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Música

Notícia da edição impressa de 23/06/2020. Alterada em 22/06 às 19h18min

Os 90 anos da musa Elza Soares, aniversariante desta terça-feira

Aos 90 anos, a cantora Elza Soares mantém sua força como um dos maiores ícones da cultura brasileira

Aos 90 anos, a cantora Elza Soares mantém sua força como um dos maiores ícones da cultura brasileira


MARCOS HERMES/DIVULGAÇÃO/JC
Igor Natusch
Elza Soares é brasileira. Mulher, negra, favelada - vencedora. Não é à toa que a cantora, que nesta terça-feira (23) completa (ao que parece) 90 anos de vida, é capaz de resumir o Brasil dos excluídos em sua voz: não há uma dor que não conheça, uma verdade que não tenha experimentado, uma nota que saia dela sem estar carregada de verdade. Vivendo hoje um dos momentos mais consagradores de sua carreira, Elza é fenômeno e, ao mesmo tempo, um testemunho - de si mesma, e de todos e todas que estão à margem em nosso País.
Elza Soares é brasileira. Mulher, negra, favelada - vencedora. Não é à toa que a cantora, que nesta terça-feira (23) completa (ao que parece) 90 anos de vida, é capaz de resumir o Brasil dos excluídos em sua voz: não há uma dor que não conheça, uma verdade que não tenha experimentado, uma nota que saia dela sem estar carregada de verdade. Vivendo hoje um dos momentos mais consagradores de sua carreira, Elza é fenômeno e, ao mesmo tempo, um testemunho - de si mesma, e de todos e todas que estão à margem em nosso País.
Como todas as entidades, Elza é envolta em algumas incertezas. Seu próprio nascimento é uma delas. Há mais de uma data possível para sua chegada ao mundo; em 2017, recebeu muitas homenagens pelo que seriam 80 anos de vida. Sem certidão de nascimento, extraviada há muitas décadas, o documento mais próximo é o de sua emancipação, necessário para que se casasse ainda menor de idade - e que atribui seu nascimento ao dia 23 de junho de 1930.
A própria Elza não se importa com essa indefinição. "Sou atemporal", disse, em mais de uma entrevista. O que é verdade, em vários sentidos.
Toda queda é uma chance de se reerguer. E se a trajetória de Elza Soares é a de uma mulher que se levanta, isso tem muito a ver com sua disposição permanente em não aceitar a queda. E foram várias, no decorrer de sua carreira - nenhuma delas, contudo, forte o suficiente para mantê-la no chão. Nascida na favela da Vila Vintém, no Rio de Janeiro, casou-se com cerca de 13 anos de idade, depois que o pai a viu brigando com um homem e acreditou que os dois estavam fazendo sexo. Aos 21 anos, já era viúva e tinha dado luz a seis filhos - dois deles mortos ainda na infância. Outra filha, Dilma, foi sequestrada e reencontrada apenas três décadas depois.
Em uma juventude de muitos percalços e poucas datas, o ano de 1953 traz um dos poucos marcos sólidos - e um dos momentos definidores na vida de Elza. No programa Calouros em desfile, na Rádio Tupi, Elza desconcertou Ary Barroso duas vezes. Primeiro, ao responder a uma maldade do apresentador sobre suas roupas dizendo que tinha vindo do "planeta fome" - história que, décadas mais tarde, batizaria seu mais recente álbum de estúdio, lançado em 2019. Depois, com uma interpretação visceral de Lama, de Paulo Marques e Aylce Chaves, que acabou tirando nota máxima.
"Senhoras e senhores, nasce uma estrela", disse Ary Barroso, abraçado na então desconhecida cantora. Estava certo, e errado ao mesmo tempo: o brilho vinha de muito antes, e ainda levaria uns bons anos até ser reconhecido - sempre enfrentando, em diferentes momentos, o racismo entranhado na sociedade brasileira.
Depois de uma temporada na Argentina, onde cantava em pequenos clubes, Elza teve o primeiro momento de consagração em 1960, com a hoje clássica gravação de Se acaso você chegasse, do gaúcho Lupicínio Rodrigues. Tornou-se a rainha do sambalanço, em um período de sucesso que coincidiu com seu longo, notório e conturbado relacionamento com Garrincha.
Para muitos, era a megera que tinha acabado com o casamento do craque do futebol; ao mesmo tempo, tinha que lidar com agressões físicas e o alcoolismo do marido, que resultou até na morte de Dona Josefa, mãe de Elza, em um acidente de carro em 1969. Conhecido como Garrinchinha, o único filho do casal também morreu em uma colisão, em 1986, com apenas nove anos. Segundo a cantora, de todas as suas muitas dores, esta foi a que a deixou mais perto de enlouquecer.
Uma história de vida cheia de quedas, sim. Mas que não se permitiu ser lembrada com piedade. "Pelo amor de Deus, não me coloca como uma santa", pediu ao biógrafo Zeca Camargo, que publicou um livro sobre ela em 2018. De fato, ela soube vencer os maus momentos e reinventar a si mesma, e não foi poucas vezes: fez sucesso ao lado de Caetano Veloso em 1984 com Língua, gravou rock com Cazuza e Titãs, representou o Brasil na série Concertos do milênio da rádio BBC inglesa.
Hoje, Elza Soares é uma figura quase divina. Heroína da cultura negra brasileira, ícone feminista, idolatrada pela comunidade LGBT, a cantora soma tudo isso a um legado musical vibrante. Seu trabalho Do cóccix ao pescoço (2003) foi indicado ao Grammy Latino, mas foi o bombástico e já clássico A mulher do fim do mundo (2015) que redefiniu a música de Elza e trouxe a consagração definitiva.
Não é nenhum exagero dizer que é o mais importante disco de MPB dos últimos tempos; o badalado portal norte-americano Pitchfork, que colocou a brasileira entre os melhores lançamentos de 2016, o descreveu como "o álbum da vida dela, em todos os sentidos". Um reconhecimento que coloca Elza Soares como destaque em dois milênios diferentes, nada menos que isso. Uma mulher, de fato, atemporal.
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