Porto Alegre, sábado, 18 de julho de 2020.

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Memória

- Publicada em 19h35min, 05/07/2020. Alterada em 17h43min, 06/07/2020.

Um ano da morte de João Gilberto, o pai da bossa nova

Lenda da música popular brasileira, o homem do violão faleceu em 6 de julho de 2019

Lenda da música popular brasileira, o homem do violão faleceu em 6 de julho de 2019


ARI VERSIANI/AFP/JC
Igor Natusch
Muitos trazem como última imagem de João Gilberto a figura reclusa, que se recusava a sair do apartamento em que vivia no Leblon, zona Sul do Rio de Janeiro. Porém, o gênio que revolucionou a música brasileira nos deixou pelo menos duas imagens mais adequadas de si pouco antes de morrer, há exatamente um ano, no dia 6 de julho de 2019.
Muitos trazem como última imagem de João Gilberto a figura reclusa, que se recusava a sair do apartamento em que vivia no Leblon, zona Sul do Rio de Janeiro. Porém, o gênio que revolucionou a música brasileira nos deixou pelo menos duas imagens mais adequadas de si pouco antes de morrer, há exatamente um ano, no dia 6 de julho de 2019.
Em uma delas, publicada nas redes sociais em 10 de junho daquele ano, ele comemorava seu aniversário de 88 anos, cercado de familiares, com a neta Sofia deitada em seu colo. Na outra, obtida pelo jornalista Chico Otávio, ele jantava frutos do mar em um restaurante do Leme, ao lado da companheira Maria do Céu Harris, quatro dias antes de nos deixar rumo ao Universo.
Nos dois casos, surge um João Gilberto abatido pela idade e pela falta de saúde, mas ainda altivo. Cheio de dignidade. Vivo. E extremamente digno é o seu legado, viva está sua herança em praticamente tudo que se fez depois de seu histórico surgimento, em 1959, com o seminal Chega de saudade. Joguemos, então, as polêmicas dos últimos anos para o final do texto, puxando para frente o que de fato importa.
A música sempre esteve com João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, mas levou algum tempo para que ela se revelasse como força de reinvenção. Nascido em Juazeiro, no sertão da Bahia, desde cedo demonstrou jeito para a coisa: conta o biógrafo Ruy Castro que, aos sete anos, o ouvido privilegiado de Joãozinho reclamou de uma nota errada da organista da igreja, mesmo em meio às muitas vozes do coro. Porém, sua primeira experiência como músico profissional, com o conjunto Garotos da Lua, durou pouco tempo, e o primeiro compacto solo, em 1952, não chamou maior atenção.
Foi apenas anos depois (quando, depois de uma curta temporada em Porto Alegre, residia na cidade mineira de Diamantina junto à irmã Dadaínha) que João Gilberto redescobriu sua carreira e a própria música brasileira. Deixando de lado o vozeirão das primeiras gravações, que gerou até comparações com o cantor das multidões Orlando Silva, ele percebeu que, cantando de forma mais suave e próxima da fala, era capaz de oferecer ao violão um espaço harmônico muito maior.
Ao mesmo tempo, trocando os arpejos pelos acordes, João conseguiu dar ao instrumento também um elemento rítmico até então insuspeitado. Era a bossa nova, nascendo no quartinho dos fundos de uma humilde casa de Minas Gerais.
Ao gravar sua lendária versão de Chega de saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, João Gilberto deixou a equipe de estúdio desconcertada: pediu dois microfones, um para sua voz e outro para o violão. O esquema de gravação, hoje óbvio, era um rompimento com a lógica daqueles tempos, na qual a voz estava acima de tudo e pouco importava se o violão ficasse meio sumido. Somando essa sacada aos arranjos ao mesmo tempo intrincados e espaçosos de Tom, surgiu a sonoridade que conquistou o mundo.
Desde o LP que mudou tudo, a jornada de João Gilberto foi uma longa consagração. Escreveu poucas canções, dedicando-se a um duradouro processo de "recomposição" de outros artistas, e nunca deixou de aprimorar a técnica que ele próprio havia criado.
Mesmo com todo esse esforço pessoal, era como se a revolução já estivesse consumada desde o início, e o resto do tempo fosse necessário, acima de tudo, para os devidos aplausos. Inclusive na prática: em 2004, na cidade japonesa de Osaka, o público extasiado precisou de trinta e oito minutos de ovação para sentir ter feito justiça ao que acabara de testemunhar.
A ausência que marcou os últimos anos da vida de João Gilberto teve início, de forma paradoxal, em uma esperança de reencontro. Em 2011, a turnê 80 anos - uma vida bossa nova, celebrando o aniversário do cantor e violonista, tinha datas agendadas em algumas das principais cidades brasileiras. Seriam os primeiros espetáculos após três anos de silêncio. Porém, o show em São Paulo foi adiado sob a alegação de uma gripe, e logo toda a agenda foi cancelada de forma definitiva.
Nos últimos dias, a filha Bebel Gilberto chegou a pedir a interdição do pai, alegando que Maria do Céu estava dilapidando seus recursos e que era impossível controlar sua saúde. Outro filho, João Marcelo, lutou contra o pedido da meia-irmã, gerando uma longa disputa judicial.
Com a família em guerra, João só falava com amigos ao telefone, evitando passeios e visitas. Para muitos, estava senil; talvez, na verdade, apenas quisesse sossego.
Seja como for, um ano após sua morte, João Gilberto segue tão presente quanto na época, e assim deve ser para sempre. Afinal, se você ouve MPB, você ouve João Gilberto - e assim será, enquanto existir música sendo produzida no Brasil.
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