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- Publicada em 19h42min, 17/07/2020. Alterada em 03h05min, 20/07/2020.

Professor da Pucrs divulga descoberta relevante para história das Missões

Primeira fonte missioneira do Estado foi encontrada na cidade de São Nicolau por Édison Hüttner

Primeira fonte missioneira do Estado foi encontrada na cidade de São Nicolau por Édison Hüttner


THIAGO SILVA/PREF. S. NICOLAU/DIVULGAÇÃO/JC
Roberta Requia
No mês de novembro de 2017, o professor Édison Hüttner, ao entrar em um terreno da Corsan, no município de São Nicolau, realizou uma descoberta de grande importância para a história dos Sete Povos das Missões do Rio Grande do Sul. 
No mês de novembro de 2017, o professor Édison Hüttner, ao entrar em um terreno da Corsan, no município de São Nicolau, realizou uma descoberta de grande importância para a história dos Sete Povos das Missões do Rio Grande do Sul. 
Sem ter a certeza na época, o docente do programa de pós-graduação em História da Pucrs encontrou um verdadeiro sítio arqueológico ao descobrir, embaixo de uma tampa de concreto, vestígios da primeira fonte de água construída pelos jesuítas no Estado, em meados de 1626. O chafariz missioneiro, uma lenda conhecida na região e um importante artefato histórico para o município, para o Estado e até mesmo para o Brasil, começa a reconstruir sua história.
A pequena cidade de São Nicolau, na Região das Missões, possui cerca de 6 mil habitantes e ganhou o status de município apenas em 1966, após ser desmembrada da vizinha São Luiz Gonzaga. São Nicolau do Piratini foi a primeira redução jesuíta do Estado, e algumas ruínas desse povoado que chegou a comportar 8 mil pessoas permanecem como ponto turístico na cidade. O local foi o primeiro povoado com plano de Urbanização do Rio Grande do Sul, com espaços como igreja e ágora: "Naquela época, tinha um arquiteto lá. Onde tem um arquiteto que faz uma igreja, um espaço com convivência, é uma cidade urbanizada. Em Rio Grande, posteriormente, aparece um engenheiro militar", revela Édison Hüttner, que é coordenador do Grupo de Pesquisa em Arte Sacra Jesuítico-Guarani e Luso-brasileiro da Pucrs.
Segundo ele, relatos orais da população indicavam que, no período em que ainda pertencia a São Luiz Gonzaga, as pessoas usufruíam da fonte em períodos de seca na região: "É muito falado na história popular de lá sobre o chafariz jesuíta. Ao mesmo tempo, percebi que depois que a Corsan fechou, parece que foi uma coisa que ficou meio proibida, algo que não era para tocar, porque já era pertencente ao município, que as pessoas não poderiam entrar mais", menciona o professor. O local onde a fonte foi encontrada fica a apenas 423 metros de distância das ruínas que permanecem em pé.
Os primeiros relatos escritos que endossam a existência do chafariz de São Nicolau datam de 1886, quando o escritor Hemetério José Veloso da Silveira escreveu em seu livro As missões orientais e seus antigos domínios: "Um pouco afastado da antiga rua, existia um chafariz no qual a água da vertente era expelida por duas carrancas de jacaré de pedra". Para Hüttner, "foi aí que ele registou o que viria a ser um mito na cidade. Até o momento foi o primeiro registro escrito da fonte. Já é um dado, ter um documento assim. Então, a gente vai montando as peças. Era ali mesmo que estava o chafariz".
O professor foi até o local pela primeira vez em 2017, quando realizava pesquisas em São Nicolau. Ao chegar na fonte, reconheceu diversas pedras missioneiras, feitas de arenito, que evidenciavam a autenticidade da descoberta. "Tenho a ideia de que embaixo da água existam mais peças, mais objetos a serem descobertos", conta Hüttner. Ele retornou ao local, com equipamento de filmagem à prova d'água, em 2019, acompanhado da ex-superintendente do Iphan-RS Juliana Erpen, onde conseguiram visualizar as evidências necessárias por dentro do buraco de entrada da fonte.
Ele acredita que, com escavações apropriadas, muitos outros objetos possam ser encontrados. "Esse chafariz ainda não tinha sido encontrado porque, em geral, essas peças eram feitas de arenito. Provavelmente esse chafariz tinha um anjo, uma cabeça de anjo. Existe essa tradição de anjos nessas fontes, como na de São Miguel. Esse objeto pode estar escavado ali", relata o professor.
As expectativas são de que os trabalhos de limpeza, escavação e pesquisas possam ser iniciados após a pandemia. A ideia é que a fonte possa se tornar mais um atrativo turístico para a pequena São Nicolau. "Temos uma questão histórica muito forte por trás disso. A cidade foi o primeiro dos Sete Povos, logo aquela ali é a primeira fonte missioneira do Estado. Isso também entra na área da história da arquitetura jesuíta e brasileira, na história das fontes sagradas do País", comenta o professor.
Ele frisa a importância da água na cultura missioneira e religiosa, com as fontes sagradas cultuadas em templos do mundo inteiro. "Essa questão do sagrado envolve a questão religiosa, essa ligação muito forte com a fonte, é um presente. Quem passar por São Nicolau, vai poder levar uma garrafa de água".
O fato é que, mesmo ainda fora do alcance do público, a história da descoberta da fonte já foi iniciada. O chafariz de São Nicolau, sempre vivo no imaginário dos moradores, pode voltar à vida cerca de 400 anos depois de sua construção.
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