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Música

Notícia da edição impressa de 30/06/2020. Alterada em 30/06 às 09h17min

Enquanto tenta adaptar seus projetos para o ano, Guto Leite escreve novo romance

Ele reflete sobre cena independente, futuro reencontro com o palco e necessidade de criar caminhos

Ele reflete sobre cena independente, futuro reencontro com o palco e necessidade de criar caminhos


CATARSE PRODUÇÕES/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
Antes da chegada da pandemia, o músico, compositor e escritor Guto Leite vinha vivenciando um intenso reencontro com os palcos. Depois de um período longamente dedicado à composição, inclusive cedendo músicas a outros artistas, Guto (que ganhou o Açorianos em 2018 com o disco Dez canções sem as quais você não poderá viver nem mais um segundo) concluiu que era hora de se reinserir no circuito de shows, e dedicou às apresentações boa parte do seu 2019. No novo ano, a ideia era a mesma - ao ponto de desenvolver o projeto Sem sobrenome, com um financiamento coletivo para shows em 10 cidades brasileiras, durante as quais seriam apresentadas e amadurecidas as canções que virariam um novo disco.
Antes da chegada da pandemia, o músico, compositor e escritor Guto Leite vinha vivenciando um intenso reencontro com os palcos. Depois de um período longamente dedicado à composição, inclusive cedendo músicas a outros artistas, Guto (que ganhou o Açorianos em 2018 com o disco Dez canções sem as quais você não poderá viver nem mais um segundo) concluiu que era hora de se reinserir no circuito de shows, e dedicou às apresentações boa parte do seu 2019. No novo ano, a ideia era a mesma - ao ponto de desenvolver o projeto Sem sobrenome, com um financiamento coletivo para shows em 10 cidades brasileiras, durante as quais seriam apresentadas e amadurecidas as canções que virariam um novo disco.
Tudo isso, claro, no mundo de antes do novo coronavírus. No momento em que a Covid-19 virou realidade no Brasil, foi obrigatório repensar tudo. "Começamos a veicular essa campanha (de financiamento) quase exatamente no momento em que surgiu a pandemia. Ficamos muito tempo tentando decidir se seguíamos em frente ou não", lembra. Depois de muita reflexão, a decisão foi por dar continuidade ao projeto. Entre os motivos, a visão de que os shows podem ser importantes para ajudar a colocar a cadeia produtiva da cultura em movimento, no momento em que o vírus nos der uma folga. "Resolvemos manter, mas já tirando do horizonte a ideia de conseguir o valor original, sem querer forçar a barra (nesse sentido)", admite. Atingido mais ou menos um quinto da meta original, boa parte do investimento restante será feito pelo próprio Guto, junto com seu produtor - o que deve acarretar mudanças no total de cidades que serão visitadas com Sem sobrenome.
Outra questão - um tanto evidente, mas talvez ainda mais importante - é que não há ideia de quando os shows poderão, de fato, acontecer. "Foi a minha profissão (ele também é professor do Departamento de Música da Ufrgs) que me permitiu fazer tantos shows. Mais investimos do que arrecadamos, e acho que era esse mesmo o horizonte da cena independente (antes do novo coronavírus). A pandemia não só intensifica o problema, como faz com que ele troque de qualidade", pondera. "De todas as atividades, os espetáculos artísticos com público serão os últimos a voltar. Quando você olha para o horizonte e pensa que seu próximo show vai ser em 2021... Para quem vive disso, é aterrador."
Situação que se complica, na medida em que há pouca coordenação das esferas de poder em torno da situação da classe artística. "Poderíamos argumentar pelo lado humanístico, de que a arte é importante porque nos coloca em contato com a diferença, com formas abstratas de sentir e viver o mundo e por aí vai. Mas, mesmo que argumentássemos apenas do tanto de dinheiro por ano que a cultura movimenta no Brasil etc, o governo teria dificuldade de aceitar. Porque aí existe essa coisa de pensar o artista como um inimigo, em uma espécie de guerra cultural que atrapalha muito neste momento", lamenta.
Quebrar esse ciclo exige, segundo Guto, a disposição de enxergar o cenário tal como ele se coloca. "Alguns contratantes importantes do País já sinalizaram que não vão abrir teatros antes do fim do ano. Na melhor das hipóteses, as coisas vão continuar assim por um ano ou mais", afirma, enfático. "Não tem muito como ficar em silêncio esse tempo todo, e acho que o nosso enigma é como trabalhar esse vazio (da ausência do palco), sem ficar no lugar comum da enxurrada de lives e sem negar o problema, fingindo que logo vai passar. A forma artística também precisa ser produtiva, e estamos tentando encontrar essa forma de dizer."
Enquanto o depois-disso-tudo não chega, Guto Leite vai tentando criar. Morando com a esposa e dois filhos pequenos, de cinco e quatro anos, foi preciso desenvolver uma lógica interna: o músico assume as crianças durante a tarde, incluindo a realização das tarefas escolares, enquanto sua companheira cuida dos pequenos na parte da noite. O artista acaba também levantando mais cedo que todo mundo, por uma boa causa: trabalhar em um romance, que estava em sua mente há anos, e que, agora, decidiu que tinha chegado a hora de virar realidade.
"São tempos muito violentos com as pessoas. É normal que as pessoas não estejam conseguindo fazer nada. A pandemia está longe de ser o melhor momento para começar (um livro), mas a cabeça da gente muitas vezes segue as próprias regras", ri. O enredo costura histórias humanas vividas em diferentes bairros de Porto Alegre, entrelaçadas com um singelo tema central: uma pessoa dentro de um ônibus, que vê um pássaro acompanhando o veículo do lado de fora e passa a refletir sobre os limites da humanidade e as possibilidade de ser alguma outra coisa.
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