Porto Alegre, quarta-feira, 22 de julho de 2020.

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artes visuais

- Publicada em 20h06min, 21/07/2020. Atualizada em 20h04min, 21/07/2020.

Trabalho da porto-alegrense Silvia Brum conquista reconhecimento internacional

Pintora com obra 'Infoxication', da série 'Mimetismos', que atualmente integra acervo do Margs

Pintora com obra 'Infoxication', da série 'Mimetismos', que atualmente integra acervo do Margs


ARQUIVO PESSOAL SILVIA BRUM/DIVULGAÇÃO/JC
Roberta Requia
Sentimentos representados a partir do olhar dão um tom profundo às telas da artista plástica Silvia Brum. Após expor na Fundação Iberê Camargo em 2019 durante a mostra 4 Visões, a pintora participa agora da exposição Madre Tierra - En contra cel racismo y en contra de la violencia, que acontece em Los Angeles.
Sentimentos representados a partir do olhar dão um tom profundo às telas da artista plástica Silvia Brum. Após expor na Fundação Iberê Camargo em 2019 durante a mostra 4 Visões, a pintora participa agora da exposição Madre Tierra - En contra cel racismo y en contra de la violencia, que acontece em Los Angeles.
Uma das cinco participantes selecionadas para representar o Brasil no evento, ela exibe sua tela L'or noir ("ouro negro", em francês). A pintura revela o rosto de uma mulher negra que, orgulhosa e coberta de ouro, encara seus desafios e ao mesmo tempo suas origens étnicas. Além de técnica e pesquisa, os aspectos emocionais e sociais espelham-se nos olhares do trabalho de Silvia Brum.
Quem visualiza sua pintura é imediatamente impactado por olhos observadores, transbordando sentimentos, e que apontam na direção a qual o espectador deve assistir. "Em cada obra, apresento uma personagem, e ela tem alguma coisa a dizer, conforme a temática daquela tela. O olhar é meu instrumento para que essa comunicação aconteça, pois ele fala de forma direta, intensa e universal", revela Silvia em entrevista ao Jornal do Comércio.

Com tela Ouro negro, Silvia foi uma das cinco selecionadas para representar Brasil em Los Angeles
Com tela Ouro negro, Silvia foi uma das cinco selecionadas para representar Brasil em Los Angeles
ARQUIVO PESSOAL SILVIA BRUM/DIVULGAÇÃO/JC
"Quando recebemos um olhar, instintivamente o retribuímos e a comunicação começa. Muitas vezes, trabalho com sentimentos mais intensos, porque a temática que quero abordar naquela peça demanda isso. Mas, outras vezes, gosto de representá-lo apenas pela sua beleza, pois a própria representação dele já é desafiadora e estimulante para mim", complementa.
Praticando o isolamento social, Silvia tem trabalhado intensamente em duas séries de telas. Uma delas, a Janelas vivas, apresenta pessoas delimitadas pelo espaço das aberturas no momento de distanciamento. "A quarentena nos leva a uma interiorização e reflexão inevitáveis. De uma hora para a outra, fomos forçados a lidar com uma situação extrema, e o turbilhão de sentimentos e emoções gerado por ela reflete diretamente no trabalho de um artista."
O segundo conjunto, Mimetismos, vem de antes da pandemia, com a pintora abordando aspectos emocionais e sociais do universo feminino, através de ações que se disfarçam com o fundo da obra: "Ela nasceu de uma vontade de trabalhar as emoções femininas diante de diversas situações. Com o uso da máscara, simbolizo que não estou retratando uma única pessoa e sim um personagem, com o qual muitas mulheres podem se identificar", conta Silvia.
As duas últimas telas da série Mimetismos foram influenciadas pela quarentena: La festa è finita! e Metamorfose. A primeira representa os sentimentos do início do confinamento: a solidão e a perda dos momentos felizes. A segunda, ainda em produção, mostra a transformação interna que o período tem representado: "Ela retrata a transição que estamos sofrendo com essa reclusão e a transmutação que virá. Nela, a personagem olha para uma borboleta que acabou de sair do casulo, tentando antecipar a mudança, olhando para seu próprio futuro".
Para comercializar suas obras, a pintora conta com duas vias de partida: seu Instagram e a parceria com duas galerias de Porto Alegre, a Gravura Galeria de Arte e a Sala de Arte. "Minhas telas não são de execução rápida, preciso de aproximadamente um mês para concluir cada uma e, durante esse período, divulgo as etapas do processo de execução no meu Instagram. Essa divulgação tem sido minha principal ferramenta de vendas, que muitas vezes se dá mesmo antes da obra estar concluída", conta Silvia.
Embora já tenha pintado seu autorretrato, que está pendurado na sala de estar de sua casa, ela conta que seus próprios olhos já não servem mais como inspiração: "Hoje, não tenho interesse em pintar a mim mesma, pois o que mais gosto é desvendar o universo escondido por trás do próximo olhar. O meu não tem muito mais o que me revelar".
O olhar, que comunica e transforma, é o portal de entrada para um universo rico em sentimentos e sensações, guardadas em uma lágrima ou em uma íris de suas telas. "Sempre pintei rostos, mas também já pintei mãos e pés, que considero temas interessantes e expressivos. Mesmo assim, nenhuma temática é tão atrativa pra mim quanto o olhar, que é complexo, desafiador e único em cada momento, e cada pessoa", explica a artista.
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