Porto Alegre, quinta-feira, 25 de junho de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
quinta-feira, 25 de junho de 2020.
Comentar

Seu comentário está sujeito a moderação. Não serão aceitos comentários com ofensas pessoais, bem como usar o espaço para divulgar produtos, sites e serviços. Para sua segurança serão bloqueados comentários com números de telefone e e-mail.

500 caracteres restantes
Corrigir

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

CORRIGIR

Memória

Notícia da edição impressa de 25/06/2020. Alterada em 24/06 às 19h56min

Grande figura do rock nacional, Raul Seixas completaria 75 anos no domingo

Nascido em 28 de junho de 1945, em Salvador (BA), Maluco Beleza morreu em 1989, em São Paulo

Nascido em 28 de junho de 1945, em Salvador (BA), Maluco Beleza morreu em 1989, em São Paulo


PAULO BOTAFOGO/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
Poucas pessoas no mundo tiveram um enterro tão roqueiro quanto Raul Seixas. O Cemitério Jardim da Saudade, em Salvador (BA), estava lotado de fãs naquele 23 de agosto de 1989, muitos desesperados à beira da histeria pela morte do ídolo. Alguns, por outro lado, acharam que o Maluco Beleza merecia uma homenagem menos tristonha e formal: invadiram a igreja, aos gritos de "viva a Sociedade Alternativa", e colocaram o caixão nas costas, ameaçando levá-lo embora. A ideia, segundo diziam, era levar o cantor para dar um rolê, tomar umas cervejas e fumar uns cigarros naturais antes do reencontro definitivo com o Universo.
Poucas pessoas no mundo tiveram um enterro tão roqueiro quanto Raul Seixas. O Cemitério Jardim da Saudade, em Salvador (BA), estava lotado de fãs naquele 23 de agosto de 1989, muitos desesperados à beira da histeria pela morte do ídolo. Alguns, por outro lado, acharam que o Maluco Beleza merecia uma homenagem menos tristonha e formal: invadiram a igreja, aos gritos de "viva a Sociedade Alternativa", e colocaram o caixão nas costas, ameaçando levá-lo embora. A ideia, segundo diziam, era levar o cantor para dar um rolê, tomar umas cervejas e fumar uns cigarros naturais antes do reencontro definitivo com o Universo.
Segundo o amigo e também músico Marcelo Nova, foi preciso que ele e algumas outras pessoas, aos gritos, demovessem a turma da insólita ideia. Não que, sejamos sinceros, ela fosse de todo disparatada: dona Maria Eugênia, mãe de Raul, admitiu que o filho provavelmente teria adorado aquela bagunça toda, se pudesse ter visto a cena.
Porque uma coisa precisa ser dita: Raul Seixas veio ao mundo para bagunçar as coisas, no melhor sentido. Nascido há 75 anos, mais precisamente em 28 de junho de 1945, o cantor e compositor é amplamente reconhecido como uma das figuras máximas do rock brasileiro, tendo deixado um legado que mistura ironia, contestação, filosofia e misticismo. A devoção dos fãs é quase tão lendária quanto o próprio artista, em uma intensidade que chegou a entrar para o folclore urbano brasileiro: quem não terá ouvindo alguém gritar - ou mesmo terá gritado - o indefectível "toca Raul!" em algum show por aí?
Nascido em uma família de classe média de Salvador, o jovem Raul Santos Seixas nunca teve jeito para a escola: repetiu ano várias vezes, a cabeça absorvida desde a pré-adolescência pelo fascínio do rock. A partir da metade dos anos 1960, o conjunto Os Panteras transformou-se em sensação local, ao ponto de encorajar Raulzito a tentar a sorte musical no Rio de Janeiro. Porém, o único álbum da banda, lançado em 1968 pela prestigiada EMI-Odeon, vendeu pouco à época, e o músico chegou a passar fome antes de, derrotado, voltar brevemente para a Bahia.
Com o apoio do amigo Jerry Adriani, o cantor teria uma segunda chance no Rio, tornando-se produtor e chegando a comandar o projeto Sociedade Grã Ordem Kavernista, que lançou um LP em 1971. O sucesso de duas músicas no Festival Internacional da Canção, em 1972, garantiu um novo contrato com a gravadora Philips - mas foi a partir do segundo álbum solo, Krig-ha, bandolo! (1973), que a carreira de Raul Seixas realmente disparou.
Dividindo composições com o escritor Paulo Coelho, o vocalista mergulhou na sua fase mais transcendental, ao ponto de idealizar uma ordem filosófica inspirada pelo bruxo inglês Aleister Crowley. A ditadura militar, no entanto, não gostou dessa conversa de Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei, e perseguiu Raulzito por muitos anos. A situação rendeu letras censuradas e até sessões de tortura nas mãos dos militares - tudo para saber quem eram os "guerrilheiros" da tal Sociedade Alternativa.
Autor de hinos eternos do rock nacional, como Gita, Ouro de tolo, Eu nasci há 10 mil anos atrás e Metamorfose ambulante, Raul Seixas colecionou tantos percalços quanto sucessos. Os excessos da vida de roqueiro o levaram ao alcoolismo, que inviabilizou vários dos seus relacionamentos amorosos e destruiu lentamente sua saúde. Desenvolveu diabetes e hipertensão, precisou fazer uma cirurgia (em 1979) para retirar parte do pâncreas e chegou ao ponto de cheirar éter etílico, já que o estômago não aguentava mais bebidas destiladas. O álcool chegou a pôr em risco até a aparentemente inabalável idolatria dos fãs: em 1982, estava tão bêbado durante um show em Caieiras, São Paulo, que precisou ser retirado pela polícia para não ser linchado, já que a plateia jurava estar diante de um impostor.
Com a saúde destroçada, o Maluco Beleza acabou falecendo em 21 de agosto de 1989, em um infarto fulminante disparado pela pancreatite. Dias antes, havia lançado o LP A panela do diabo, ao lado de Marcelo Nova - disco que acabou se tornando um sucesso de vendas e é visto por muitos críticos e fãs como um dos melhores de sua carreira.
Se já era lenda antes de partir para outro plano, sua estrela segue iluminando a música nacional. Não resta dúvida de que, quando os shows presenciais voltarem no Brasil pós-pandemia, haverá quem erga a voz para gritar "toca Raul!" - um misto de deboche e devoção bem ao gosto do homenageado, e que garante a justa presença de Raulzito em qualquer lugar onde esteja rolando o rock'n'roll.
Comentários