.
 
Segundo Maria Augusta, o trabalho desses diretores foi fundamental para termos hoje a dimensão da importância que foi a luta operária nos anos 1970 e 1980, "ajudando a construir a imagem daquele momento. As formas de organização e luta dos trabalhadores serão sempre temas importantes para o documentário, que está sempre atrás de narrativas que pouco ou nada interessam aos grupos hegemônicos de poder". Sobre o material histórico utilizado em Não toque em meu companheiro, a cineasta destaca o trabalho do arquivo do sindicato dos bancários, "que guardou e digitalizou anos de luta, constituindo esse acervo onde o pesquisador do filme Zeca Ferreira encontrou imagens incríveis daquela época".
Em uma comparação com o momento atual, o longa colocar as gerações de bancários daquele passado resgatado com os jovens em atuação hoje frente a frente em dinâmicas coletivas que foram gravadas. Além disso, outro traço de atualidade do documentário que se inicia com a premissa de narrar um período histórico é o irônico espelho do Governo Collor com o Governo Bolsonaro – sintetizada na fala da pesquisadora Marilena Chauí, escritora e filósofa brasileira, professora emérita de Filosofia Política e Estética da Universidade de São Paulo.
De acordo com a documentarista, foi um registro de uma palestra realizada dentro de um seminário na PUC, em São Paulo: "Já estávamos em contato com a professora Marilena, que tem uma leitura importante tanto do momento político do Brasil quanto da luta dos trabalhadores. Quando soubemos do evento, fomos até lá filmar e ela nos presenteou com aquela fala traçando paralelos entre os períodos Collor e Bolsonaro, especialmente no que diz respeito à perda de direitos".

Diretora de trajetória diferenciada no documentário

Maria Augusta Ramos espera que seus filmes cumpram papel fundamental de lugar de memória
Maria Augusta Ramos espera que seus filmes cumpram papel fundamental de lugar de memória
ANA PAULA AMORIM/DIVULGAÇÃO/JC
Cineasta reconhecida internacionalmente, Maria Augusta Ramos teve filmes premiados em diversos festivais. Seu título anterior mais recente, O processo (lançado em 2018, recuperando o histórico da crise política que viria a culminar no impeachment de Dilma Rousseff em 2016) teve muita repercussão, estreou na Berlinale e recebeu o Prêmio de Melhor Filme no festival suíço Visions du Reel, no Documenta Madrid e no Indie Lisboa.
Desi (2000) ganhou o Prêmio do Público no IDFA - Festival de Doc de Amsterdã. Justiça (2004) foi premiado como Melhor Filme no Visions du Reel, no Taiwan Int. Doc. Fest e no CPH:Dox Copenhagen. Juízo (2007) recebeu Melhor Filme no One World IFF e o Prêmio Fipresci no DOK Leipzig. Morro dos Prazeres (2013) recebeu os Prêmios de Melhor Direção, Fotografia e Som no 46º Festival de Brasília. Em 2014, a diretora recebeu a Prêmio Marek Nowicki outorgado pela Helsinki Foundation of Human Rights pela sua obra. Futuro Junho (2016) ganhou Melhor Direção no Festival do Rio e Melhor Filme no Janela de Cinema em Recife. 
O card na tela preta com a apresentação “Um filme de Maria Augusta Ramos”, após todo êxito e posicionamento na cinematografia brasileira contemporânea, já é uma marca de uma forma de documentar no País, uma espécie de carimbo de qualidade em se tratando de documentário hoje. Esse modo de filmar no documentário é uma nova escola, após a morte de Eduardo Coutinho, em 2014, que tinha criado um método que levava seu nome na produção nacional. "Fico muito lisonjeada e grata com esse reconhecimento. Fico feliz em saber que as pessoas se identificam com meus filmes. Espero que eles possam cumprir o papel fundamental de lugar de memória", comenta.
A diretora relata que o processo de pesquisa para Não toque em meu companheiro fugiu ao seu tradicional método de trabalho, feito quase sempre da observação de personagens, do seu cotidiano: "Nesse filme, fiz uma entrevista com o economista e professor Luiz Gonzaga Belluzzo. Por achar que era importante construir esse contexto histórico do que havia sido a Era Collor, as opções políticas de então, suas conexões com o momento atual, no ataque a direitos e na retomada de um projeto neoliberal, fiz a opção por usar uma entrevista, além da fala da Marilena Chauí, filmada em um seminário do qual ela participou. Aqui usamos também imagens históricas do movimento bancário nos anos 1990, que encontramos no acervo do sindicato dos bancários, em São Paulo. E tivemos todo o trabalho de pesquisa feito em conjunto com a Fenae, que localizou e reuniu boa parte dos 110 trabalhadores demitidos em 1991, muitos deles sem contato há décadas." 
Maria Augusta também explica sobre a opção de estrear em meio à crise sanitária da Covid-19, diretamente em streaming: "Chegamos a fazer algumas sessões, nas cidades onde filmamos (Londrina, São Paulo e Belo Horizonte), quando fomos atropelados pela pandemia. Rapidamente tivemos de nos adaptar e construir uma estratégia de lançamento e divulgação feita a distância. Acho importante que o filme já esteja disponível para o público porque trata de uma questão urgente e atual que precisa ser debatida".
A notícia sobre um novo filme da documentarista já traz um certo frisson. "Estou em fase de desenvolvimento de novos projetos", limita-se a declarar, sem revelar sobre qual tema está se debruçando no momento, para um futuro longa.
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