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literatura

Notícia da edição impressa de 22/06/2020. Alterada em 22/06 às 13h59min

Eliane Marques e a fonte das palavras da mulher negra

Poeta criou no YouTube projeto 'Orisun Oro', para traduzir poemas de escritoras africanas e latino-americanas

Poeta criou no YouTube projeto 'Orisun Oro', para traduzir poemas de escritoras africanas e latino-americanas


SABRINA GABANA/DIVULGAÇÃO/JC
Roberta Requia
A escritora Eliane Marques deu início a um novo plano durante a quarentena. Tradutora, ela criou o projeto Orisun Oro (traduzido do Iorubá como "fonte da palavra"), que tem como objetivo traduzir para o português brasileiro poemas de escritoras negras africanas e latino-americanas. "Nossa meta é que, ao final, um estudante, por exemplo, possa abrir o mapa da África, dar um clique na Etiópia, e ver o nome da Mathem Shiferraw e um poema dela. O mesmo com o Uruguai, que apareça o nome de uma poeta uruguaia." Para Eliane, o leitor brasileiro possui pouco contato com as produções desses países: "Todos eles possuem movimento negro, mas isso não chega aqui por conta do racismo no Brasil".
A escritora Eliane Marques deu início a um novo plano durante a quarentena. Tradutora, ela criou o projeto Orisun Oro (traduzido do Iorubá como "fonte da palavra"), que tem como objetivo traduzir para o português brasileiro poemas de escritoras negras africanas e latino-americanas. "Nossa meta é que, ao final, um estudante, por exemplo, possa abrir o mapa da África, dar um clique na Etiópia, e ver o nome da Mathem Shiferraw e um poema dela. O mesmo com o Uruguai, que apareça o nome de uma poeta uruguaia." Para Eliane, o leitor brasileiro possui pouco contato com as produções desses países: "Todos eles possuem movimento negro, mas isso não chega aqui por conta do racismo no Brasil".
O projeto conta com três fases. Eliane e o professor parceiro, Adriano Migliavaca, selecionam o poema a ser traduzido. Depois, a designer Aline Gonçalves desenvolve uma peça gráfica com o nome e o país da autora, reforçando a importância do reconhecimento visual. Na terceira etapa, o grupo convida jovens negras para interpretar o texto em uma produção audiovisual. No poema de estreia, Para uma saia de seda ao sol, da escritora africana Ama Ata Aidoo, de Gana, a bailarina e atriz Danielle Costa apresenta sua interpretação e leitura. O vídeo marcou a abertura do canal no YouTube Por Eliane Marques e Escola de Poesia.
Além do acesso aos poemas, um dos objetivos é o reconhecimento dessas escritoras pelo Brasil. "Esse nomes foram apagados, às vezes até maltratados. É importante que sejam veiculados", acrescenta Eliane.
Para ela, é vital que esses trabalhos sejam reconhecidos como obra de arte, e não apenas como documento sociológico: "Nossas produções ainda são consideradas desse ponto de vista, como se não pudéssemos produzir algo além do objeto de estudo, geralmente para pessoas brancas da academia, embora isso esteja mudando". "Reconhecer que nós, mulheres negras, podemos utilizar nossas mãos para produzir arte é, sim, um grande problema para a sociedade estruturada sob racismo. Que não se restringe simplesmente ao tratar mal um negro, mas que diz qual o lugar dessas pessoas e como essas pessoas se movimentam, quem vive e quem morre, como vive e como morre", completa.
Sobre o racismo no mercado das artes, Eliane considera que mulheres negras enfrentam obstáculos perpetuados por conta do racismo descendente da política escravagista na qual o Brasil foi fundado. Primeiro, a mulher escravizada trabalhava nas plantações ou nas chamadas casas-grandes. Depois, foi designada ao trabalho de empregada doméstica nas "casas de família". "Ouvi minha mãe dizer, minha avó dizer, como se a nossa casa não fosse uma casa de família, apenas a casa dos patrões fosse uma casa digna de família", conta a poeta.
Por conta dessas imposições, se permitir realizar um movimento contrário a essa destinação torna-se um ato político por si só. "A minha mão pode ser utilizada para lavar, para cozinhar e para passar, mas também pode ser usada para escrever. Se autorizar a isso é um passo muito grande. Por isso, todo o ato de escrita de uma mulher negra, seja que produção for, é um ato político".
Eliane é graduada em Pedagogia e Direito e mestre em Direito Público. Seu livro e se alguém o pano (Escola de Poesia, 2015) ganhou o Prêmio Açorianos de Literatura no ano seguinte na categoria de poemas.
Sobre as manifestações antirracistas que têm tomado conta de diversos países, Eliane lembra do caso da morte de Miguel Otavio, de cinco anos, que caiu do nono andar de um prédio de luxo no Recife, após ser deixado aos cuidados da patroa de sua mãe, que trabalhava como empregada doméstica no momento da queda. "Durante 400 anos, minhas ancestrais cuidaram dos filhos de mulheres brancas dessas 'patroas', e, às vezes, não cuidavam nem dos seus filhos. Isso é um trabalho, mas a questão é que ele é considerado um exercício menor frente a outras profissões."
Para a escritora, episódios como esse servem para demonstrar que o racismo toma percursos diferentes ao longo da história e que estão diretamente ligados a essa pandemia, quando as mulheres negras ainda são designadas a cargos domésticos. "O trabalho de cuidar permitiu que as mulheres também saíssem de casa, que pudessem ser feministas brancas. As mulheres negras continuam cuidando e continuam não sendo cuidadas. Esse racismo vai só se transformando, ele não é o mesmo."
Seja através da tomada dos locais de direito, nas artes, nos locais públicos ou mesmo nas ruas, o projeto liderado pela escritora trata sobre a luta antirracista: "Estamos também fazendo a nossa parte. Não é só colocar um card 'seja antirracista' ou 'Vidas negras importam'. Temos que dar importância a essas vidas. A frase não pode ser algo vazio". Não apenas por meio de manifestações, o movimento liderado por Eliane reconhece e incentiva a produção poética de pessoas negras e o seu reconhecimento pelo público.
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