Porto Alegre, sábado, 18 de julho de 2020.

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Memória

- Publicada em 19h52min, 06/07/2020. Alterada em 19h52min, 06/07/2020.

Trinta anos sem Cazuza, principal figura do rock nacional nos anos 1980

Três décadas após sua morte, o artista segue sendo símbolo de todo o rock brasileiro

Três décadas após sua morte, o artista segue sendo símbolo de todo o rock brasileiro


SOM LIVRE/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
Dizer que Cazuza foi o grande personagem do rock brasileiro nos anos 1980, embora verdadeiro, é quase suave demais. Talvez seja mais correto dizer que Cazuza foi o rock brasileiro daquela década: na música e no visual, na vida e na poesia, o cantor foi capaz de personificar como ninguém uma época fervilhante da cultura brasileira. Falecido há exatas três décadas, no dia 7 de julho de 1990, Cazuza teve cerca de oito anos para mudar o mundo, pelo menos no que diz respeito à sua geração - e aproveitou esse tempo muito bem, podem acreditar.
Dizer que Cazuza foi o grande personagem do rock brasileiro nos anos 1980, embora verdadeiro, é quase suave demais. Talvez seja mais correto dizer que Cazuza foi o rock brasileiro daquela década: na música e no visual, na vida e na poesia, o cantor foi capaz de personificar como ninguém uma época fervilhante da cultura brasileira. Falecido há exatas três décadas, no dia 7 de julho de 1990, Cazuza teve cerca de oito anos para mudar o mundo, pelo menos no que diz respeito à sua geração - e aproveitou esse tempo muito bem, podem acreditar.
Os 30 anos desde a partida de Cazuza serão, como não poderia deixar de ser, marcados por uma série de homenagens. A gravadora Som Livre (que teve o pai de Cazuza, João Araújo, como presidente por quase 40 anos) lançou em abril Faz parte do meu show: Cazuza em bossa, com a presença de Leila Pinheiro, Roberto Menescal e Rodrigo Santos. Também está sendo preparado um álbum com músicas inéditas, elaboradas a partir de poemas deixados pelo artista e com interpretações de Alcione, Caetano Veloso, Baby do Brasil e Bebel Gilberto, entre outros. O projeto, ainda sem data de lançamento em decorrência do novo coronavírus, deve incluir também documentário, podcasts e songbook. O show especial, que também estava no pacote, deve ficar para outra ocasião.
Talvez seja possível dizer que Cazuza colocou-se fora dos padrões desde o início. O registro como Agenor de Miranda Araújo Neto nunca disse nada para ninguém, nem mesmo para o próprio: segundo relatos dos pais, o apelido vem desde antes de o filho único nascer, ao ponto de o próprio Cazuza nem saber direito com que nome tinha sido batizado. Conta-se que o menino chegava a perder chamadas na escola, sem se dar conta que a professora gritando pelo tal Agenor estava, na verdade, falando com ele.
Com um pai produtor musical e uma mãe (Lucinha Araújo) que chegou a tentar a carreira de cantora, foi natural para Cazuza envolver-se com a música desde o início. Começou a escrever letras de música por volta dos sete anos de idade, e trabalhou no departamento artístico da Som Livre - segundo biógrafos, uma tentativa do pai de regrar um pouco a já bastante boêmia rotina do filho adolescente. A entrada de cabeça no mundo do rock aconteceu no final de 1981: por indicação de Léo Jaime, Cazuza fez um teste para o recém-formado Barão Vermelho, entrando para a banda em seguida.
O sucesso viria de forma vertiginosa a partir do terceiro LP, Maior abandonado (1984), e coincidiu com um Brasil que voltava a ser jovem, se desprendendo da ditadura militar rumo a uma explosão de esperança e liberdade. Cazuza era, já então, quase um porta-voz da juventude urbana brasileira. Na primeira edição do Rock in Rio, em janeiro de 1985, o cantor celebrou a eleição de Tancredo Neves ao anunciar uma versão entusiástica de Pro dia nascer feliz, cantada a plenos pulmões por cerca de 200 mil presentes.
Assim como esse Brasil que queria viver tudo que há para viver, Cazuza tinha pressa. Sentiu que não cabia nem mesmo nos limites da banda que ajudou a alçar ao estrelato e, ainda em 1985, mergulhou na carreira solo. Os cinco álbuns lançados em vida colecionaram discos de ouro, trazendo sucessos como Exagerado, O nosso amor a gente inventa, Brasil e Codinome Beija Flor. Gravado durante uma série de shows no Rio de Janeiro, O tempo não para (1988) é até hoje um dos discos ao vivo mais importantes e conceituados da música brasileira.
No entanto, o papel de Cazuza como símbolo de uma geração manifestou-se também na presença terrível do vírus HIV - cujo surgimento encheu de medo a euforia sexual dos anos 1980. Diagnosticado em 1987, após internação para tratar uma pneumonia, viajou mais de uma vez aos Estados Unidos para fazer o então inovador tratamento a base de AZT.
Em fevereiro de 1989, Cazuza declarou publicamente ser soropositivo, o que fez dele o primeiro ídolo brasileiro a admitir ter contraído o vírus. Ainda lançaria um LP duplo (Burguesia, de 1989) antes de falecer, aos 32 anos, em decorrência de um choque séptico causado pela Aids. Desde então, a mãe Lucinha conduz a Sociedade Viva Cazuza, que busca melhores condições de vida para crianças soropositivas.
Cazuza foi enterrado no Cemitério de São João Batista, no Rio. Na lápide, nada de Agenor, de nomes que ninguém conhecia e sobrenomes que pouco têm a dizer. Consta apenas o apelido (ou codinome) que resume toda uma geração, logo acima do título de uma de suas músicas mais famosas: O tempo não para. Não para, não. Mas, em tempos tão difíceis, é bom ter a música e a energia de Cazuza para iluminar o caminho.
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